janeiro 13, 2011
estive
estive apaixonada por você. estive sim, porque essa cara de espanto? paixão é paixão, ora essa. só porque eu sempre tive estes olhares frios, estes sorrisos distantes quer não dizer que sofro paixões? sofro, tanto mais que os outros, que se mostram enamorados, botam brilhos nos olhos, abrem as bocas e esfregam as mãos em todos, loucos e famintos, porém de paixão fácil e boba. eu me apaixono um tanto, de tanto em tanto, de vez em quando. minha paixão nunca acaba: ela só vai e volta, desce e reviravolta, revê e se revolta. certo dia, acordo pensando em você. durmo pensando em você. você no meu sonho, robusto e colorido. eu na cama, revirando-me, sonhando de olhos abertos, estatelada. sonho com seu sexo. com o nosso. fico a imaginar como é que é seu pau. se é grande, pequeno, gostoso de chupar. depois, esqueço-me de você. esqueço me em um único instante, assim, acabou. e vem-me outro na memória. e a semana doentia me ganha em outro corpo, em outro jeito, em outro falar. para inventar a sedução, é preciso conhecer as pessoas a fundo. por isso me apaixono por aquele que bem conheço: e por isso pago mal preço. minhas paixões são bizonhas, veja só, ás vezes me vejo apaixonada por gente que não. que não, sabe como é? que não e só, se eu pensasse racionalmente, era não, simples e sem receio. você é mesmo desse tipo, que não. que não e só. mas quando estou cega de razão, não sei. pensar nele me dá um calafrio na barriga, assim. arrepia os pêlos da nuca, aperto-me entre dois travesseiros, tenho vontade de choramingar, de pedir colo. de novo, pedem os sentidos, de novo. mas se levanto da cama e vejo a vida, e a vida tão racional e fria, tudo se acaba: assim, minhas paixões todas! tem um fim. a razão escalpela todas, nenhuma paixão minha faz menor sentido. e elas vem de quando em quando com esse cheiro de sexo. sim, porque amo pelo sexo que ainda virá. não sei se existe outro tipo de amor, ainda não se achegou a mim. deve ser amor dos velhos, ou que besteira pensar que a gente perde o apetite pelo corpo só porque vivemos por mais anos. não sei, não sou velha e não posso por eles falar. falo por ninguém, só por mim. mas como estava dizendo, estive sim apaixonada por você. queria você ou não. amando sua parceira - por sexo e só? - você ou não. sendo você sim ou não. e o verbo vem assim: estive apaixonada. estive porque um dia senti desejo de ti, mas não renuncio ao desejo que por ventura posso voltar a sentir. todos meus sentimentos são assim, desse estado: estive. quando os declaro, é que já são do passado. mas que do passado podem saltar sem mais nem menos ao futuro. estive porque é sempre e porque não morre. ai de mim quando voltar, ai de você para me aguentar.
janeiro 06, 2011
o fotógrafo que decidiu não mais fotografar
- Rui S. tem hoje 58 anos. É um dos fotógrafos mais influentes do Brasil. E está aqui, do meu lado, para nos contar melhor sobre sua decisão de não mais fotografar.
Rui se mexe desconfortavelmente na cadeira e olha para todos os cantos, como se não fosse ele o entrevistado.
- Então, Rui...
R: posso acender meu cigarro?
- Á vontade...
R: nunca se sabe não é, esta geração tão saúde... não entendo mais nada, viu.
Dá uma tragada no cigarro. A reporter sorri constrangida, retrai um pouco os lábios, mas logo depois os abre em um sorriso convidativo.
- É... vamos começar. Quando o senhor começou a fotografar?
R: foi em 80. quer dizer, fotografar mesmo, o ato de pegar uma câmera e tirar fotos eu era ainda moleque. acho que tinha uns 16 anos, tinha um tio que morava na França, trouxe de lá, era uma beleza de máquina.
Sorri sarcástico e olha para a reporter.
R: sabe como era não, de filme? aquilo que era fotografar, viu...
A reporter arqueia as sobrancelhas, impressionada com aquele sarcasmo bruto, aquele ali não iria facilitar nada pra ela. Tinha que entrar na dança. Rui olhava para cima e tinha um ar de riso no rosto.
- Por que aquilo que era fotografar?
R: eu tirava foto das pernas das meninas, debaixo da mesa, essas coisas. tínhamos que esperar dias para que se revelasse as fotos, ficávamos na maior ansiedade. aquele bando de muleque, quando eu chegava com as fotografias, era um alvoroço... isso que é beleza de fotografia, entende? aquilo era real, era sincero. puro e simples interesse pelas pernas das meninas.
Rui fecha a cara. Vê-se as rugas delineadas, a velhice dos cabelos grisalhos naquele retrato de nostalgia. O fotógrafo da reportagem bate uma foto. Vai pra capa, essa.
- Mas o senhor fez fotografias realmente lindas.
R: fiz pra quem, minha filha? no final, eu já não tinha pra quem fotografar.
- Por isso que o senhor resolveu parar?
R: não. não só por isso.
Rui olha para o lado e ignora a presença do fotógrafo, da reporter, do assistente. Dá uma tragada. Duas. Sabe que a reporter o olha insistentemente. Tem vontade de levantar. Chega a tirar o corpo da cadeira, mas a reporter ganha tempo.
- Mas e quando você fazia fotografia social... Tinha público, tinha objetivo, não é?
R: é... fotografia social, é cada termo que vocês inventam! eu comecei trabalhando no sindicato dos metalúrgicos, comecei minha vida profissional lá. fotografei todas aquelas greves, aquela luta, lula, tudo isso. gosto de algumas daquelas fotos, das metarlúrgicas, principalmente. são gente de verdade, sabe.
- E continou depois...
R: sim, eu tinha bastante vigor na época. e eu acreditava nisso, da fotografia poder... poder criar alguma emoção nas pessoas. alguma emoção movedora, sabe, modificadora mesmo. viajei pelo norte, pelo nordeste, tudo aquilo. não sou o único. e outros fizeram melhor que eu.
Rui apaga o cigarro no cinzeiro, a boca amarga, faz um sinal de água pro garçom. Falar disso sempre dá um amargo na boca.
- Você disse que acreditava nisso. Não acredita mais?
R: não... veja você, menina. você olha uma fotografia de um monte de criancinha magrinha, sujinha, elas tão há mais de quinhentos quilômetros de você, o que você sente?
A reporter arregala os olhos, não podia deixar isso acontecer, deixar o entrevistado tomar o lugar do entrevistador. Estava fazendo tudo errado.
R: piedade. todos nós sentimos piedade. e piedade leva a o quê? piedade não é um sentimento modificador, concorda comigo? ela acaba ali, olha que dó, essas crianças, olha esse país não tem jeito. você vai pegar um avião e dar sopa pra essa criança, vai? não. nem eu, que estive lá, fiz isso. tem fotógrafo que diz que tira fotos dessa gente pra mostrar pra eles depois. não isola eles... que besteira! o que é que a dona de casa sente ao se ver naquela casinha caindo aos pedaços, ela toda suja, ein? humilhação. pensa que é bonito? não é. isso é coisa de classe média achar bonito. bonito pra ela é ela num vestido novo, num lugar bonito.
O fotógrafo tira foto da gesticulação larga do outro fotógrafo. Mal o ouve, procurando um bom ângulo.
- Isso tem a ver com o rumo que você tomou na sua fotografia nos últimos 10 anos, certo?
R: eu fui ficando mais velho também, não acreditava mais naquela tal função modificadora da fotografia. fui encucando, me perguntando pra que é que fotografava, quem é que via, o que eu podia trazer pro mundo de novo. aí comecei a experimentar de tudo.
- Aí estamos falando da sua fase onírica...
Rui sorri com sarcasmo.
R: fase onírica! eu não sei quem dá nomes pra tudo. eu estou desistindo da fotografia, mas quero me abdicar das palavras, dos rótulos, de tudo. mas isso não tem como, não sou eu quem dou, né.
A reporter olha para baixo e sente-se fraca. Se ela não der uma reviravolta, sabe que as lágrimas virão. E com ela, se vai sua reputação. E a vitória daquele velho maldito. Não sabe porque seu professor não tinha ainda comparado uma entrevista a uma batalha.
- Você falou que a dona de casa pobre prefere uma foto bonita dela.
R: sim, você não prefere também?
A reporter o fuzila com o olhar. Ele se diverte e sorri.
- De qualquer maneira, aquilo não é ela. Você acredita no poder da ilusão da fotografia?
R: acontece que... toda fotografia é uma ilusão, entende? aquilo não é real, não pode ser. olha o seu fotógrafo, escolhendo minhas melhores caras, no melhor ângulo. ele quer uma foto do meu sorriso irônico, do meu samblante triste, do meu cigarro. eu sou isso? não sou só isso, ninguém é. ninguém é uma foto. eu comecei a acreditar piamente em como a fotografia é uma mentira deslavada, uma intenção discarada do fotógrafo de dizer o que quiser do seu objeto. não existe respeito, nada disso. eu comecei a acreditar que a fotografia deforma. e a partir daí, fiz fotografia discaradamente deformante. você olha pro meu último trabalho e não vê realidade ali. você vê forma ou luz ou distorção. eu não quis enganar mais ninguém.
A reporter pousou seus olhos no homem à sua frente. Meio minuto antes e dele só vinha ódio, mas agora... tinha-no ganhado. Ou, ao contrário, ele tinha-a ganhado. Sentia uma esquisita vontade de abraçá-lo. Rui olhava preocupado para baixo, não exibia nenhum sinal de ironia.
- Eu gosto bastante desse trabalho.
R: eu gostei de fazê-lo. não gosto muito do resultado.
- Por quê?
R: isso não é... não é... fugir do real não adianta.
Rui tem os olhos mais tristes agora, se perde nas palavras. A reporter encosta a mão no seu joelho, pedindo sua atenção com carinho. Ele a olha. Pela primeira vez, a olha como humana.
R: olha, menina. eu cheguei num ponto que não tem mais saída. eu não vejo mais além, e também não posso mais voltar pra trás. o passado não me interessa. e o futuro me testou tanto que eu não tenho forças para desafiá-lo. o meu desafio é esse: a fotografia não me interessa mais.
- E fugir da fotografia não seria...
R: por favor, não... não diga o que todos os reporteres me disseram. se o seu fotógrafo parar um pouco com esse flash, eu posso ser inteiramente sincero com alguém. e assim também, me deixem em paz com essa história.
O fotógrafo aparece por detrás da câmera, um pouco assustado. A reporter lhe sorri e ele larga os equipamentos na mesa, mostrando-se ofendido.
R: essa coisa, esse papel que chama-se fotografia, isso não é realidade. e também não é feito da matéria dos sonhos. isso não pode captar nada. não pode captar a essência de nada, a essência humana, o calor das coisas, a energia que tudo movimenta. não é tirar apenas uma foto em movimento, pra transmitir o movimento, entende? o movimento é mais, é contínuo. quando a gente vê com os nossos próprios olhos, tudo é tão... é tão... sensorial, entende? a gente sente na pele, ouve, cheira, guarda na memória, pensa, se emociona. é uma delícia. e não é só a realidade, também os nossos sonhos... os nossos sonhos são construídos assim: eles são totalmente convincentes em seus sentidos e por isso nós acreditamos neles. e a fotografia não pode nem chegar nisso. nisso que os sonhos são capazes. nisso que a realidade é capaz. a fotografia não é capaz de registro, não é capaz de achismo ou invencionismo. ela vai até certo ponto. depois, não mais. por isso eu não quero mais, eu não posso mais. não posso ir contrário a mim mesmo. ninguém pode.
Rui respirou fundo e olhou para algum lugar ao além. Tinha os olhos úmidos, lágrimas tímidas. Tremia um pouco também. Era um baita monstro, mas um monstro desarmado, com o coração aberto.
A reporter sorriu, entre satisfeita e carinhosa, e desligou o gravador. Aquilo era o fim. Um bom fim.
- Obrigada.
- obrigado você, por não me interromper, nem fazer mais perguntas. e seu nome, qual é?
- Renata.
Sorriram.
Rui se mexe desconfortavelmente na cadeira e olha para todos os cantos, como se não fosse ele o entrevistado.
- Então, Rui...
R: posso acender meu cigarro?
- Á vontade...
R: nunca se sabe não é, esta geração tão saúde... não entendo mais nada, viu.
Dá uma tragada no cigarro. A reporter sorri constrangida, retrai um pouco os lábios, mas logo depois os abre em um sorriso convidativo.
- É... vamos começar. Quando o senhor começou a fotografar?
R: foi em 80. quer dizer, fotografar mesmo, o ato de pegar uma câmera e tirar fotos eu era ainda moleque. acho que tinha uns 16 anos, tinha um tio que morava na França, trouxe de lá, era uma beleza de máquina.
Sorri sarcástico e olha para a reporter.
R: sabe como era não, de filme? aquilo que era fotografar, viu...
A reporter arqueia as sobrancelhas, impressionada com aquele sarcasmo bruto, aquele ali não iria facilitar nada pra ela. Tinha que entrar na dança. Rui olhava para cima e tinha um ar de riso no rosto.
- Por que aquilo que era fotografar?
R: eu tirava foto das pernas das meninas, debaixo da mesa, essas coisas. tínhamos que esperar dias para que se revelasse as fotos, ficávamos na maior ansiedade. aquele bando de muleque, quando eu chegava com as fotografias, era um alvoroço... isso que é beleza de fotografia, entende? aquilo era real, era sincero. puro e simples interesse pelas pernas das meninas.
Rui fecha a cara. Vê-se as rugas delineadas, a velhice dos cabelos grisalhos naquele retrato de nostalgia. O fotógrafo da reportagem bate uma foto. Vai pra capa, essa.
- Mas o senhor fez fotografias realmente lindas.
R: fiz pra quem, minha filha? no final, eu já não tinha pra quem fotografar.
- Por isso que o senhor resolveu parar?
R: não. não só por isso.
Rui olha para o lado e ignora a presença do fotógrafo, da reporter, do assistente. Dá uma tragada. Duas. Sabe que a reporter o olha insistentemente. Tem vontade de levantar. Chega a tirar o corpo da cadeira, mas a reporter ganha tempo.
- Mas e quando você fazia fotografia social... Tinha público, tinha objetivo, não é?
R: é... fotografia social, é cada termo que vocês inventam! eu comecei trabalhando no sindicato dos metalúrgicos, comecei minha vida profissional lá. fotografei todas aquelas greves, aquela luta, lula, tudo isso. gosto de algumas daquelas fotos, das metarlúrgicas, principalmente. são gente de verdade, sabe.
- E continou depois...
R: sim, eu tinha bastante vigor na época. e eu acreditava nisso, da fotografia poder... poder criar alguma emoção nas pessoas. alguma emoção movedora, sabe, modificadora mesmo. viajei pelo norte, pelo nordeste, tudo aquilo. não sou o único. e outros fizeram melhor que eu.
Rui apaga o cigarro no cinzeiro, a boca amarga, faz um sinal de água pro garçom. Falar disso sempre dá um amargo na boca.
- Você disse que acreditava nisso. Não acredita mais?
R: não... veja você, menina. você olha uma fotografia de um monte de criancinha magrinha, sujinha, elas tão há mais de quinhentos quilômetros de você, o que você sente?
A reporter arregala os olhos, não podia deixar isso acontecer, deixar o entrevistado tomar o lugar do entrevistador. Estava fazendo tudo errado.
R: piedade. todos nós sentimos piedade. e piedade leva a o quê? piedade não é um sentimento modificador, concorda comigo? ela acaba ali, olha que dó, essas crianças, olha esse país não tem jeito. você vai pegar um avião e dar sopa pra essa criança, vai? não. nem eu, que estive lá, fiz isso. tem fotógrafo que diz que tira fotos dessa gente pra mostrar pra eles depois. não isola eles... que besteira! o que é que a dona de casa sente ao se ver naquela casinha caindo aos pedaços, ela toda suja, ein? humilhação. pensa que é bonito? não é. isso é coisa de classe média achar bonito. bonito pra ela é ela num vestido novo, num lugar bonito.
O fotógrafo tira foto da gesticulação larga do outro fotógrafo. Mal o ouve, procurando um bom ângulo.
- Isso tem a ver com o rumo que você tomou na sua fotografia nos últimos 10 anos, certo?
R: eu fui ficando mais velho também, não acreditava mais naquela tal função modificadora da fotografia. fui encucando, me perguntando pra que é que fotografava, quem é que via, o que eu podia trazer pro mundo de novo. aí comecei a experimentar de tudo.
- Aí estamos falando da sua fase onírica...
Rui sorri com sarcasmo.
R: fase onírica! eu não sei quem dá nomes pra tudo. eu estou desistindo da fotografia, mas quero me abdicar das palavras, dos rótulos, de tudo. mas isso não tem como, não sou eu quem dou, né.
A reporter olha para baixo e sente-se fraca. Se ela não der uma reviravolta, sabe que as lágrimas virão. E com ela, se vai sua reputação. E a vitória daquele velho maldito. Não sabe porque seu professor não tinha ainda comparado uma entrevista a uma batalha.
- Você falou que a dona de casa pobre prefere uma foto bonita dela.
R: sim, você não prefere também?
A reporter o fuzila com o olhar. Ele se diverte e sorri.
- De qualquer maneira, aquilo não é ela. Você acredita no poder da ilusão da fotografia?
R: acontece que... toda fotografia é uma ilusão, entende? aquilo não é real, não pode ser. olha o seu fotógrafo, escolhendo minhas melhores caras, no melhor ângulo. ele quer uma foto do meu sorriso irônico, do meu samblante triste, do meu cigarro. eu sou isso? não sou só isso, ninguém é. ninguém é uma foto. eu comecei a acreditar piamente em como a fotografia é uma mentira deslavada, uma intenção discarada do fotógrafo de dizer o que quiser do seu objeto. não existe respeito, nada disso. eu comecei a acreditar que a fotografia deforma. e a partir daí, fiz fotografia discaradamente deformante. você olha pro meu último trabalho e não vê realidade ali. você vê forma ou luz ou distorção. eu não quis enganar mais ninguém.
A reporter pousou seus olhos no homem à sua frente. Meio minuto antes e dele só vinha ódio, mas agora... tinha-no ganhado. Ou, ao contrário, ele tinha-a ganhado. Sentia uma esquisita vontade de abraçá-lo. Rui olhava preocupado para baixo, não exibia nenhum sinal de ironia.
- Eu gosto bastante desse trabalho.
R: eu gostei de fazê-lo. não gosto muito do resultado.
- Por quê?
R: isso não é... não é... fugir do real não adianta.
Rui tem os olhos mais tristes agora, se perde nas palavras. A reporter encosta a mão no seu joelho, pedindo sua atenção com carinho. Ele a olha. Pela primeira vez, a olha como humana.
R: olha, menina. eu cheguei num ponto que não tem mais saída. eu não vejo mais além, e também não posso mais voltar pra trás. o passado não me interessa. e o futuro me testou tanto que eu não tenho forças para desafiá-lo. o meu desafio é esse: a fotografia não me interessa mais.
- E fugir da fotografia não seria...
R: por favor, não... não diga o que todos os reporteres me disseram. se o seu fotógrafo parar um pouco com esse flash, eu posso ser inteiramente sincero com alguém. e assim também, me deixem em paz com essa história.
O fotógrafo aparece por detrás da câmera, um pouco assustado. A reporter lhe sorri e ele larga os equipamentos na mesa, mostrando-se ofendido.
R: essa coisa, esse papel que chama-se fotografia, isso não é realidade. e também não é feito da matéria dos sonhos. isso não pode captar nada. não pode captar a essência de nada, a essência humana, o calor das coisas, a energia que tudo movimenta. não é tirar apenas uma foto em movimento, pra transmitir o movimento, entende? o movimento é mais, é contínuo. quando a gente vê com os nossos próprios olhos, tudo é tão... é tão... sensorial, entende? a gente sente na pele, ouve, cheira, guarda na memória, pensa, se emociona. é uma delícia. e não é só a realidade, também os nossos sonhos... os nossos sonhos são construídos assim: eles são totalmente convincentes em seus sentidos e por isso nós acreditamos neles. e a fotografia não pode nem chegar nisso. nisso que os sonhos são capazes. nisso que a realidade é capaz. a fotografia não é capaz de registro, não é capaz de achismo ou invencionismo. ela vai até certo ponto. depois, não mais. por isso eu não quero mais, eu não posso mais. não posso ir contrário a mim mesmo. ninguém pode.
Rui respirou fundo e olhou para algum lugar ao além. Tinha os olhos úmidos, lágrimas tímidas. Tremia um pouco também. Era um baita monstro, mas um monstro desarmado, com o coração aberto.
A reporter sorriu, entre satisfeita e carinhosa, e desligou o gravador. Aquilo era o fim. Um bom fim.
- Obrigada.
- obrigado você, por não me interromper, nem fazer mais perguntas. e seu nome, qual é?
- Renata.
Sorriram.
janeiro 05, 2011
cinco anos
era assim, sempre assim. a menininha ia quietinha no carro, ainda um pouco sonolenta, olhando pra tudo que passava rápido lá fora, a doce luz da manhã banhando tudo claro, tudo azul. a mãe também quieta, pensando em sabe-se-lá-o-quê, preocupada com o resultado do exame, ansiosa pelo verdicto médico, rezando pra que hoje dê tudo certo, sempre rezando, e esse Deus, essa manhã, essa luz, onde estão? e a irmã sonolenta e mal-humorada no banco de trás, acordada às pressas pois estavam sempre atrasadas, com os olhos embaçados olha o mundo sem realmente olhá-lo e querendo se deixar embalar pelo sono antes que chegasse aquelas filas, aquelas criancinhas incansáveis.
e a menininha, de repente, em meio à música que toca sem ninguém realmente ligar diz, com sua voz sonora e fina:
- olha lá, nana, olha lá, mãe, o parquinho.
a irmã vira a cabeça preguiçosamente e olha ali o gira-gira, o balanço coloridos de uma creche pública pintada toda de azul e branco. nana sorri para ela.
- é uma escola, sofí.
- uma escola, nana?
sofia sorri e tem os olhos azuis distantes, desses que olham além da estrada e conseguem chegar ao horizonte, desses que vivem em sonho permanente e nunca, ou quase nunca, perdem a esperança de esperar um dia lá chegar.
- um dia eu vou poder voltar pra escola?
talvez nos corações da mãe e da filha mais velha vinha uma vontade de chorar, uma tristeza sólida, piedade, tenha misericórdia, senhor, é só uma criancinha. e ir à escola, não existirá no mundo coisa mais rotineira, até sórdida, trivial, chata e por vezes deprimente? não existirá mais banal do que ir à escola... e nós aqui, a caminho do hospital. mariana queria lhe explicar o porquê disso tudo, mas não poderia, porque também não o sabia.
- vai, sofí, claro. quando seu cabelinho voltar a crescer.
e ela sorria. ela podia sorrir enquanto os outros tinham vontade de chorar. porque a possibilidade de tudo isso junto: de cabelo, de escola, de amiguinhos, de tudo isso era a certeza, o desejo, o horizonte e era fácil chegar ao horizonte só sorrindo assim.
- e aí você vai poder balançar os seus cachinhos, lembra?
e invadia no carro a lembrança viva e colorida, que vinha até com cheiro, cheiro de shampoo de tutti-frutti, tal cabeleira vasta de cachinhos dourados e a menininha balançando a cabeça e dizendo 'balança os cachinhos, balança os cachinhos'. e aqui agora, a menina carequinha, alguns fios apenas, ainda que cheirosos, com cheiro de sabonete, balançava os cabelos da mesma maneira, e com a mesma alegria, e com tal vigor como se os tivesse, como... se os tivesse.
- balança os cachinhos, balança os cachinhos.
você os tinha, sempre os teve. só agora eu os vejo, porque não importam os cachinhos realmente, não importam se existem ou não, contanto que existisse o sonho e existisse o desejo e existisse o sorriso de boca aberta, os dentinhos de leite, os dois da frente separados, e existisse amor. mesmo que fosse a caminho do hospital.
e isso acontecia toda vez, todo dia, que passavam por ali. e era todo dia porque todo dia era dia, uma nova vida, uma nova possibilidade de viver, e de chegar lá, e de sonhar. talvez você soubesse que não íamos chegar lá, mas é que lá já era cá pra você, contanto que estivesse feliz.
feliz aniversário, sofia.
onde quer que você esteja.
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade, noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar
(o trenzinho do caipira)
tenha uma boa viagem.
e a menininha, de repente, em meio à música que toca sem ninguém realmente ligar diz, com sua voz sonora e fina:
- olha lá, nana, olha lá, mãe, o parquinho.
a irmã vira a cabeça preguiçosamente e olha ali o gira-gira, o balanço coloridos de uma creche pública pintada toda de azul e branco. nana sorri para ela.
- é uma escola, sofí.
- uma escola, nana?
sofia sorri e tem os olhos azuis distantes, desses que olham além da estrada e conseguem chegar ao horizonte, desses que vivem em sonho permanente e nunca, ou quase nunca, perdem a esperança de esperar um dia lá chegar.
- um dia eu vou poder voltar pra escola?
talvez nos corações da mãe e da filha mais velha vinha uma vontade de chorar, uma tristeza sólida, piedade, tenha misericórdia, senhor, é só uma criancinha. e ir à escola, não existirá no mundo coisa mais rotineira, até sórdida, trivial, chata e por vezes deprimente? não existirá mais banal do que ir à escola... e nós aqui, a caminho do hospital. mariana queria lhe explicar o porquê disso tudo, mas não poderia, porque também não o sabia.
- vai, sofí, claro. quando seu cabelinho voltar a crescer.
e ela sorria. ela podia sorrir enquanto os outros tinham vontade de chorar. porque a possibilidade de tudo isso junto: de cabelo, de escola, de amiguinhos, de tudo isso era a certeza, o desejo, o horizonte e era fácil chegar ao horizonte só sorrindo assim.
- e aí você vai poder balançar os seus cachinhos, lembra?
e invadia no carro a lembrança viva e colorida, que vinha até com cheiro, cheiro de shampoo de tutti-frutti, tal cabeleira vasta de cachinhos dourados e a menininha balançando a cabeça e dizendo 'balança os cachinhos, balança os cachinhos'. e aqui agora, a menina carequinha, alguns fios apenas, ainda que cheirosos, com cheiro de sabonete, balançava os cabelos da mesma maneira, e com a mesma alegria, e com tal vigor como se os tivesse, como... se os tivesse.
- balança os cachinhos, balança os cachinhos.
você os tinha, sempre os teve. só agora eu os vejo, porque não importam os cachinhos realmente, não importam se existem ou não, contanto que existisse o sonho e existisse o desejo e existisse o sorriso de boca aberta, os dentinhos de leite, os dois da frente separados, e existisse amor. mesmo que fosse a caminho do hospital.
e isso acontecia toda vez, todo dia, que passavam por ali. e era todo dia porque todo dia era dia, uma nova vida, uma nova possibilidade de viver, e de chegar lá, e de sonhar. talvez você soubesse que não íamos chegar lá, mas é que lá já era cá pra você, contanto que estivesse feliz.
feliz aniversário, sofia.
onde quer que você esteja.
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade, noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar
(o trenzinho do caipira)
tenha uma boa viagem.
janeiro 04, 2011
uma velha senhora de vinte anos
eu sou feita de matéria-morta
matéria antiga, feita de madeira torta
se você forçar, nem assim entorta
eu sou teimosa e burra feito uma porca
eu sou assim, nasci assim, só finjo não ser
quando seus olhos querem melhor me ver
eu desvio, faço curva, serelepe cambalhota
- eu sou antiga, feita de matéria morta
desse mundo eu não sei, não aprendi
sou má aluna, dessas aulas fugi
e as palavras, na garganta as engoli
é que dentro de mim nasce um turbilhão
quando me vem querer com todas as mãos
e eu desaforrida, lhe peço sincero perdão
(sou oca, opaca, matéria-morta, intacta:
livro empoeirado no sebo encardido,
triste peça no antiquário encalhada,
covarde senhora olhando o mundo lá fora)
matéria antiga, feita de madeira torta
se você forçar, nem assim entorta
eu sou teimosa e burra feito uma porca
eu sou assim, nasci assim, só finjo não ser
quando seus olhos querem melhor me ver
eu desvio, faço curva, serelepe cambalhota
- eu sou antiga, feita de matéria morta
desse mundo eu não sei, não aprendi
sou má aluna, dessas aulas fugi
e as palavras, na garganta as engoli
é que dentro de mim nasce um turbilhão
quando me vem querer com todas as mãos
e eu desaforrida, lhe peço sincero perdão
(sou oca, opaca, matéria-morta, intacta:
livro empoeirado no sebo encardido,
triste peça no antiquário encalhada,
covarde senhora olhando o mundo lá fora)
Assinar:
Postagens (Atom)