querido,
essa é uma época sem craques, sem talentos. não brilham estrelas, quem dirá constelação. não sei que época é essa; os nomes serão rapidamente fagocitados.
talvez seja bom, toda aquela ladainha autoral, gênia, celebrária e cerebral. brando, dândi, dean, diniz, guevara, glauber, garrincha, inês.
preocupo-me com a memória, que será dela. uns fragmentos de frase de twitter, nada a citar, teses sem referências, professorinhos suspiram.
a convulsão de imagem é tamanha que não vai sobrar espaço, vão inventar pílulas de vídeos: tu toma e vem uns flashs, coisa instântanea, tá-tá-tá: a história gravada em frames.
os jovens continuam a querer propagar seus nomes. nunca percebem os anos que vivem, inspiram demais as istorietas do passado - istórias como se escreveu um dia - mas não sabem que diabo fazer com os diabos dos seus anos.
é sempre bom ler astrologia. capricórnios virão demolindo autorezinhos e tentativas fracassadas. um ou outro ídolo viverá, antes de cair em campo.
é uma época conturbada. volto logo para aí, um beijo forte.
julho 15, 2014
ela porquê tão de repente
ela: por que, de repente, ela me ama tão imensamente? por que agora se resvala, revela, rebola, se chafurda, encurta as frases, lambe os beiços, balbucia líquida, escorre, manda-me cheirar meus dedos cheios da gosma dela, sussurra, gouveia, engatinha por entre minhas tranças, me enraba, me laça? suplica amo ama, amo, mia, doçura. se por algum e tanto tempo esteve encarcerada, gestava, gestionada, envergada sobre mim, corria e dizia amo sim talvez com olhos secos e buracos pequenos.
ela: talvez estivesse à espera, à espreita, à noite, dentro da noite, loose, deslumbrada arrancava fios da cabeça e trançava-os bem uma mortalha e os olhos fantasiavam grotescos nada com nada, nenhuma, expectativa.
ela. segurava os membros com os próprios membros, as pernas com os braços, as penas enfastiadas de piolhinhos. dentro dela cresciam tufos de mato e bromélias encrespadas. tiveram que dentro dela arrancar um pouco as ervas-daninhas e minhocas retorceram o seu estômago escabroso e a terra afofa água correria, erosões múltiplas.
antes ela tivera medo que elas a esburacariam tanto até deserto e corvo: morte e dor.
ela: piores são os eucaliptos.
ela. talvez não soubesse o que era amor, amo ama amo mia doçura, confundia coração acelerado com taquicardia dor de azia com borboleta no estômago literatura meiga com vida corrida, também não soubesse e não sabia, amor amo mia, sussurros e gouveios, reboleios de quem copia, queria só que metesse a mão no fundo e no fundo oco opaco.
talvez não exista mesmo almas, profundidades, artimanhas, o serumano, o universo pintado, só buceta, rabo corpo suor e solidão.
ela: por que insiste.
um buraco pode ser um buraco ou um fundo de um? ela. engatinha, chupa, chorosa, melada, tenta, pari com dor alumbramento. parte. ela. quer partir mas continua: engatinha, chupa, chorosa, melada, tenta, pari.
não sei o que é fugir e o que é encorajar. não sei o que é apontar a espada pro mundo.
ela: te erodi, te arrombei, e quis comer tuas minhocas, mas caraminholas e mil caralhos, caraminhosa, corri.
ela: talvez estivesse à espera, à espreita, à noite, dentro da noite, loose, deslumbrada arrancava fios da cabeça e trançava-os bem uma mortalha e os olhos fantasiavam grotescos nada com nada, nenhuma, expectativa.
ela. segurava os membros com os próprios membros, as pernas com os braços, as penas enfastiadas de piolhinhos. dentro dela cresciam tufos de mato e bromélias encrespadas. tiveram que dentro dela arrancar um pouco as ervas-daninhas e minhocas retorceram o seu estômago escabroso e a terra afofa água correria, erosões múltiplas.
antes ela tivera medo que elas a esburacariam tanto até deserto e corvo: morte e dor.
ela: piores são os eucaliptos.
ela. talvez não soubesse o que era amor, amo ama amo mia doçura, confundia coração acelerado com taquicardia dor de azia com borboleta no estômago literatura meiga com vida corrida, também não soubesse e não sabia, amor amo mia, sussurros e gouveios, reboleios de quem copia, queria só que metesse a mão no fundo e no fundo oco opaco.
talvez não exista mesmo almas, profundidades, artimanhas, o serumano, o universo pintado, só buceta, rabo corpo suor e solidão.
ela: por que insiste.
um buraco pode ser um buraco ou um fundo de um? ela. engatinha, chupa, chorosa, melada, tenta, pari com dor alumbramento. parte. ela. quer partir mas continua: engatinha, chupa, chorosa, melada, tenta, pari.
não sei o que é fugir e o que é encorajar. não sei o que é apontar a espada pro mundo.
ela: te erodi, te arrombei, e quis comer tuas minhocas, mas caraminholas e mil caralhos, caraminhosa, corri.
junho 26, 2014
três anos
quando eu tinha três anos um pastor alemão de um policial correu atrás de mim. me lembro vagamente, minha irmã murmurava essa história antes deu dormir (ela te mandou um beijo, aliás) com alguma maldade, ligava a luz da lanterna e passava diante dos meus olhos, como a lanterna de um carro. eu dormia rápido que a luz irritava (irrigava) meus olhos. ela aproveitava para ver as revistas de mulher pelada roubadas do meu irmão. eu sonhava quase sempre com o pastor alemão, um cão negro, de olhos grandes, boca salivando. ele nunca corria atrás de mim. era sua imagem estática que me amedrontava.
estive no ato dessa semana, tudo conforme ia: pé, cantoria, lenço preto na boca. a rua tava cheia até. policial até entupir os bueiros. gentinha suja e desalmada. a adrenalina crescia, em algum momento alguma bomba explodiria e pá. meus olhos encontraram com os dele, reconheci os olhos do cão policial, olhos de quem rosna em silêncio. pronto pra matar.
não consegui, Marcos.
minha adrenalina rápida instantânea igual miojo virou medo de congelar as veias. e os pés e a boca. acho que meus amigos me chamaram, disseram para eu não parar, que daqui a pouco pá, fica esperta, que ce tá fazendo? ish, ói a mina. pá.
teve bomba mesmo, cê viu na tevê? teve bomba pra todo lado, estourou do lado do meu ouvido, e foi isso que me fez correr, alguém me pegou pela mão, minha perna ainda dormia, pá pá pá, bomba e bala de borracha, meu olho lacrimejava, mas o que eu via na minha frente, o cão. o cão, o cão, o cão.
quem corria comigo não entendia nada. eu balbuciava. ou rosnava igual um cão. salivava.
leva pra lá, essa mina, í, leva! leva pros cara com a bandeira, ela num pode fica aqui não.
fiquei com um pessoal de partido, me enfiaram num bar e correram para as suas casas. e não podia ir pra casa, que a minha é longe e a rua tava um caos. pedi um pouco de cachaça, um guardanapo e uma caneta.
pensei imediatamente em te escrever.
aquele cachorro queria me pegar, Marcos. ele ia diretamente até mim.
me contaram que eu joguei pedra e garrafa numa mesma direção. eu tenho que matar o cachorro, Marcos, ou ele me mata. juro que me mata.
sonhei que rosnava pra ele.
ele abriu a boca (ia com certeza me engulir duma vez só feito jibóia) e eu acordei toda suada. alisei as velhas revistas de mulher pelada do meu irmão (tenho feito umas pesquisas).
queria perguntar à Clarice por quê o cachorro correu atrás de mim quando eu tinha três anos. não tenho coragem.
me manda forças, Marcos. preciso de você.
estive no ato dessa semana, tudo conforme ia: pé, cantoria, lenço preto na boca. a rua tava cheia até. policial até entupir os bueiros. gentinha suja e desalmada. a adrenalina crescia, em algum momento alguma bomba explodiria e pá. meus olhos encontraram com os dele, reconheci os olhos do cão policial, olhos de quem rosna em silêncio. pronto pra matar.
não consegui, Marcos.
minha adrenalina rápida instantânea igual miojo virou medo de congelar as veias. e os pés e a boca. acho que meus amigos me chamaram, disseram para eu não parar, que daqui a pouco pá, fica esperta, que ce tá fazendo? ish, ói a mina. pá.
teve bomba mesmo, cê viu na tevê? teve bomba pra todo lado, estourou do lado do meu ouvido, e foi isso que me fez correr, alguém me pegou pela mão, minha perna ainda dormia, pá pá pá, bomba e bala de borracha, meu olho lacrimejava, mas o que eu via na minha frente, o cão. o cão, o cão, o cão.
quem corria comigo não entendia nada. eu balbuciava. ou rosnava igual um cão. salivava.
leva pra lá, essa mina, í, leva! leva pros cara com a bandeira, ela num pode fica aqui não.
fiquei com um pessoal de partido, me enfiaram num bar e correram para as suas casas. e não podia ir pra casa, que a minha é longe e a rua tava um caos. pedi um pouco de cachaça, um guardanapo e uma caneta.
pensei imediatamente em te escrever.
aquele cachorro queria me pegar, Marcos. ele ia diretamente até mim.
me contaram que eu joguei pedra e garrafa numa mesma direção. eu tenho que matar o cachorro, Marcos, ou ele me mata. juro que me mata.
sonhei que rosnava pra ele.
ele abriu a boca (ia com certeza me engulir duma vez só feito jibóia) e eu acordei toda suada. alisei as velhas revistas de mulher pelada do meu irmão (tenho feito umas pesquisas).
queria perguntar à Clarice por quê o cachorro correu atrás de mim quando eu tinha três anos. não tenho coragem.
me manda forças, Marcos. preciso de você.
junho 25, 2014
os tres cachorros
querido,
me enrolei num cobertor, fiz um chá de folha de maracujá, e me pus cantarolar bobagens. certo momento, lembrei-me do sonho que tive. tinha visto três cachorros, malhados, de olhos esbulhados, porte médio. não sei que parte da canção me fez despertar a visão, ela veio como um flash e nada mais. lembro-me sobretudo dos olhos, grandes, e aquosos, como são olhos de cão.
vi os três cachorros. cada qual num lugar, mas os vi. um breve temor tomou conta das minhas mãos: nesse momento, tento escrever, a letra tá garranchada que é uma coisa horrorosa.
o primeiro, eu não o estava procurando, que sonhos são comuns, e não devem se repetir de forma tão milimétrica na realidade. andava sem pressa por uma rua de paralelepípedos. procurava por um correio na região. a rua tinha casas desconcertantes - amarelas, róseos, laranjas - de telhados tortos, duas ou três germinadas. sempre achei engraçadas as casas germinadas. senti uma gosma, algo assim, meio líquido e não sei, escorrendo lentamente pelos meus pés - calçava chinelos. o cão estava à minha frente, de bocarra fechada, os olhos pretos esbugalhados me encarando.
não pude nem gritar. não tinha ouvido arfar ou latido, mas o cachorro estava ali, à minha frente, de boca fechada. e rapidamente correu. era um cachorro de rua? não pude prestar atenção no cuidado do seu pelo. usei lenços para limpar a gosma, a saliva do maldito. temo alguma maldição.
sonhei novamente com os três. minha nova obsessão era procurá-los na cidade.
Mirela veio me buscar de carro para irmos ao hospital. ela falou do marido e do gato, usou o mesmo tom para falar dos dois - deus me livre me tornar isso! me disse que eu devia comprar um novo pó compacto ou um blush, andava toda desossada ultimamente. então, avisei os dois cachorros. brigavam por um pedaço de carne crua, no meio da rua. apontei para a janela, mas soltei só um gemido. Mirela não percebeu. nunca teve boa sensibilidade. virou à rua.
antes de dormir, peço para não sonhar com os cães. tomo mais maracujá, que é para tombar de uma vez.
tenho algumas impressões, mas não há coragem para escrevê-las. se ver os cães, lembre-se, tem olhos bem esbugalhados, por favor, me mande notícias.
temo que estejamos em perigo.
com amor,
Daniela.
Assinar:
Postagens (Atom)