fevereiro 15, 2010

terça-feira de carnaval

deixei o homem em casa, batom vermelho na boca, pena azul na orelha;
a rua de paralepípedo, este vai-e-vem, vem aqui meu bem, nesta louca dança;
amélia, carol e lina, e a minha alegria.

a rua me seduz, toda gente é bicho, atrás de luz, mariposa, atrás de flor, abelha;
e o samba soluça seu choramingar, os corações juntos a batucar, corpo que nunca se cansa;
laura, luisa e josé, pisaram no meu pé.

o meu homem se enfadonha, dorme, ronca, não mais me olha, quem me molha é amé-lha;
olhou-me nos olhos, comeu meu medo, deu de carinhar, meu corpo nessa dança balança;
amélia, amélia, amor, sinto tanto calor.

noite, linda noite se consome, o sol que nasce minha alegria come, adeus amélia;
alma solitária, vazia, quase chora, maquiagem colorida se borra, toda euforia se amansa;
amansa amélia e tchau, até o próximo carnaval.

fevereiro 01, 2010

eu mesma.

sou eu mesma desde que nasci, se nasci quando me lembrei, se minha vontade criou-se do nada, ou tudo isso é memória recriada para parecer mais fantasiada? gostava mesmo dos livros encadernados, cheio de figuras, gostava do nome do escritor na capa. isso é presencial. talvez eu quisesse ser estrela - vamos parar de romantizar o meu passado. não é só porque eu nunca quis ser modelo, que não quis ser famosa. quis ser escritora, e ser famosa. obrigatoriamente. assim como a maioria das modelos não se tornam famosas, tampouco as escritoras. o mundo da moda e o mundo das artes se confundem muito facilmente.
então esta ilusão que sempre fui eu mesma, sempre introvertida e tímida, nenhum acontecimento me fez ficar assim. talvez alguns tenham intesificado, mas a personalidade veio intrísica aos olhos fugidios. e esta mania de desistir? não sei se foi criada, mas sempre me pareceu presente. talvez, então, tenha sido eu mesma, desde que nasci, lendo um livro, chorando escondida, gritando.
mas o mundo sempre se expandiu. o mundo sempre mudou! e eu me expandi com ele, eu não mudei um pouco de cada vez: foram explosões no espírito. no espírito do mundo. a primeira que tenho clara: quando mudei-me para o primeiro ano para o Bentão. saí de escola particular, pequena e apertada, sempre tive os mesmos amigos - crescemos juntos e agradeço por isso. descobrimos as coisas lendo na internet, compartilhando impressões assustadas, delineando nossas próprias personalidades teóricas, que não se repetiram em igualdade em nenhum de nós.
e então, o mundo novo se abriu. era tanta gente, era tana informação, era tanta coisa na prática: e foi tanta decepção. logo eu, queria entrar num mundo maior, num mundo de filmes punks sujos, e me encravei por pátios abertos, pelas turmas populares (enganam-se então, os filmes americanos, estas turmas populares, por excelência, acumulam um tanto de gente que os odeia, e não os inveja de jeito nenhum, e os populares na verdade, são os nerds, estranhos e losers). mas tudo foi uma festa: assim me lembro do meu primeiro ano, uma grande festa. eu estava espantada a todo momento, mas não podia deixar meu queixo caído o tempo todo. eu tentei me expandir a todo tempo, eu me adaptei rapidamente: logo, eu amava esse novo mundo.
mais recente, um outro mundo se abriu, muito mais real e sujo, quando entrei no cursinho. ainda bem que fiz cursinho, pois não estaria espiritualmente preparada para uma faculdade. novamente me assutei, e novamente fingi que tudo era normal, para os outros, neguei a mim mesma um passado de amores platônicos e desistentes, loucuras normais e conversas fúteis. finalmente: aqui estou. hoje sou menos culta do que nunca; embora sempre busquei isso. hoje, já tenho preguiça de citar livros e filmes, tenho preguiça de esconder meu preconceito, de não formar estereótipos. e também, hoje sou mais real. tenho até preguiça de conversas filosóficas em certos momentos, e do bom e correto sempre bem intencionado. estou propensa à loucura fútil e busco isso: busco uma dose de alegria na vida amarga. e poderá me dizer, então, ah que vida amarga o quê, que adolescente boba, que adolescente boba! este esteriótipo me percorre por toda vida. ainda peço desculpas por ser uma adolescente boba. mas veja bem: a vida me amargou já, a vida me deixou triste e pesada, me recobriu de chumbo, e foi quando eu vi outro mundo.
vi outro mundo quando descobriam o tumor da minha irmã, o meu próprio mundo, o meu espírito conturbado, o negrume de tudo, sim! e vi um mundo que não conhecia, só ouvia falar, o mundo da luta por doenças ingratas e sem explicação, misturado à falta de dinheiro, tempo, misturado ao cansaço de tudo, à vontade de desistir, e o amor. um mundo de amor e cansaço se abriu para mim, e o que parecia contraditório, na verdade, se fortalecia. não existe luz, sem sombra, já diziam tantos. este mundo fortaleceu meu lado mais íntimo: não era a vida (a grande festa) que se mostrava, mas sim a morte (a grande dor), face a face. conhecer a morte é um dos caminhos mais dolorosos para entender a vida, mas, por isso mesmo, perdura como não cem mil festas ou conversas profundas poderão nos ensinar.
vi mundos diversos: vi meu mundo desabar ao ser assaltada pela primeira vez (na verdade segunda, mas na primeira só tive vontade de rir - histórias à parte). um mundo meu que primava pela justiça social e pela bondade da natureza humana se desfez em alguns segundos de pura raiva. eu não pude entender - eu ainda não entendo - logo eu? olá, assaltante, eu estava disposta a mudar essa merda de sociedade por você, mas por que você faz isso? por que fala que vai me matar? eu já conheci a morte, você não deveria fazer isso comigo, você sabe, eu sei que você conhece a morte mais que eu, tão mais, que ela é banal para você. para você, então, conhecer a morte não fez celebrar a vida, e sim, tornar a vida um fiapo, um nada, facilmente eliminável. são destas coisas, não são? são destas coisas que me faz ter sentimentos nobres - eu disse que estudei em escola particular? - que me faz parecer superior, mas todos estamos num barco, mas o seu está mais furado que o meu, vê? e esteve afim de me afogar, já que o meu barco continha um buraco talvez consertável.
e o mundo se expande continuamente, e a minha alma aqui dentro modifica-se a cada expansão, mesmo que seja contraída, e fique com medo, que medo deste mundo! e mesmo com todo este temor, eu peço, quero que meu mundo se expanda mais, para assim, eu tornar a me assustar, e ter que me adaptar, e ficar por uns segundos eternamente encantada com o mundo novo apresentado.
mas os mundos se vão e são suplantados por outros maiores, continuamente, será? ou será que essa é uma fase adolescente, e quando os sonhos se vão pela realidade crua e tosca, o mundo tende a se tornar menor? cresce até não poder mais, como um balão, e com o passar dos anos, oi balão perde ar sozinho - não é sempre assim? - torna-se mucho e fraco, sem graça, até acabar por se esvaziar sozinho, ou então, alguém o estourará, irritado por este balão fraco e desajeitado - desaptado ao novo mundo.
espero que os mundos não sejam balões... mas será melhor estourá-los quando estão em sua fase melhor? cheios de vida, cheios de planos, cheios de cores, de um mundo grande, e você, andarilho, pronto para conquistá-lo e engulir tudo que lhe mostram no caminho? a morte será a explosão em pedaços rasgados de um mundo, e a eterna ilusão do espírito que ficou preso no mundo das maravilhas.
não sei, como eu saberei? por agora, o meu mundo se expande, e eu acompanho, saciada e feliz, por sempre me modificar, e por isso - então é por isso? - eu não sou quem nasci, de tanta modificação, mas ainda restará um pouco de mim em qualquer mundo que eu pise, não? ainda restará uma força mínima que me acompanha desde o nascimento, e esta força, que acabará por me enterrar debaixo de sete palmos de mundos pesados.

janeiro 19, 2010

dos urubus

mas olhe, veja bem, acompanhe a cena: o nobre está para morrer. como sabem, todos, que a morte ronda seu espírito? acham que o sabem. o velho agoniza na cama há dias, de uma febre de não se-sabe-o-quê, peste negra, febre terçãa, no fim, acaba tudo sendo castigo de Deus. e os outros, como que avisados por este Deus misterioso, postam-se perto do seu quarto. velhas mulheres de preto reviram os olhos, e choramingam rezas antigas e cruéis. os conselheiros, mais perto da cama, espicham de rabo de olho, como répteis aguçados, um pouco temerosos de não mais participar da corte, e um pouco gananciosos de certa herança, e a língua guardada dentro da boca - mas ah! se fossem lagartos, todos veriam - o veneno doce da vingança. há uma infinidade de pessoas, não se sabe daonde, que ali ficam, vestidos de negro da cabeça aos pés. sobrinhos e sobrinhas, com olhares de malícia uns para os outros, que ninguém é de ferro enquanto espera a morte chegar. filhos, filhas, netos entediados. a mulher, se já não morreu antes, ajoelhada do lado da cama, desde o dia que seu marido tossiu sangue, tem sim os joelhos doendo - por que não teria? - e entende que Deus escolheu aquela hora pro seu marido. não foi, Senhor? então por que não leva este marido que me deu uma vida de desgostos d'alma, de uma vez? enquanto isso, os olhos vermelhos, chorosos, os lenços brancos molhados, uma encenação que se faz passar por real - o corpo da gente já sabe quando é preciso encenar. e mesmo que a morte esteja muito ocupada nos campos de batalha, nas grandes guerras, entre as crianças adoecidas, com os pobres jogados em valas comuns e sem tempo para chorar em grandes enterros, é empurrada para tais castelos suntuosos. é empurrada - sim, como não seria? - se há tanta gente ali, o padre já pronto, o quase-defunto já confessara seus pecados, falta o tom da morte para o contínuo das histórias. acho eu, vendo desta óptica de hoje, o ontem, acho eu que toda essa morbidez, que toda essa pretidão que veste o mundo, todas as preces baixas antes da hora, aceleraram as mortes destes velhos nobres. tudo isto já é morte, não? imagina se o velho passa a sentir bem, recobre-se a cor, não mais pálido, não mais fraco, e recomeça a assinar papéis e desfrutar de cortesãs selecionadas, hein? não é mais possível, pensa a morte, sem seu canto, calculando os números atingidos. e por qualquer que seja o motivo, cai-se o nobre, morre-se, depois de palavras histéricas, afundadas em roncos roucos e soluços tardios, poderá pedir perdão à mulher? poderá avisar que cuidem da amante prenha e amada que chora na choupana destroçada? poderá chamar o filho e rogar-lhe preces de sucesso para a continuidade da tradição familiar? revelará um segredo escondido à sete chaves? ou apenas, morrerá, enfim, sem nada a dizer, ranzinza e enfadonho de viver a vida, de provar dos mais bem feitos vinhos, das mais formosas tetas, dos mais famosos bailes, dos maiores desgostos de filhos que se enveredam por caminhos da burguesias ou pensam em se casar com raparigas. não é assim, não? então, é melhor deixar o mundo para que sigam o caminho deles, né? e morre-se assim, e no fundo, toda a corja, respira, cansada dos trajes pesados e quentes, cansada de toda formalidade. e o que resta? restarão as intrigas, as disputas, os mal-explicados, uma amante miserável.
restarão um filme inteiro, não? em tempos que a moral e a étnica não eram das mais bem explicadas, e toda essa chatisse do tempo de vocês, toda essa justiça que só cai em injustiça, e essa legislação que nada legisla, tudo isso não existia, mas no fim, dará no mesmo, não?

eu, como contador da história, e não da História com H maiúsculo, pois nada mais entendo que fuxicos e tento decifrar as feições malignas, eu, como vencedor dos tempos, e não do Tempo, não senhor, não sou Deus, não sou profeta, sou mero observador, de todos os tempos: eu... lhes digo que quase nada disto mudou. os pobres continuam a ser enterrados em valas, terrenos comuns, jogados ao mar, e dura pouco seu luto, e dura pouco sua intriga, e dura pouco seu sexo. do resto, necessita-se sobreviver. e quando a sobrevivência já é garantida, diria eu aos nobres, diria eu ás classes altas de todas as sociedades estratificadas: aí vem-se a vida. e o que é a vida mais do que busca pelo prazer, por amores demorados e chatos - quando não platônicos, ah, que horror - disputa por status e tronos, intrigas entre irmãos, entre sócios, entre corporações, ambições e sonhos, tudo isto não é a vida, meu caro? então aproveite bem a vida que lhe foi dada, e em vez de observar - como fiz isso, embora tenha trocado por esta chata eterninade (porque a história é um ciclo enfadonho) - faça de tudo para criar confusão, neste mundo, a confusão serão seus passos, a busca de si será seu maior apreço.
mas... veja.
se você for pobre, caro rapaz, esqueça-se de tudo que disse até agora, esqueça-se de tudo, para não pensar que há gente capaz de criar confusão, que há gente capaz de criar enterros, sim, inventam-se os enterros, os lutos! esqueça-se e siga, jamais tenha se encontrado comigo: pois sou bobo da corte, sou palhaço pago pela elite, sou o interesse de quem interessa, e nada tenho a dizer a você.

janeiro 17, 2010

os olhos que deixei escapar de mim

então você tinha aqueles olhos. costumava pensar que viviam suas retinas num constante entardecer: a hora mais bonita do dia. entardeciam-se, preguiçosamente, amarelavam-se, avermelhavam-se, de todas as cores explodiam, para jamais escurecer. tudo recomeçava, dando-me vontade de beber tal líquido que era feito aquilo. e esses olhos me olhavam com tanto carinho! nunca mais me encontrei com olhos que repetissem sua análise minuciosa de mim mesma. ia percorrendo cada poro de pele, cada pigmento de cor avermelhada, que é a minha. via seus olhos se divertirem com meus fios de cabelo, parecia saber percorrer um a um, separá-los, mesmo que eu não conseguisse nem com a ajuda de uma escova. seus olhos tudo percustrariam. mas não eram policiais, ah não! transbordavam de amor incontido, iam pouco a pouco, delineando uma versão de mim que servia à você. concentrava-se no meu nariz, um pouco arrebitado, perpassavam carinhosamente pela minha orelha - um monte de pele retorcida de maneira confusa. olhavam muito a minha boca, uma linha fina de boca clara, cor-de-rosa, sem batom; parecia adentrar dentro da boca, observar a gengiva vermelha, os dentes não tão brancos que ainda conservo inteiros, a saliva transparente que se esparrama em ritmo compassado, iam os olhos garganta dentro, o muco, os músculos, iam corpo adentro, tudo percorriam, dentro e fora; mesmo com a boca fechada, eles viam - não viam? iam os olhos, de uma ternura e de uma malícia incompreensível aos meus - olhos um pouco apáticos, numa eterna noite sem estrelas - iam os olhos conhecer o caminho do meu corpo. subiam os seios com delicadeza, desciam os vales, se deliciavam nas costas curvadas, contavam as vértebras, corriam pelas pernas, pela pélvis, pela vagina também adentravam! ah, que lembrança destes olhos! fazia-me mais excitada só de olhar lá dentro do que quando queria sexo, e fechava os olhos - tão queridos! - para gozar. lá dentro, seus olhos viam tudo, e eu não tive vergonha, porque eram olhos de um amor brando, um amor com trajeito de eterno. até as unhas dos pés, pintadas de esmalte incolor, percorriam os olhos entardecidos, um pouco tristes com o fim do corpo. e os pêlos da pele, procurava a raiz, e dos cílios, e dos pêlos do nariz. uma pinta ou outra que tinha no corpo, achavam os olhos vorazes, uma mancha de nascença por muito tempo se concentravam. tu tinhas olhos de artista! ou eram olhos de namorado.
mas que olhos o quê, nunca soube retribuir tanto olhar - tanto amor! - para dar. dos seus olhos me despedi, e não deixei mais que me desnudasse com um olhar abusivo. preferi outros olhares, por aí, de dias ensolarados, olhares inconstantes, tempestuosos, que me descabelaram, e me fizeram morrer um pouco. com eles eu morri, com os seus só vivi. e só hoje percebo os olhos que deixei escapar de mim, a preferir olhares frios, distantes, azuis escuros, negros e pardos. e só hoje te digo, sem medo:
nunca mais encontrarei olhos que me olharão do jeito que os seus foram capazes, olhares de um amor pueril, intenso e machucado. e dos seus olhos, não quero mais saber - não, a vida já é dor sem voltar para trás - mas também, não importa: jamais irei me esquecer, destes olhos de entardecer.