abril 13, 2016

descrição obje-subjetiva de espaços (exercício) I - ponto do mackenzie sete da noite quarta-feira

ao atravessar a consolação, larga avenida de três ou quatro faixas em cada mão, descem três ruas à esquerda: a primeira é a rua maria antônia, conhecida por bares frequentados por estudantes do mackenzie, e por isso, bonitos e bem aprumados, com boas fachadas; em seu meio se ergue o tusp, teatro da usp onde se situava o curso arquitetura e ciências humanas da usp outrora, é um monumento branco ladeado com colunas enormes grandes, reto e quadrado; as colunas formam vãos com degraus onde se sentam os estudantes do mackenzie atravessando o limite do bar mais próximo com cervejas; talvez algumas pessoas de teatro ou interessadas em mostras de cinema recluso aos finais de semana, esperando a hora do dito espetáculo de arte, pequeno, de amigos; a rua é bonita, arejada e limpa, há docerias, residências, é charmosa, há verdadeiras padarias, mais ou menos verdadeiras, ainda guarda um quê de bairro, um quê de centro. a próxima rua é a doutor cesário motta, muito íngrime, de cima da rua se vê ela descer, rua de bares de mesas de plástico amarelas, mais baratos que os da maria antônia, as mesas ocupam toda a calçada, os bares se parecem todos por conta da cerveja patrocinadora, enfeites há as placas anunciando o bom preço do litrão, prédios residenciais talvez não deixem a vida noturna da rua se estender pela madrugada, tem jeito de happy hour, de universitário pobre ou de universitário rico que se sente mais a vontade em mesas de plástico na calçada. a próxima rua é como uma curva, esquisita e quase invisível a primeira vista, se denomina amaral gurgel. é nela que eu descerei; entre a cesário motta e a amaral há vivamente uma banca de sapateiro com os dizeres "faz-se botas para motoboys"(muitas motos inúmeras motos atravessam a consolação), uma simpática venda de suco de laranja a quatro reais e salgados a dois e casquinha de sorte a um e cinquenta, uma loja de skate, responsável pelas pixações que flutuam nos prédios da região arrozfeijãoeganja, acabou de reformar para um bar a lá homem que ouvem rock'n'roll, com luzes baixas e amarelas, um balcão, uma mesa de sinuca, mesas descontraídas, bancos não cadeiras, os mesmos homens que antes pareciam vender agora riem e jogam sinuca, são barbudos, usam óculos; sentados um degrau a frente três moços parecem imóveis e iguais como estátuas, os três usam bonés, e por cima dos bonés, apoiados em suas abas óculos escuros, os óculos são do mesmo tipo, daqueles alongados ao rotos, os bonés são modestos mas tem cores como verde ou rosa junto ao branco, estão velhos, eles estão quietos, a posição da sua perna é a mesma, os óculos, os bonés, olham para um ponto fixo: na curva acentuada que forma o fim do minhocão com o começo da amaral gurgel, uma descida estranha e escura, sempre decorada com destroços, ocorre uma batida policial; há três policiais e três revistados; um dos moços, negro, alto e magro feito uma tripa, acaba de ser liberado e atravessa a rua com um olhar fixo a fim de se perder na multidão de luzes que é a consolação - é preciso sair do beco o quanto antes. um moço gordinho, branco e de óculos se explica para o policial, tudo que eu ouço é a palavra "escola", um policial toma nota, um moço com a mochila da forma turismo passa por eles, passo atrás, receosa do espetáculo; olho para frente, ali está a entrada de trás do mackenzie, faculdade particular de renome, presbiteriana embora ignorem isso, que toma toda aquela região e dá o nome ao ponto, e dará o nome ao metrô que vem sendo construído há muitos anos. um segurança está na porta, um homem com roupas formais entra, eles se cumprimentam, uma moça loira e branca e pequena, é nova, vem em direção a porta, ela está sorrindo  sozinha como quem pensa nalguma coisa muito boa que aconteceu ou que está prestes a acontecer, ela é simples, imagino-a bolsista, apaixonada; olho seu sorriso como quem quer se desfaça, mas ela não olha de volta para mim. a amaral gurgel é uma rua com duas faixas em cada uma das mãos e sustenta as colunas grossas do minhocão em seu meio; por isso há a calçada, a calçada abaixo do minhocão e a calçada novamente. é uma rua suja, abafada e desagradável, de chão de cimento, dizem que ali foi a primeira rua a receber as calçadas com o símbolo de são paulo em preto e branco formando um desenho geométrico de mil são paulos uma brotando da outra continuamente, em mil novecentos e trinta e alguma coisa, mas foi a primeira a ser trocado também, dizem as autoridades, para um chão mais permeável; embora a criadora do desenho em um concurso simpático da cidade esteja triste que as calçadas de são paulos brotando em são paulos, preto e branco como blocos imutáveis e resolutivos, estejam continuamente desaparecendo, é sabido que há sempre perigo de enchentes na cidade e se haverá maior permeabilidade no cimento só um especialista poderia dizer, ou se é apenas contenção de gastos; também não haveria nenhum interesse em manter aquela rua intacta, que outrora deveria ser até que simpática e pela localização, endinheirada, já que ela abriga em suas calçadas lojas do extremo submundo, uma mistura homogênea composta de bairro em centro. são elas os postos de gasolina (há 2), as mecânicas (há muitas) e os butecos, estes literalmente em cada esquina e também no meio da rua. estes não são sequer como os bares da cesário motta, mas antes um tradicional buteco, apertado, gorduroso e sujo, que exibe em suas estufas os salgados fritos e pedações de torresmos e frango frito, o balcão, os banquinhos, onde um ou outro homem encara a pinga, não há mesas na rua; de final de semana surgem ali festas de aniversário, karaokês improvisados e churrascos; há apenas o buteco, todos parecem o mesmo, entrar em qualquer um, penso eu, daria no mesmo, a variar da identificação com quem te atende, com a simpatia, com o preço. passo por uma unidade da santa casa que não sei para que serve onde se lê uma placa senhores pichadores doamos para instituições filantrópicas favor não pixar obrigado santa casa e as pichações brotam ali, são nomes próprios em letra específica; as grandes colunas de cimento do minhocão também abrigam grafites, mas são artistas, desenhos gordinhos, frases de impacto e amor, como venha de bicicleta, veracidade, pequenas poesias, respiros no cotidiano oferecidos pelos artistas das colunas do minhocão, provavelmente convidados, ali estão há um tempo, não os apagam, é uma vergonha; uma moça talvez moradora de rua sentada em uma canga ou coisa assim parece pouco se foder para os grafites, uma mãe e uma menina atravessam onde não há sinal e pelo perigo e adrenalina envolvida na coisa, a menina grita, o grito ecoa e o que era um grito espontâneo de liberação de energia torna-se um uivo, um choro, um gemido, um pedido de socorro; por conta da acústica criadas pelo enorme minhocão que é o teto parcial da amaral gurgel tudo ali reverbera e se intensifica, onde uma bolha de opressão simples e puramente pela existência da vida se torna concreta; os carros passam zunindo, os ônibus furam os tímpanos, e ainda há as ambulâncias, que são muitas, não sei se pelo número de feridos da cidade ou da proximidade do hospital, apitando quase constantes e deixando seu rastro de agudo por onde correria; os gritos ali dados são sempre assustadores, tudo ali se faz pela maldição, o carro e o ônibus parecem zunir dentro do seu próprio corpo; uma vez estive com uma amiga que tinha sofrido uma síndrome do pânico na região e a busquei para levá-la para casa, paramos no semáforo e ela pareceu desmoronar e eu soube exatamente o que ela sentia; eu também sentia; um desespero absoluto, como se ali o atirassem e o prendessem, embora as vias se abram, tudo está condensado, o ar esvaído. pela noite adentro, essas ruas, mais calmas, com o minhocão fechado para os carros, ganharão rainhas mais benevolentes, as prostitutas travestis, que enchem o ar com os seus corpos e um falar alto, ás vezes embriagado, ou um sussurro de negociata; elas oferecem companhias quem por ali volta tarde, quem anda desavisado, para os traficantes e toda a gente se aconchegar, elas abrem a rua como lares. por enquanto, pessoas atravessam, e muitas delas estão sentadas nos degraus dos estabelecimentos, fumam cigarros, com fuligem na cara. todos os estabelecimentos são cobertos por fuligem e graxa, o cheiro é de gasolina constante, ainda há os barulhos de dentro das mecânicas, tudo é sujo e se desgasta, pastilha e concreto. próximo a minha casa, tem um dos meus lugares favoritos, que eu gostaria de ter fotografado junto a esse texto, a la breton; é uma placa de neón na vertical, colada à parede, onde se lê HOTEL o neón é verde, e a linha de néon em volta do HOTEL, um retângulo, pisca entre verde e azul arroxeado, o azul neón. há outras placas de neón na rua, todas de hotéis de meias noites, mas o E do HOTEL está ao contrário; se lê HOTEL para quem está dentro do hotel ou para a própria parede, talvez para alguém que fique na recepção. cria-se um efeito interessante, intensificado pelo neón que pisca, um certo estranhamento, um distanciamento sutil. neste E ao contrário parecem se operar as ambiguidades, as coisas sem sentido, aleatórias, crias de acaso que estão em todos os lugares da cidade; lembra a mão do homem, do homem que colocou e do homem que mandou ali colocar, e o homem que ali mandou colocar satisfeito de poder ler, de dentro da onde está, HOTEL sem nenhum estranhamento, perfeito, conciso. a contrariedade se apresenta à rua, ao andarilho, ao que não entrará no dito HOTEL. lembra-se um quê de loucura proclamada em neón. mais adiante, na esquina, um estranho imóvel se ergue, é um conjunto de escritórios que desemboca numa venda em que se trabalham apenas mulheres, um lugar em que deveria reinar o boteco, mas ali, vende-se tortas salgadas e café, há jogos americanos amarelos nas mesas, não está aberto, as cadeiras também são amarelas, há água de coco, é limpo. mas o estranho deste conjunto é que suas paredes são feitas de porcelanato, ali onde abriga uma imobiliária que se chama centro vivo, as paredes e os chão repentinamente não são de pastilhas desgastadas cobertas de fuligem, não permitem ser pichadas, não é sequer concreto; o porcelanato, por sua vez, brilha de forma estranha e nunca é possível estar sempre limpo, mantendo o estilo decorativo da amaral gurgel: a gordura. ainda assim, reto como é, parece criação de ficção científica da classe média do terceiro mundo; é o mesmo piso que cobre a minha cozinha, recém-reformada e vê-los formar paredes sempre me dá a impressão de estar vendo a minha cozinha na vertical. por fim, o caminho está se encurtando; mais a frente um enorme monumento se ergue, com dois ou três andares, todo coberto de trepadeiras; um letreito eletrônico indica 24 HORAS na porta obscura, o que me fazia pensar que era um motel de luxo, mas descobri sendo a maior sauna gay de são paulo; ali um ou outro homem desacompanhado se escora, um casal de gays bem arrumadas atravessa a rua. é da mesma contrução que se abre num buteco, numa esquina quem nem é esquina, mas uma curva-esquina, embora qualquer uma seja motivo; uma de um piso amarelo e que mesmo estando a duas casas de diferença nunca coloquei meus pés: o lugar carrega uma aura obscura, está sempre vazio, é pior do que os butecos apertados de esquina na amaral gurgel, uma lousa branca há muito tempo ali diz em uns garranchos yakissoba 6 reais coxinha + sujo 3 reais, a caneta parece que quase foi apagada, mas ali permaneceu para sempre; os preços se congelarem numa inflação inexistente; eu palpitaria que este espaço é o limbo dos mortos do qual falam os espíritas, ali eu não entro jamais.

março 29, 2016

pai

decreto aqui por escrito e contrato o fim do nosso inverno.
fosse eu a mãe, a minha, teria saído de casa, olho roxo, dor nas costas, assinado o papel, entrado na justiça. divorciado, embora nos olhos da minha filha pequena sobrevivam os olhos dele. e os pés dele. e a sombra dele.
esperaria que com este fim, este contrato que realizo comigo e comunico a você, eu me livraria da sua sombra que se escondem debaixo das minhas gorduras mais reconditas. mas a sua sombra estará, e os seus olhos arregalados de louco, e a pele vermelha de louco andarilho, eu lembro antes de dormir. a imagem de um fantasma em carne viva.
não é sobre matar metaforicamente o pai, é sobre deixar ele morrer em vida. tenho inveja dos pais que batem em suas filhas e elas podem lhe botar ordem de restrição. inveja dos pais ausentes, que se casaram novamente, dos pais ricos, que saíram do país e gastam dinheiro com putas, dos pais internados em hospital psiquiátrico. confesso o medo de nunca mais te ver, junto do terror que tenho de te encontrar sem querer.
fosse você realmente louco estaria internado escrevendo poesia simbolista e talvez eu tivesse saudade de te conhecer e talvez eu tivesse ódio do isolamento aos desajustados.
mas a minha história é pobre, é simples. eu mesma operarei o isolamento da sociedade carcerária, eu mesma me despeço de você, sem conseguir lidar com seus rompantes, suas mesquinharias, suas ilusões.
a sua ideia de deus vingador em vida, a sua ideia de morte como presente desse deus, você no centro. tenho dó, e todo dia terei que lidar com a dó e com a culpa de ter decidido te deixar.
mas não é na minha alça que você vai se pendurar e perpetuar seu ciclo de horror. eu não te darei conselhos.
eu não sei quem você é, o que você pensa e o que você vive na sua pele que é ódio e terror puro. que é ressentimento amargo e um amor de monstro.
um amor que engole e mata, em nome do amor, que pede carinho e atenção, em nome de terror. eu não sou a sua filha.
eu sou uma mulher com sua própria corrente sanguínea, e seu dna que em mim replica, meto-os no lixo. eu sou tóxica, não sou boa, não devo ser, não devo aguentar. eu não sou somente a sua filha, a sua menina criança de olhos grandes e sorriso fácil, deslumbrada, recebendo as ondas pequenas do mar nos pés. você está em tudo que eu aprendi a amar: o mar, as pedras da praia, as árvores, os cachorros, bolo de cenoura, tudo que é simples, divino, selvagem.
você será para mim a pedra que subo, nada senão a pedra, sua imagem e seu rosto lá estampados, você estará lá resmungando fatasmarias, mas não em corpo, não em discurso, não ao meu lado.
é esse difícil adeus que este contrato aqui fala por si mesmo. um adeus que aperta as tripas internas, que me dá azar cármico, ondas de ódio ao meu redor.
eu não sei o que você deve fazer dentro da sua loucura; eu também tenho a minha; eu também não sei o que fazer. se eu fosse mesquinha, lhe desejaria outra família, um emprego estável, tudo para você se estabelecer enquanto homem, enquanto paz.
você não quer a paz, nem a estabilidade, porque é um mártir da destruição senil.
então eu não sei por quais caminhos seus pés vão caminhar, mas espero que alarguem os mundos e que espantem a vida normal e tranquila dos que andam sem olhar para os seus temores.
mas não mais a minha, eu já tive a dose suficiente.
eu não quero a culpa de deus, eu não quero a culpa da filha, eu não quero o amor.
eu não quero o amor; se ele é feito de sal e chama.
que este contrato sirva para que eu me lembre, como um alcoolicos anônimos, nas minhas próprias recaídas, nas doses de auto-mutilação, de perdoai eles não sabem o que fazem, de cordeiro de deus que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz, de um amor construído e injetado e forjado pela própria relação que se dá.
ninguém é obrigado a ser pai a ser mãe ou a ser filha, justamente por ter nascido em seio familiar. a aprender a moral e a ter boa educação e a amar de bom grada e de ser grata. se você me chama de ingrata, eu concordo.
mas não posso continuar justamente por esse compromisso lascivo que é a gratidão. eu não devo ser grata. ninguém deve ser grata. esse compromisso não-escrito, memorial, da ordem da natureza; que visa apenas a continuar.
se você não me decepcionar, será o mártir da destruição que eu penso que é, e não me cobrará gratidão.
porque gratidão é coisa de gente rica, ajustada, estável e contínua.
nem eu, nem você merecemos isso.




fevereiro 21, 2016

resquício, sobra, lua

as marcas que deixo no livro que você me empresta. são umas marcas escuras, no canto da página. olho meus dedos pra ver se eles tão sujos, não sei, mas deixam tudo empestado, tudo negro - negra peste.
fico cinquenta anos sem escrever, se paro e leio qualquer coisa que me desperta um quê me dá a vontade mais danada de sentar e escrever. vou engolindo toda a coisa, toda a coisa do artista, de como ele escreve. estilo próprio é bobagem, pra mim, é bobagem.
dias desses pensei finalmente e verdadeiramente: talvez não seja bom, isso aqui tudo isso aqui.
mas agora deixo resquício essa sobra empesteada deixo guardado.
o quê é que tem coisa e muita coisa que me dá vontade de escrever. de escrever qualquer coisa, e aí eu desanimo cinquenta anos de novo.
se eu todo dia uma história de formiguinha escrevesse.

tenho dado abertura nesse dia e nos outros as pessoas que aqui estão mas andava deixando meio amortecida.

luara tinha nome de cachorra e sua cachorra se chamava luana. luara era redonda, sim, feito a lua, feito alguma premonição da mãe bruxa. a mãe era homeopata, furava de agulha, agitava as mãos e falava em tom sibilante - minha filha é filha da lua. era filha de lua e pouco filha de mãe bruxa que se dedicava a cuidar das energias do mundo e deixava a lua encarregada de pentear os cabelos da filha. deixava ás vezes a lua cuidar da comida da filha. os cabelos, a lua como boa deusa, tinha dado lá o seu jeito: os fez duro e para cima, de um jeito que não dava pra pentear, só crescia feito árvore. a comida, a lua pouco fazia. então luara se agarrava a luana e as duas andavam pela rua, a percorrer uns canteiros, uns pé de frutas. luara tinha os olhos redondos, e até os dentes um pouco arredondados, e até os seios quando cresceram, também eram, e a barriga era redondinha, mas luara era escura. na escola, quando brincava de ser deusa da lua, as menina se espivitavam, colocando a mão na cintura, bamboleando-a e os dedinhos curtinhos: nã nã nã. luara, é deusa da terra. aqui tua árvore, pingavam os dedinhos nos crespinhos no topo da cabeça de luara. luara assentia, meio abobalhada. costumava não discutir e se esparramava no chão, terreava, enquanto uma cabeça loura, embora toda fina e ardilosa, iluminava o céu da brincadeira. ela perguntou a mãe, um dia que ela cantava umas vogais e luara quase caia no sono, como é que podia ser escura e ser filha da lua. a mãe parou de cantar e olhou bem miúda, a mãe era pequena, dizia que era um broto de baobá, de uma árvore grande. levanta luara e não esquece o que eu vou te mostrar. luara levantou a contragosto, já metida nos lençóis cheirando a quente, e a mãe ali na janela. aquilo que é branco é o que todo mundo vê, luara, mas a lua tem o outro lado, é a face escura; essa face ninguém nunca vê. e por quê, mãe? porquê a lua ali esconde os segredos, essa face ninguém nunca viu. nem galileu? nem ninguém, nem você, nem os orishás? a mãe franziu o cenho e deixou luara sozinha vendo a lua. disse por último: esse é o mistério da lua e foi ela que deu a forma à você, e ela queria que quando a gente olhasse pra sua face escura, a gente visse a face oculta da lua. esse modo de dizer luara achava que não era do feitio de sua mãe, depois de uns anos, olhando os olhos gentis de luana, não sabia se tinha inventado tudo isso. mas agora que podia separar as coisas enevoadas e as coisas brutas a mãe já tinha ido, sido tomada por um câncer que tentava curar com bruxaria. antes de morrer, ela disse, deixarei de virar um broto. a mãe tinha os olhos arregalados e o pescoço todo inchado, com uma bolota de dar dó; era a semente da nova árvore que ali crescia. luara havia acreditado que podia revelar os segredos da lua e andava por ali e por aqui dizendo as verdades que ia sentindo no seu pulmão. se a mãe fosse viva, diria que a filha também era dada a bruxaria. mas luara não sabia, e foi ser atendente de balcão, foi trabalhar no mercado, foi fazer unha no salão, foi até atendente de lan house, foi também garçonete. luara sentia uns ímpetos da verdade e largava, saía, permanecia pouco no emprego. depois da escola e até durante a escola luara tinha poucos amigos. no último ano luara não tinha sequer amigos. revirando as gavetas a fim de saber onde é que se metera os amigos, luara chorava ás vezes e sentia saudade de carinho, saudade de abraço, ela foi dar de focinho com luana. luana tava magra e faminta. quando era um nenê luana era gorda e brincalhona e luana recebia carinho todo dia. depois luana tinha de procurar comida com luara. depois luara ficava muito tempo fora de casa e luana tinha de caminhar sozinha. e procurar comida sozinha. luana brigou na rua e até fornicou a contragosto. quando ficou prenha luara nem viu. luana deu luz aos filhotes sem ninguém nunca saber, seguindo o instinto. e quando eles nasceram e eram pequenos e rosados, estava frio demais, e choravam demais. luana os enterrou. quando luana desenterrou eles estavam mortos. luana não chorou. não, porque não sabia como é que ia procurar comida pra ela e pros filhotes e qual a cara da luara quando ela visse aquela meleca toda. no começo, luana tentava chamar atenção de luara, depois esmoreceu. sentia os ossos chacoalharem dentro do corpo e ia ficando velha. luana lembrava bem pouco da sua vida, não sabia dizer se tinha sido ruim. só não lambia os beiços de prazer. ficava agora longas horas com a cabeça entre as patas contemplando o nada, pensando no vazio. nem os passarinhos a despertavam dessa meditação profunda que aprendera com a vida. a vida tinha lhe dado esse presente, para ela poder viver, e de certa forma, viver pouco, era economia instintiva. quando passava o caminhão de gás, luana mexia as orelhas a fim de escutar, mas não latia. quando ouvia o silvo raspado da barata, permanecia. foi num longo minuto imóvel e ausente de qualquer sentido (nem um cheiro sequer) que luana convulsionava na mais absoluta paz e serenidade, que luara olhou nos olhos de luana. e luana repentinamente sentiu. sentiu a fisgada na perna, a fisgada no coração, que começou a cambalear dentro dos ossos chacoalhantes. ainda com um pouco temor, ainda tendo aprendido com a vida que carinho não se pede, atenção não se chama, o rabo se moveu instintivamente, incontrolável. luana não podia controlar o rabo, nunca pôde; era no rabo que se escondia uma cápsula de vida, uma cápsula de vida incontrolável e tão mas tão aberta que não podia ver os horizontes. luana se aproximou lentamente, como quem tem medo, como se ela fosse um monstro ou um móvel repentinamente novo. uma bruxaria, de certo. lua na. disse ela. e manteve os dois olhos, se aproximando pé ante pé, andando menos de um centímetro. luana permanecia deitada na pequena varanda, as paredes eram nuas de concreto, para lá estendia um quintalzinho de terra batida; quando a mãe de luana era viva ali cresciam as ervas de bruxaria, e agora elas jaziam, quase todas comidas pela própria fome da luara dos pulgões; em cima dela esvoaçavam as roupas de luara, estendidas em fios de nylon não tão firmes, uma camiseta vermelha balançava insistente, uma saia jeans permanecia imóvel; o tanque branco-amarelado; uma centena de coisas grandes empilhadas, lata de tinta, vassoura, rodo, baldes, panos de chão, um martelo, pregos, pá, coisas de jardinagem, uns vasinhos vazios, umas sacolas, uns papelões, umas latinhas. luara andava devagar e enquanto ia olhava como se pela primeira vez para todas aquelas coisas empilhadas, olhava para o muro que delimitava o fim da casa, luana, puxa, que quintal pequeno. luana levantou as orelhas, soergueu um pouco mais o focinho, quase podia sentir, como antes, o cheiro de erva doce que emanava de luana. quase ela estava muito perto de estar perto de novo e luana se lembrou de tudo: da pele dela, dos olhos dela, das perguntas da pequena luara. olhou de novo para ela e viu que luara era uma moça e que tinha restado uma ou outra coisa da menina; os cabelos de árvore, ela podou, os seios redondinhos, se espremiam num sutiã, uns brincos de argola, uns olhos que tinham alguma coisa, como se tivessem se esticado pros cantos do rosto. luara ia vendo a cozinha: o fogão de quatro bocas, o azulejo decorado de azul, o chão riscado, a geladeira amarela, a mesa de madeira mambembe, depois lá fora, depois luana e encarou os olhos bem redondos de luana e viu que ela tinha agora uns olhos tristes e uns olhos velhos, e o cheiro de ossos que ela exalava, mas bem perto mesmo. o seu focinho é o mesmo, danada. e luana viu que no fundo dos olhos dela, e a pele, e as mãos bem gordinhas, eram as mesmas também. nesse dia luara chorou. chorou porque se sentia sozinha e que tinha deixado luana sozinha. hoje nós vamos cantar pra lua, como antes. e eu vou tentar plantar aqui uma erva doce. elas ficaram abraçadas vendo a lua subir no céu, era lua minguante, um restinho de lua. a luz estilhaçada brilhava no quintalzinho de terra batida e luana e luara tinham apagado a luz para poder ver bem os contornos da lua. laura pediu conselhos à lua. à parte iluminada da lua, luara, pediu, eu preciso de claridão. seu rosto se iluminava pouco, bem pouco, mas se via o branco do olho e a bola preta que era sua íris se mexendo para lá e para cá. a bola preta de luana também se mexia, e ela mexia o rabo, e sentia mexer o coração, e fuçava as patinhas e tinha dentro dela uma vontade de se chacoalhar. luana não precisava mais da meditação. agora ela podia ver e ouvir e sentir e fuçar. acordaram com o sol a ofuscar os olhos. e luara olhou o quarto-sala: o sofá que virava cama, o quadrinho pintado do mar, com moldura azul da mesma cor da tinta, o tapete, o piso frio, sentia frio e colocando por cima um cobertor disse: já já eu vou arrumar tudo isso, luana. abandonando outro emprego, tomou um banho quente, e em vez de passar a erva doce no corpo, como costumava fazer, tentou plantar. um dia esperou impaciente. ela e luara ficavam olhando pro chão esperando a planta brotar. não brotou. também ficou com fome e comeu o resto de coisa que havia na dispensa. outro dia se passou e luana já sentia de novo a coisa tod se amortalhar, a voltar o vulto preto a tomar aquela casa. procurou um canto e se escondeu. luara saiu de casa, depois voltou, depois chorou. depois procurou por luana e ela bem quietinha, querendo fugir de luara, daquele véu de morte que ela trazia. ela procurou incansável e chorando, sentindo o corpo todo doer, o olho doer, e achou a cachorra e lhe bateu e depois lhe agarrou e depois lhe disse: venha. luara e luana andou. por cem mil léguas, elas andaram, e rezavam quando a lua aparecia. luara pedia a à mãe que ela a guiasse. quando já estava tão longe de casa como nunca esteve antes, olhou para trás. e viu atrás dela os campos de cana, a estrada que ia dando num nó distante, a cidade bem longe, a fumaça que cobria. luara sentia os pés arderem e sentia os ossos de luana reclamando também, mas sabia que a única saída era andar. trazia colado ao ventre todo o dinheiro que tinha guardado, numa bolsinha bem amarrada. nos pés dois tênis e na cabeça crescia de novo o cabelo duro que não precisava pentear. ela já não sentia nada, quase nenhuma predestinação, já sentia que tua mãe tinha virado pó e poeira da mesma consistência que era a poeira que saia dos seus pés e de luana quando andavam na estrada de terra. não tenho que dizer nenhuma verdade, luana, não escondo os mistérios nenhum, talvez só você dentro desta tua barriga magra. por muito tempo eu achei que tinha de revelar as coisas. as pessoas não me ouviram, luara, e eu esqueci de ouvir você. você sempre me disse. isso. sempre me disse qualquer silêncio. você nunca nem latiu. luana assentiu, contente de ter feito bem seu papel no mundo. poderia morrer agora, mas ela queria antes cheirar as coisas que tinham para ver. as estradas e as florzinhas do campo e as cidades novas e as feições novas. os outros caminhões de gás e grilos em vez de baratas, gatos siameses por detrás de grades de grandes prédios; que ela não precisava correr atrás. e queria ouvir os mosquitos e os carros e os sons das vozes das pessoas que luara encontrava, e o cheiro de sexo que exalava. os passos, os resquícios. que dentro da barriga dela eles se acumulassem e fizessem retinir de completude os ossos que balouçavam.

dezembro 10, 2015

carta a alejandro zambra

eu gostaria de me corresponder com quase todos os escritores que eu leio.
algumas vezes eu escrevo aos mortos, é um suplício que me faz bem. agora que leio um bem vivo, decido escrever esta carta e talvez enviá-la.

(quando eu escrevia críticas de cinema, minha melhor experiência foi quando o diretor de eles voltam, filme pernambucano que gostei bastante, encontrou minha crítica. eu tinha visto o filme no Janela Internacional de Recife, quando era janela crítica, mas não tive coragem de publicar no blog do festival; porque achava minha crítica muito apressada, ou muito ruim; e lá era o lugar onde os diretores poderiam ver minhas críticas [embora a crítica que fiz sem ser obrigada, por ter amado o filme nunca ressurgiu nenhuma repercurssão de seu diretor, Leonardo Moramateus. bem isso, foi em 2012]. publiquei no Além de Economia, blog que escrevia sobre cinema. o diretor achou minha crítica, percebeu que eu tinha visto o filme no festival e mandou e-mail comentando-a para o monitor do Janela Crítica. caminhos indiretos e furtivos a parte, foi uma experiência surreal; acho que a experiência mais completa do que é "escrever uma crítica de cinema contemporâneo").

caro Alejandro,

estou lendo seu livro Formas de voltar para casa (talvez eu envie essa carta só quando termine o livro, é o mais justo para com o seu autor, mas precisava antes de tudo, escrever, antes de esquecer). 
gosto do seu livro e do jeito que escreve, e tudo mais, mais ou menos como está escrito na orelha da edição da Cosac Naif. esse é o primeiro livro seu que leio; mas não viria aqui se não fosse para gritar uma coceira, um incômodo que me bateu.
na página 124, tem a seguinte passagem: minha mãe não está de acordo com o que disse meu pai. na verdade está mais ou menos de acordo, mas quer fazer algo para evitar que a noitada se arruíne.
tem mais duas frases e o próximo parágrafo volta a falar do pai. o pai é que está em discussão, nesse momento caloroso, a sua intolerância, a saudade dos tempos de Pinochet.
é com o pai que o protagonista se debate, é principalmente nele que encontra a sua culpa e inocência por ter sido filho dos pais que não faziam nada durante a ditadura. Alejandro, eu sou bem tolerante, apesar de feminista, com as minhas leituras. eu perdôo os escritores que gosto e alego justificativas: o tempo que viviam; o contexto. eu não sou nem chata, eu leio escritores notadamente machistas com até ávido prazer, eu me esbaldei em Cortazar, em Breton, em Miller e etc etc (notadamente todos, e todas as mulheres também, as concepções de feminilidade de Virgina Wolf, a recusa de Duras em ser feminista, as putarias de Hilda Hilst, quase tudo que me lembro) (mas um dia eu escrevo sobre isso, talvez).
por quê a sua frase sobre a personagem mãe veio zunindo igual mosquito na orelha?, eu me pergunto. porque um) você é contemporâneo, mas acho uma justificativa falha, acho que leria contemporâneos machistas, a depender de suas qualidades literárias e seus interesses temáticos.
é pelo jeito que se escreveu. estou aqui a falar com um escritor; e como vê pelo jeito que tento escrever, eu gostaria de escrever também, de escrever quem sabe um livro ou um conto. e porque a forma como você escreveu esse livro, parece que me dá abertura para falar justamente sobre isso, sobre o escrever, sobre os personagens, sobra a escolha das palavras. e agradeço por isso, agradeço por poder sentir que posso intervir. que posso lhe dizer; agradeço pela sua proximidade comigo, com sua leitora. (não sei se o elogio ao livro deveria vir aqui ou se isso soa concessão? mas é sincero e acabo de perceber isso, que o seu bliss tá nisso)
a personagem da mãe não tem uma opinião forte, como a do pai; a mãe é a a anfitriã, guarda a harmonia das coisas (enquanto o pai protege a ordem). a mãe, você não sabe se ela está de acordo ou não com a opinião do pai ou se ela cede aqui e ali para manter a harmonia entre os dois homens que estão ao seu lado (e abaixo, acima e a fundo, dentro e fora) para que as coisas entrem em harmonia novamente. a mãe, a nossa mãe sempre aspira (a com crase?) harmonia.
esta é uma mãe comum, isto é o que eu penso sobre a minha mãe quando vejo ela apoiar o mesmo candidato que o meu padrasto. esta é uma mãe tipo, o problema é que sempre estamos a escrever sobre as mães tipos, sobre as mães que não são nem lá nem cá, as mães que não querem arruinar as noites, os dias, e etc. você pode me responder dizendo que essa opinião é emitida na voz do personagem; mas de alguma maneira, tem um quê nessa frase que parece estar distanciado personagem e autor. aqui eu vejo autor, ou eu quero ver um autor; assim posso justificar a faísca que senti.
bem, esta é a pegadinha e a delícia do seu livro, não é? eu sempre quis escrever um texto ou um roteiro onde as frases se repetem, mas em contextos diferentes, e ganham outras significados, e você me surpreendeu fazendo isso muito bem, criando um labirinto. vai ter a conversa com a mãe do escritor; que é uma conversa linda e sincera; e a conversa do professor com a mãe, que é uma conversa cruel e infantil. a personagem, existe, sim, mas enquanto está no livro dentro do livro, ela é um tipo de mãe. eu não saberia explicitar isso em detalhes, mas é só uma frase que me dá a certeza disso, que é essa que eu copio aqui.
ora, toda essa coisa da mãe me levou a pensar nas suas personagens femininas, verdadeiramente - bem, aqui está o perigo de deslizar com uma feminista (ou uma pessoa que defenda alguma minoria; que faça parte dela; que participe de debates sobre isso, que milite). caso eu não tivesse avistado a mãe fazendo com que as coisas voltem ao normal, sem ter opinião forte, eu poderia ter passado seu livro livre de pensar nas personagens femininas (ou absolutamente não, não tenho como prever isso e poderia retirar essa parte, que é muito duvidosa, não consigo passar meu ponto; judeus lendo sobre judeus, e essas coisas assim). o que importa, absolutamente, é que a brecha, seja do personagem, seja do autor, me permita pensar nas personagens femininas, e isso me parece bom. eu prefiro isso (a com crase?) pessoas que antes de proferir o discurso já se blindam das possíveis críticas e querem contemplar todas as minorias, lutas, ideologias, caralhos (e bucetas! fiz uma piada. como é que se escreve uma piada?! um ponto de exclamação dá conta?! pensei em colocar haha, mas ficou ridículo)
não quero disseca-las, porque não estou aqui para provar meu ponto e vencer a batalha. mas rapidamente: por que as mães ficam em casa enquanto o marido correm riscos? os maridos são comunistas; os maridos tem opiniões fortes. não é que as mães sejam reacionárias, no entanto, não são revolucionárias. havia poucas mulheres no partido comunista em 70, 80? acredito que sim; mas por que Ximena que é descrita pela Claudia como a irmã revolucionária (e daí sua mágoa) aparece com consistência somente depois para os leitores; como uma pessoa amarga e detestável? por que Claudia não se importa com os ditos atos revolucionários de Ximena, mas se importa com o de seu pai? bem. vou encontrando suas respostas para as minhas perguntas eu mesma. Claudia e Ximena competem uma com a outra, é uma competição feminina e fraterna, e você fala disso muito bem; bem, eu não estou dizendo que isso não acontece na vida real, eu acho bem possível que seja assim, eu vejo exemplos a todo o momento. o ponto é: por que as personagens femininas estão no meio termo? estão preocupadas com a casa? com a harmonia das coisas? por que elas não sabem de casa? por que as mães são sempre menos reacionárias ou revolucionárias que os pais? que parâmetros as definem como mulheres que não arruinam noite; a não ser as mulheres com quem trepamos?
sim, a Claudia é uma ótima personagem; é misteriosa e apaixonante, você a descreve como descrevem os bons escritores as mulheres de que gostaram.
não há ironia nesta última frase. eu gosto de mulher, e tenho vontade de escrever sobre a minha namorada do mesmo jeito que vocês escreveram, tenho vontade de emprestar a ela esses encantos, as meia frases ou frases longuíssimas, de deixá-la um pouco louca para que seja incompreensível para mim, de deixá-la linda para que talvez qualquer um quisesse trepar com ela, qualquer um que a lesse. e por fim, a Claudia é melhor do que o personagem principal, por fim ela é melhor - como elas sempre são - mas ela se sai melhor e eu gosto disso, eu odeio quando o Cortazar suicidou a Maga, eu odeio quando o Breton mandou a Nadja pro hospício, eu odeio como Miller sumiu com todas as mulheres e as bucetas mais incríveis só porque quem escrevia era ele, o homem, eu odeio quando Faulkner mata a moça grávida ou quando esquece a outra. esse ódio eu continuo buscando, apesar de terminar ou continuar os livros e continuar a gostar deles. eu gosto que Claudia é melhor do que ele, mas desse jeito, ela se torna melhor do que nós, leitores, e brilha como mais uma estrela feminina distante & incompreensível na constelação dos tipos. mas não o culpo disso, de jeito maneira. a única forma para que as personagens femininas sobrevivam e tenham uma vida normal ou uma morte catártica é sendo elas a primeira pessoa; e com maior probabilidade se mulheres escritoras que empreendem o movimento. você mesmo se antecipa: um livro sempre é sobre o autor.
de qualquer forma, lhe escrevi não para falar sobre as amantes, mas sim, sobre as mães. sobre as mães. as mães que não querem arruinar a noite. é só isso que eu gostaria de lhe dizer: as mães, elas tinham de ser no mínimo piores do que a encarnação do desejo de harmonia. no mínimo pior, no máximo.
quem sabe.
temos aí um tempo para descobrir, para redescobrir nossa mãe, a minha mãe.

(mais tarde reedito essa carta e escrevo se precisar um pouco do final do livro, mas era somente isso que eu queria dizer, sem frase de efeito, as mães, salvem as mães da literatura! e do cinema, e da representação, salvem-nas. deixem que se tornem menos mães, mais mulheres - mais personagens).