fevereiro 05, 2015

privações

1. estou fazendo, não sei porquê, sonoplastia na escola sp de teatro. cheguei na terça-feira e sentei perto das meninas que já estavam em módulos avançados. elas disseram que nenhum teatro grande contrata sonoplastas mulheres. só contrata homens. tive a vontade súbita de desistir imediatamente. não consigo mais, a mesma batalha, em outro território. compulsoriamente, a maioria vai desistir, uma ou outra mina zika vai conseguir. é claro que me apontarão estes exemplos. não que eu seja obrigada a ser zika. seria melhor se eu tivesse nascido com vocação pra ser atriz ou dançarina.
2. estudei numa escola técnica e pública, no segundo ano do ensino médio, uma professora de português nos disse que a gente nunca saberia o que a elite consome culturalmente. que eles ouviam coisas que nem imaginávamos, liam coisas que nunca saberíamos o que era. que ela, nem a gente, saberia o que era. que eram coisas maravilhosas mas complicadíssimas de entender. até hoje eu me pergunto se cheguei a conhecer a cultura erudita e elitista. eu não sei se ela considerava gente da USP gente assim. eu não sei onde estou. o meu buraco da impotência compete com o ódio da existência deste abismo. fiquei espantada quando ela disse aquilo. fiquei amargurada quando me disseram que eu não podia conhecer tudo que havia de complexo e maravilhoso no mundo. meu ódio dela se transfere ao ódio desse culto do erudito. ela criou um monstro terrível feito de muro de pedra, ela, sem saber, despejou a impotência que sentia todo dia, sendo mal paga e mal quista, sobre adolescentes cheios de energia e vontades; ela me fez enxergar castas, sem nenhuma saída ou revolução, a não ser a completa ignorância.
3. tenho medo de algum dia ter criado monstros terríveis de impotência aos meus alunos da periferia. peço desculpas desde já e trabalharei na possibilidade de acabar com tudo isso e recomeçar outra coisa. vocês que empunharão.

janeiro 22, 2015

(sem título)

olá.
olá, amor.
eu não sei, mas.
mas o quê?
eu sinto falta do calorzinho.
ahn
do seu calorzinho. do seu corpo cobertor.
vem cá. vai ficar tudo.
não, mas.
eu já te disse, então. isso é tudo.
(ela estende as mãos)
aham. eu gosto.
(um beijo)
ás vezes eu não sei se eu quero. se eu consigo. 
(ela dá de ombros)
que é?
fala.
eu também não sei, é isso aí.
(silêncio)
(mais silêncio)
tá ouvindo, eu amo essa música.
sim, eu também.
que bom.
(silêncio)
que vida torta.
você acha?
você vê lá na frente?
eu não vejo.
eu não vejo um palmo na minha frente.
muita neblina, né.
é.
(silêncio)
vai devagar.
ok, eu vou tentar.
mas o que?
eu não disse nada.
por que você vai tentar?
nada.
eu queria só chegar logo.
entendi.
(freio, os dois corpos vão para a frente)
o que você fez? (grita)
eu não sei, tinha alguma coisa (grita)
(silêncio)
por que você tá chorando?
(silêncio)
ein?
você acha que a gente matou algum bicho?
você acha?
eu vou sair daqui. 
é melhor.
(silêncio)
você continua chorando.
sim.
tá tudo bem.
sim.
eu tô aqui.
sim.
que tormenta.
(nada)
quanta água.
vai passar.
é.
você me beija, quando puder.
como assim?
você me beija.
sim.
é claro.
sua boca é linda.
(sorriso)
melhor a gente parar.
é.
vamos esperar.
vamos.
tudo bem.
tudo bem.
tá 
tudo bem.



janeiro 12, 2015

dos pampas

a pilha de louça suja
os bois mugindo

o pasto não é a fome
(nem o sertão é a fome)
há quem não tenha louça

nas juntas
nas esquinas, nos vincos
- em qualquer lugar
a miséria resiste

capim como lastro
boi dono do mundo

os subúrbios, as periferias
os laços intactos
a miséria persiste

verme da terra
batatas de vermes

novembro 30, 2014

bandidos

eu escondo os meus dedos moídos. a arcada dentária dói. olha para mim! enrosco a língua no seu umbigo, você dorme, meto-a logo no buraco, você geme de olhos fechados, vou logo metê-la nos seus olhos.

olha, querida. eu estou te esperando. 

ele me olhou e falou rápido, incrivelmente rápido, naquela entonação que tudo termina em reticência, pergunta e responde. se alguém o desafia, finge que nada aconteceu. os bandidos e etc. os bandidos e os bandidos e os bandidos e os bandidos. 
no fundo, te escreveria uma hq onde você é anti-herói bandido, malandro e mentira, serhumano de falácia, verdadeira carne ferida, olho vermelho, maconha maconha maconha. vagabundagem e pilantragem da boa.
mas você nasceu supostamente rico, num bairro limpo e de gente de bem, calçadas bem varridas e lojas envidraçadas, as placas não são luminosas, são acolchoadas, tem colchetes, arredondadas, design e conforto, clean naif gourmet vegan. teu ódio é desproporcional. não cabe nestes quarteirões, se esbeira nas praças meio mal cuidadas, de flores amarelas de terrível gosto, brinquedos enferrujados, e você moleque caçando passarinhos. e você homem dando tiro na ratazana do canal aberto. 
e os moleques da zona leste. você me disse, lá na zona leste, ninguém mexe com os bandidos. 

dentro do carro, percorro a paisagem campineira à busca do pouco de zona leste em que estive: inconcebível. nenhuma imagem, nem alegoria, sequer uma rua, se não, apenas e totalmente, na paisagem, seu rosto. os moleque da zona leste, ele disse, e seu rosto flutuava à minha frente. murmurei tristemente sem saber o que dizer; na maior parte das vezes, minha retórica política é falível e eu a perco, mal a começo, não sei dialogar. me espreguiço mentalmente. e moralmente superior, talvez. nesse momento, porém, queria apenas atiça-lo: minha mina é zl.

que bandido você seria. morreria jovem. teria mais outros filhos. outras mulheres que amaria. bateria em tanta gente. mataria. seria rei - corrente de prata pesada balançando no peito. cifrão. filhos sem pai. bala na polícia. bala em viado. ajudaria as mães. as pessoas que julgaria boas. cuspiria de ódio no seu bairro limpinho. sujaria a cidade toda. traçaria planos de matar um político. de implodir a prefeitura. morreria antes. muito antes. desgraçaria o que poderia. seria rico. e vagabundo.

te botaram no seio da contradição. onde pra ser bandido você tem que fugir, ou sua bandidagem está nos pequenos atos malignos: não pagar uma ou outra conta, nome sujo no banco, bate em mulher muito nervoso. onde pra ser bandido, você não pode. cuida do seu bairro e da sua calçada. maldiz. e tem que trabalhar. e xinga os vagabundos. e odeia trabalhar. termina as frases concordando com si mesmo, mal ouve os outros. 

essa coisa. os sujeitos que se tornaram cem por cento puderam nascer ou vencer as contradições. bandidões, anfitrões, artistas. 
eu e você somos toda tomada disso. comemos disso. e nos mantemos por isso. 

não terminemos a falar em reticências.

obrigada.