novembro 17, 2012

é o bastante

já é aniversário de joão e faz um ano que me peguei sentindo ciúme de você. faz quatro dias que fiz vinte e dois anos mas isso não me vem. um ano daquilo você me olhou perguntou se eu tava bem. tudo bem tudo e você-retina-angulada. faz quase exatamente quiçá quatro meses desde que eu te olhei e disse tremendo o que não sabia direito. um pouco mais desde que minha boca tem gosto de tabaco. faz quatro anos que eu te beijava porque você tinha esse gosto. faz alguns anos que vim te procurando. faz não sei quanto tempo a última vez que eu te vi eu já não lembro. qualquer cena de praia em filme adolescente eu lembro. me beija um-mergulho-quem-sabe. faltam quatro dias pra eu voltar pra lá. estranho jeito de contar de trás-para-frente. talvez seja prenuncio da saudade. é melhor que recomece para que te veja bem. já estou aqui há dez dias. dez-dias-inteiros-e-você. dentro dessa tela vejo o outro que reage a mim. mas o tecnicismo não é tudo meu amor. não é tudo meu-amor. faz dois anos e quatro meses quase cinco desde que você se foi. é lembrar todo dia um buraco ás vezes eu queria lhe dizer que meu olho é contaminado pela falta dela. eu tremi a voz ao lhe dizer mas não vou dizer. passa-adiante-esse-filme que me lasca. faz seis meses exatamente hoje e o céu azul me afirma. faz seis meses que você nasceu gordo e manto-de-amor. um mantra de amor de presente para você. tenho lhe dado a minha voz desde que eu não sei contabilizar quando é que eu comecei a te amar no momento que te vi parado no ponto de ônibus. e teve aquele dia que ele me disse o sorriso dela é engraçado. e o da outra é triste. sorri ela disse passando adiante a erva. fiz café quente há vinte minutos gostaria de uma xícara por-favor. preciso de duas horas para dormir outras duas para escrever. é o bastante para lhe querer. 

novembro 08, 2012

as turista

a turista de branco sorria, o chapéu de palha de lado, o coco gelado, o canudo amarelo. a turista de branco diviníssima entrava e saía, comprava e mandava, buscava negrinhos. a turista de branco morreu, de morte morrida, assassinada na vala, o coco entortado, o rayban roubado.
a turista camaleão sabendo, fez-se de safari, e no meio da gente nordestina, pôs-se a ser massa. comprou gloss rosa de esquina, estampa florida de quinta, sandália de nove e noventa da cristina. quebrou o cartão de crédito e no meio dos peitos bufantes guardava escondida as notas azuis sujinhas, sujadas de tinta. 
a turista camaleão inventou sotaque e colorido, inventou nome e sobrenome, inventou saber fazer o inhame, inventou caruaru no sangue. e de noite noitinha, na pousada miúda, ria fumando para ter dente de tártaro, da turista de branco, uma vagaba ex-amiga.
empanturrou-se de pitu, deu a dar-se o corpo de madama, ficou conhecida de arruda à pina e fazia coro junto das menina: era exploração sexual, usuária não usual, inventou a política do pau.
a turista de branco tudo via do trono celestial, aristocracia bestial, hotel cinco estrelas coisa e tal, anel de pedra rubra e corpete cor carmim, ria-se divertida: virou pobre, a vadia.

novembro 05, 2012

louva corpos

eram corpos louvados, benzuntados por deus, faziam sexo de graça sem porquê, a céu aberto e céu dourado que era o céu daquelas tardes, tardes infernais de primaveras ilícitas, que cantavam entre lá e cá, uma ou duas maritacas mal extintas. e quando o céu descia violáceo, que era essa a cor das tardes que caíam, e os meus óculos de sol retrospectivos viam, a tudo meio amarronzado, como se dois corpos se forcando pudessem ser dois corpos se putrificando, se deles o suor etéreo e de sumo mágico, que é o que chamam os deuses, que é pelo que as ninfas louvam, para mim tinha cheiro de ocre e de mofo, era verde, então, verde meu vale, verde meu vale fundo escuro de louro: era verde meu vale e ninguém quis. me afundei na minha própria selva de pelos crespos e procurei com os dedos o tesouro perdido, o tesouro descontente que desencontraram os membros deles, e eu, nada achei, tamanha era a procura e a sede, eu levantei, sem antes não olhar projetada minha imagem, minha imagem patética, que nua como um pãozinho desforme, contei as gordurinhas das minhas costas, de um jeito solitário como se no fundo a música que eu ouvisse não fosse os gemidos descompassados dos outros que não dormiam. e levantei indecisa andando pelos corredores, que pareciam escorregadios como feitos de sêmen, e passei a lambê-los com certa insistência, tentando sentir o gosto que você fazia questão de dizer que era delicioso, tentando ser uva também nesse picolé, mas de recalque a tinta barata da parede se descascou e do triste vão que se abria eu via: por detrás das portas eles ainda fornicavam e a cama era branca e alaranjada, e eu, branca envernizada, corri a buscar águas, fumar cigarros, comer troços. voltei empanturrada de nada e os dois corpos empanturrados de corpos, cheios inteiros até os pescoços de grossuras e órgãos e dessas coisas absolutas, e eu que tão só relativa, me deitei que ainda em mim sentia leve o ressoar da deusa marinha, que na minha vagina soprava o ar salgado que fazia-me abrir as ventanas e a boca em formato de o e os olhinhos revirados faziam estralar e eu então deitei-me a fim de que a deusa virasse monstra e o ar tormenta e um pouco de dor, também, que sem dor não existe recompensa. mas de tanto não fui notada, o corpo era também peça escorraçada, já não sei o que contava, se o relato cíclico se tornava, era o que me acontecia, ele a acariciava e eu em loucura branca me comportava mas era azul, multicolorido, múltiplo demais para minha retina duas cores, bastonetes drogados de ópio, de tristeza preta-e-branca. e eu que não sou ninfa e não sou bonita, e eu que olhei atenta pros meus peitinhos e eles olhavam estrábicos pro teto e você com seu corpo lúgubre encostou sem querer e os esmagou no lençol que fez ranhuras dos meus mamilos amassados. os meus mami amassadi. nhos. eu quis ser chorosa e ser gordinha dizer, olhai, faço com carinho o meu dengo é de, é de, é devagarzinho. e eu que não mais quis o meu corpo que é torto e farto e eu que olhei para ela, que linda, admirei-me, parecia estrela, novela, atriz, parecia brigitte bardot, parecia camila pitanga do pará, parecia mulher de curvas, brasileira de fogo, e eu que quando escrevo uma coceira me dá: você é a minha musa, menininha, mas dói mais ele. que não olha, não troça, não rola, não capota. e do escuro íntimo do quarto molhado do escuro escroto que estava metida até o pescoço em divagações nada sadias, coisas de suicida entristecido coisa e tal, que chatice, do escuro que era propício dos dedos ficarem se desmanchando nas genitálias alheias mas nunca a minha, do escuro que era propício jamais não olhar para meu corpo, que naquele antro parecia, corpo de um diabo implantado, corpo jamais quero ser visto, abri com os pés de sardinha em lata a janela que era minha, e a luz que cegou os olhos vastos da gente iluminada, que já o estava por dentro, e me deu alguma água, alguma trela, trégua, retaguarda, apito de guerra, de recolhida. e reclamaram as almas sadias e os ventos expansivos e a tarde tão bonita que se esvaía e as maritacas tropicais que apitavam e a música sambabaca que batucavam e os beijos de amor com vapores de paixão e a beleza do corpo que se fez trepar e trepado e do coração esquentado e a felicidade esmoreceu. e eu, que pequena e escurinha de pé sujo e alma encardida, e eu, não fiquei alegre, tampouco triste, mas respirei, dum ar que não era só sexo e retidão: era também ar do mundo que é cor de tijolo que é concreto que é mal descascado e que não é beleza e que não é saciado o mundo que anda sempre batendo punheta porque não tem quem lhe agrade lhe dê beijinho lamber o saco que sempre é escurraçado que sozinho vive e vê pornô de quinta o mundo que é subjugado porque é mesmo rejeitado o mundo todo que é assim - só-vocês-são-felizes. recolhi a língua sapeca de criança e saí correndo dos altos do meu um metro de altura, os cabelos batendo na bunda, a calcinha mal caída e os mamilos redondos no peito liso, corri pra brincar de mangueira se-não-me-quer-mal-me-quer, e uma ducha de água fria salva tudo, mulher feia e mulher bonita.

outubro 28, 2012

embebida de camomila

e você me diz pra não ficar nervosa. embebia a chupeta das crianças em camomila. com o tempo comecei a sentir gosto de camomila em tudo. o garfo era de camomila, os cantos do copo, até o papel de chocolate que você sabia que eu gostava de chupar, em vez de chocolate derretido, era só camomila. você dizia que eram meus genes que as crianças tinham. essa coisa maluca, apressada, corria e gritava, gemia de noite, rolava de cama. meus pequenos tiveram insônia, mas por causa da merda da camomila que tinha em tudo, ficavam sentados na cama, os olhos pequenos, olhando para frente pra olhar pra dentro de si. a noite inteira insones e estáticos. coitados. eu não sabia agir, ficava olhando pra eles, tentando adivinhar o tormento que seus olhos apertados passavam. o que viam. deviam é ver um mar de calmarias, e a alma deles - a alma, que é igual a minha, não os genes, a alma, que eu passei com meus dedos que os faziam dormir enquanto você, você fora ia - a alma deles pedia tormento. e você me diz, me disse, a vida toda: calma, mulher. calma, mulher. era de se estragar toda. como calma, como calma? o mundo acaba a cada segundo que passa, e é roupa pra bater, e é filho pra chorar, e a panela de pressão chiando no fogo, e a conta que chega e não se paga, as aulas particulares de espanhol, e a melancolia que dá no final de tarde, mas como se no final de tarde, chega você e seus olhos morimbundos e é marimbondo pra espantar e comida pra esquentar, e filho pra chorar, e o jornal na televisão, com a sua voz grave, a me importunar, a me encher o tempo de tragédias descoladas e a vizinha que liga e diz: a filha da maria se suicidou. se suicidou, se suicidou, mas o tempo corre e voa e o filho chama, a lição de matemática e o nenê que vomitou, é hora de limpar e outro ardia de febre e você ligava a tevê vai ter jogo, benzinho, calminha. as crianças já dormindo e eu lavando louça o mundo se acabando e a vontade de chorar vem devagar, tomando todo corpo, toda louça aguada, e ainda tive que ouvir a sua voz: que há, noite tão fresca. a filha da maria se suicidou. quem é maria. a filha da. mas quem. não sei, mas se. suicidou. não tem tempo pra cuidar da tragédia da vida, e você me olha torto se eu grito e se eu jogo o controle da tevê do meio do lado, as pilhas voando e você repetindo e o dinheiro e o dinheiro e o dinheiro. não sei. lá vem você com essas suas crises de ansiedade, a gente veio pra longe da cidade pra que, vai cuidar da horta. meia noite e a horta quieta. olhei a horta, as folhas de rúcula descansado, as de cebolinha vigiando. olhei a horta, olhei a horta, não sabia, nunca soube, dor nas costas, dor nas mãos, eu não sei. a filha da maria e as cebolinhas ali verdinhas, tão vivinhas, tão bem cuidadas, tão felizes, disse ele, as plantinhas da nossa, tão felizes. elas. tão. arranquei-as todas, as mãos cansadas, arranquei-as da raiz, do jeito que não podia, espalhei terra e comi cebolinha suja, comi comi comi. que é você disse que é você é louca é afobada é idiota. elas eram felizes. felizes. eu comi a felicidade. veja. é verde. é verde ou é terra. é felicidade. eu comi um pouco pra ver se tampava esse buraco no meu peito. que buraco você disse, enfiando o dedo por debaixo da minha saia que buraco, que porra de buraco, vem cá neguinha. no meio da cebolinha e se você me comesse me comesse porque comia a felicidade se me comesse ia dizer: você sabe, ando broxado há tanto tempo, te comi pra ver se você dormia. vou dormir na rede, dorme você na cama sozinha. você vai me comer eu disse? você me olhou triste, cheirou seu dedo e disse: isso é tudo, nesses tempos, não sei, não ando conseguindo. não pude mais. dedo também tenho o meu, picado de agulha do remendo da roupa das crianças, o meu dedo. saí correndo e depois de ter arrasado a horta toda, não sabia. você disse, vem cá, camomila. você precisa. eu disse não, merdinha, não, eu preciso estourar, eu preciso estourar, eu preciso estourar. não me vem me enganar, engessar meus nervos, botar esparadrapo no meu coração que bate inquieto desde as seis da manhã. bate assim, de paixão, pela vida, de morte, pela pressa, e o corte, pela vida, que me engole, e eu já não sei. deixa-me aqui. você foi deu de ombros deitou-se na rede dormiu. eu ainda viva acordada os olhos estralados, passei o dedo no chá de camomila e me comi. me estraguei, sozinha, quis me arrancar, fazer das minhas tripas o almoço de amanhã. mas daqui quatro horas chega o menino da aula das seis, holla que tal? e tem que ainda esconder de chorar de saudade da abuela. todo dia esconde-esconde e você camomila. eu só quis. a filha da maria. tão.