agosto 28, 2010

S

seu nome escorrega e vai
nesse vai e vem, vem, meu bem
seu nome de s é sal a gosto
é te esperar com tanto desgosto

seu nome de seu tem de sua
vai numa volta e volta noutra
eu me perdi nessa sua curva
e agora te espero com a chuva

seu nome de s é saudade
saudade que cala e não volta
saudade que fica e engasga
saudosa no nome e e na vida

agosto 22, 2010

te vi por acaso na cidade

te vi por acaso, entre as ruas da cidade e sem acaso você mal falou comigo, dirigiu seu olhar (de um azul gélido que nem sei) e eu, um pouco assustada - como não poderia? - ao te ver ali, bem ali, me pegando desprevinida, num encontro que ninguém sabia. nada fiz, além de te despejar o meu longo olhar, que é castanho, porém é cheio de vontades de você. queria era te fazer meu homem, embora você já o seja antes disso, com esse seu cigarro pendendo da boca, a menina, a menina sou eu, com uma flor mastigada entre os dentes ainda brancos (e os seus são tão amarelados, amor!). mas sem pestanejar, meu homem você não, seguiu em frente, indiferente e só, plácido e lascivo - nos meus mais sorrateiros pensamentos, lascivo e languido, de frente para mim. você seguiu pela cidade, se confundindo com a sua cor, o tom bege das pedras da calcada, as pastilhas desgastadas dos prédios antigos e decaídos, os tons de cinza do asfalto. tornou-se a cidade, parte dela, massa não compacta e heterogênea, convulsionada, louca e colorida. confundiu-se com os rostos tristes, semblantes de quadros modernistas, a boca encerrada por si e os olhos abertos sem ver e o corpo que se move apenas pelo objetivo bastante e só. o quão egoista é este mundo! o quão egoísta você se tornou, misturando-se à turba urbana, à trupe fria que habita esta mesma nossa cidade. e fico crente de perceber que você é tão piche quanto o asfalto, tão argamassa quanto a construcão, um mosaico sem forma das pastilhas caídas e amareladas, o tempo que escorre pelas paredes e postes, o chiclete na rua que nunca some. será que toda a forca que vem do meu amor, todo amor que dediquei à sua revolucão entoada não por poesia, mas por brados políticos carregados de intencões e estigmas maquiavélicos acabará por terra - não terra, mas cimento, então, soterrado pela ausência de timbre? vermelha era sua camiseta quando na rua te avistei, mas já não sei se vermelho é o seu sangue e se em seu corpo deterioriado pelos vícios da idade (e da cidade) guarda uma alma singular, a louca e única faísca de algo que escapa, a diferenca mais explosiva entre ser humano e ser turba conformada. só não sei se de seus olhos escapariam uma chance de tudo desafiar e de me amar, ao menos no seu pensar, e de amar (ao menos então!) o mundo que o envolve - ainda que sádico, trágico, cômico, ignóbil, doentio e estremuchado. espero, enfim, o chamado da sua alma para um dia talvez de você realmente me aproximar e não apenas te olhar entre os tantos (e os tontos), distanciada e só, assim como olho para esta minha cidade que, apesar de tudo e tanto, não parecer. espero que no azul do teu olho exista uma chance de fuga, para assim, fazermos da cidade nossa morada, nosso mundo, nosso ideal e fazer brotar do cinza do chão o vermelho sangue que corre por suas veias, pois ainda não morta, mas em coma sem diagnóstico nem acompanhante.

p.s: perdoem a falta de cedilha.

julho 27, 2010

sobre se reerguer (ou não)

escuta, achei melhor arrancar meu coração. cirgurgia simples, quase indolor. foi durante o sono, porque consciência, quando tá ativa, enche o saco. vem cheia de indagações, vem cheia de incertezas, vem cheia de pavores. foi lá, feito linha tracejada em volta do órgão, e em volta do órgão, o tirei, completo, ainda bombeando um sangue invisível. foi assim: decisão tomada de uma hora para outra. e foi assim: quando você se foi. porque é preciso saber lidar com a partida, é preciso saber lidar com a ausência. poderia, então, começar a ir num analista. poderia, então, me afundar de vez na vida. mas não: preferi não sentir mais dor. não sentir mais nada. não querer sentir, só esquecer. cada dia é um dia: junto do coração me vai a memória de supetão. a memória é recheada de lembranças sentimentais, sem as tais, deixa de existir e fica aquela... funcional - que em mim pouco funciona, mas veja lá, dá para se viver. e por aí fui... para cada dia rir de novo da mesma piada, estar bem com as mesmas pessoas, que é para deixar de perceber que você não está mais aqui. porque com o coração se vai a esperança, essa agonia que insistem em otimizá-la, mas não passa de espera dolorida, ferrugem que corrói.
mas não - pior que não, não tirei meu coração, não ousaria a tanto, não poderia com isso. sem coração de que adianta viver? e se vivo é para te homenagear, para ser um pouco daquilo que você me ensinou a ser.
acho bem que o costurei, sim, mal sei costurar, mas acho bem que sei costurar coração. é preciso agulha, é preciso linha, é preciso falta de amor próprio. costurar o coração pouco a pouco, encapá-lo, feito almofada, patchwork, bordado, crochê, falta-me a técnica. costurei com linhas tortas, com desajeito, entre lágrimas que não cessavam. eu estava tentando fazer elas pararem, e assim, encapado e dentro do meu peito, eu poderia esquecer, eu poderia deixar de esperar, eu poderia fingir que não tinha coração. bate ele, agora, o suficiente para me deixar viva, para me deixar sentir um pouco que seja.
e pela falta de técnica, pelo desajeito, pela falta de conhecimento de como se deve proceder nestas horas funestas, deixei vários furos. por estes furos, conectando o lado de dentro, o coração quase farto, e o de fora... ainda sinto sua falta, ainda me lembro do seu riso e ainda espero que você esteja, algum dia, do meu lado. que você esteja, algum dia, para me fazer feliz como fui com você. é carregando tristeza e a despejando na veia, por estes furos finos, que vou sendo tomada, de corpo inteiro, por ela, tornando-me mais pálida talvez. tristeza essa, ácida, constante, invasiva. jorra com intensidade quando passo pela estante do meu quarto (e lá estão suas bonecas de pano sorrindo ironicamente) pelas lojas de brinquedo pelas ruas pelo milkshake pelo mc donald's pelos livros infantis pelas crianças outras por tudo que eu sinto, irreversivelmente, eu sinto, vontade de destruir. e torna-se branda, quase imperceptível, quando não estou sozinha, e então minha costura bem funciona, veja só: eu rio, porque me esqueço, eu amo, porque me convem, eu sofro por causas pequenas. só assim eu conseguiria viver, aos trancos de não ser inteira. porque ser inteira, menina, é estar do seu lado, com o coração desremendado, inteiro e desprotegido: sabendo viver a vida em sua máxima euforia. e não tendo como - por que diabos não tendo - viverei assim, de trancos de esquecimento, de tristezas herméticas, de risos salgados e respingados de ironia explosiva. e de um coração muito bem guardado, muito bem escondido, muito bem no fundo, de modo que ninguém há de tocá-lo de vez.
se este método é eficaz, aí já não sei, não poderei garantir (e é por isso que a consciência é melhor que fique quieta, sem interferir com sua razão insuportável onde não é chamada), mas aguardo as consequências sem maiores dores - até por que existirá maior dor, menina? - nem maiores entusiasmos. apenas vivo com o que me deram, não seria boba de me dar a morte ou de apenas existir num mundo tão cheio de aléns, apenas sobrevivo para ser um pouco, ainda e mesmo assim.

julho 06, 2010

virgínia

ela deu o nome da filha de virgínia, porque era virgem. ela, a mãe, jurava que era virgem. virgem, intacta, branca, olhos cor de mel, rabo-de-cavalo. não era feia. mas naquele dia, o dia em que concebera o filho (ou achava que fosse esse o dia, não havia outra explicação) ela saiu para a noite, pensar aflita sobre as dores da vida. é que a vida é cheia de dores, aqui e acolá, alfinetadas de insatisfação, problemas irritantes. ela não saiu para pensar na sua dor de ser virgem, porque não sentia dor nenhuma nisso. a vida é muito mais do que sexo ou não, ser desse tipo de gente ou daquele. não, mas naquele dia, tristonha e só, conheceu um homem, e foram para o bar, um bar cairia bem. ela gostava de beber, porque beber deixava a vida mais colorida, porque é preciso ber para aguentar a dor de ser si mesma. como é que os outros mortais não sucumbiam a delícia de não ser eles mesmos por algumas horas? dissertava ela, para o tal homem. depois, não se lembrou de nada. quando acordou, no dia seguinte, na sua própria cama, sem lençol nem cobertor, e ela adorava cobertor. tudo que se recordava era de um breu: um buraco na memória, uma falta de cor e de luz e aí, tudo bem. ela não levou a sério. continuou a viver. e aí, vieram aquelas dores. dores no abdomem, enjôos a qualquer motivo. uma chatice. foi no médico e descobriu: estava grávida. grávida como, doutor, se eu sou virgem? ele sorriu. deixou que ela engulisse a informação, ele deve estar pensando que eu sou louca, mas eu sou virgem. foi embora intrigada, conversou com as amigas, todas já muito bem cheias de sexo em suas vidas. e perguntram: e não doeu? e ela disse que não sentiu nada. e prazer, sentiu? olhou atônita. o que é prazer? tomar sorvete de morango numa tarde ensolarada era um prazer, um retorno a infância, o máximo de alegria que se contia. não, respondeu, pensando no prazer de chupar o sorvete, nenhum prazer, nenhuma dor. estranho, elas disseram. então elaboraram a teoria: tinha ele dado remédio, esses boa noite cinderela, esse tipo de coisa que apaga, e aí ele vai e pimba. ela ficou preocupada, voltou ao médico e disse: bem, doutor, pois é, eu achava que era virgem, mas tô achando que o cara me deu um daqueles boa noite cinderela, sabe como é? desmaia e vai. isso eu não ligo, não, o que eu ligo é se isso pode fazer mal pro meu filho. é uma droga, não é? e o doutor, acostumado com esse tipo de malandragem, sorriu e disse que não, não, fica tranquila, minha filha. e no final da consulta lhe prescreveu um psicológo que ela nunca foi. então, nasceu a filha: virgínia. algumas pessoas disseram que era para ela tirar o filho, mas tirar pra quê? por quê? não fazia sentido nenhum. e a filha, menina, tinha olhos pretos, pretos redondos feito jabuticaba, deve ser do homem da noite, não sei, bochechas rosadas, branca feito ela, nem tão magra nem tão gorda. e assim foi, nasceu virgínia, filha de mãe virgem. e ela? ela continuou a se proclamar virgem, com seu rabo-de-cavalo muito bem feito, sem nenhum fio desordenado.