novembro 19, 2013

você apareceu

você apareceu
bonita sempre
o outro sumiu

eu não conhecia
(o outro)

mas te conhecia
(você,
mas te conhecer,
que é? se sempre
recomeça)

o fio retesado
da nossa relação
você, um sorriso
(que coisa)
dum beijo 
tão-pouco

que é, tudo o mais que se oferecia
a vida as infinitas linhas narrativas
se findaram em sumiço e dispersão

que pena! você
fica em mim
como que em
mim
(dentro)
o tempo
(todo)
esperando (para se despertar)

e depois, abriu-se a caixa
(pandora, querida)
e agora
na sua ausência
sofro a falta
sofro o não
o corte seco

sempre seco
da nossa ida-vinda
que o sumir
é passageiro.

novembro 07, 2013

segunda carta bélgica

hoje acordei triste e quis conversar com você. a televisão tem me assustado, durmo com ela ligada - não sei se é pior dormir ouvindo a rua desmoronar ou a voz lacônica do âncora entediado. a voz lenta e pastosa, que tenta noticiar o fim sem alarde, os sons do mundo mudos em prol da legenda que pisca o absurdo. você não gosta dele. você não gosta do tom da voz que ele usa, você proclama para mim que odeia a contenção. a exuberância dos amontoados de pessoas - restos de pessoas - sendo jogados de um lado para o outro, enquanto se lê a ordem judicial. não, não é permitido ficar. é permitido sair. só é permitido. você chora um pouco. e inventa que a última nota da frase dele saíra aguda e trêmula. até o homem-aço, por detrás da tv, chora. eu só ouço a gravidade cadenciada das frases. (frases nas línguas?). mas te abraço e te reconforto, digo que tudo ficará bem. acho graça na sua lágrima, te pressiono na parede. a voz continua - você quer desligar a tv. você quer desligar e nunca mais ouvi-lo. eu não sei. tenho a impressão que se o mundo tivesse acabando a gente continuaria aqui, sem saber. tenho ouvido uns ruídos, uns barulhos esquisitos, sons de demolição, outro dia até ouvi gritos, pensei que vinha dos seus pesadelos. você anda sonhando muito alto. te acudo em febre, faço compressas, te beijo para cicatrizar seu amor. você me olha, mas não sei o que tem pralém das retinas. você se tornara opaco. me beija rápido, sôfrego, com medo de algum estampido, algum clarão, algo que vai nos matar no ato. você vira, eu te abraço, e seu choro tímido, eu já não consigo. finjo que não ouço. te seguro. agora é duas da manhã e você não chegou. tenho os olhos vidrados na tv pra não deixar escorrer a profusão de dor. se eu deixar, vai ser um inferno. um fim de mundo. preciso manter esse mundo, o nosso mundo, até você chegar. e em vigília, te esperarei, como esperou aquela senhora palestina (?) a polícia lhe arrancar do seu templo.

outubro 25, 2013

primeira carta bélgica

faz frio lá fora. mesmo assim eles atam fogo nas coisas. eles atam fogo, nos entulhos, nos pneus, nas misérias: restos da civilização simbolizando seu fim eminente. faz frio e eu tenho medo, um pouco de. que tudo isso seja mesmo fim: para-além do signo. daqui onde eu moro, da janela do meu prédio, a rua efusiva, não tanto palco das atrações fulgurosas, das marchas incansáveis, mulheres e bebês ainda caminham, embora a lusco-fusco as sombras tem sido mais ameaçadoras, as babás chamam as crianças para dentro: é do medo da noite ser o palco do fim de tudo. daqui da janela, se vejo meninas solitárias perambulando, moços fumando com algum resquício de sorriso, não só o terror das grandes avenidas, dos boulevares de gente nova escorraçada. lembro-me de você. a chama acesa na boca do moço, você. esse fogo que não se alastra: se consome na sua boca. perto de você. se meu corpo ainda se dói de pensar que tudo vai ser lentamente destruído, rapidamente abandonado, que sobrem só as multidões até que elas se desfaleçam em si mesmas (tenho sonhado com gente comendo gente, então), dói-me você. que seu corpo moço, esbelto, suas mãos delicadas, de unhas curtas, seus olhos de ingenuidade não sejam parte da turba que se acabará em si mesmo: seja parte do meu corpo, resistente, de aço, preparado contras as intempéries, resguardado nas quatro paredes. dói-me o mundo, que no mundo, você. dos sons dos tiros cada vez mais próximos, a cavalaria imensa e cega, do estômago vazio, você. tão bonito sorrindo acendendo um cigarro sabe-se lá porquê levando tudo à brincadeira, me acariciando entre as sombras, bonito. você. que precisa vir comigo, que precisa vir comigo, que precisa vir comigo. que precisa estar comigo, onde vedarei bem as portas e as janelas, desligarei de vez a tv e a internet, vedarei a luz e a informação, você, onde nos resguardaremos, celebremos o fim do mundo nós dois: dois corpos nus, as velas trêmulas, nosso estoque de sardinha enlatada. adiar o fim do mundo. o quanto aguentar. você. só com você. e o tempo retroativo, e a bomba retroativa, nada disso nos importará, se aqui, seguros e em carne, estarmos. o resto - as marchas, as profecias, os estampidos - serão nada mais que sonhos, projeções, fantasias, brincadeiras de tabuleiro. o mundo será nosso brinquedo, conquanto amemos. amor. você. venha à minha casa, depois de amanhã às 19h, tenho todos os mantimentos, os cobertores, os ventiladores. te espero ansiosamente.

outubro 24, 2013

primavera

acende o cigarro na boca do fogão, maninha. faz três dias que eu não vejo o isqueiro ou alguém passou aqui e levou, com certeza. senta um pouco, que vida longa. quando acordo meio-dia o dia todo é só uma pré pra noite absurda. mas as noites tem sido um pouco tediosas. luar moroso, nenhum astro-vênus a guiar o meu caminho. a luz do poste amarelada, mofando, esquecida. a mesa de plástico amarela, na calçada, invasiva. gastar o salário em pão amanhecido, maninha, amarelinha pra condecorar a vida. e tudo escorrega devagar, tua mão. a conversa roda angulada. tenho pouco a dizer, invento qualquer. resta roubar esse copo do bar.