ela caminhava há mais de quarenta minutos, os ombros se encaixavam encarando o chão, as mãos soltas. embora fosse outono, o sol ardia sobre sua cabeça, a carapuça de cabelos se erguiam mais como uma estufa, apenas um filete de suor escorria ao lado do rosto. descia. não há nada mais a contar sobre ela, a não ser seu movimento último e lento: descia, pé ante pé, em um morro. poderia o morro ladeado de árvore e arbusto, teia de aranha, tronco, pedra, folha verde viva, e seu caminho desembocaria na areia, na areia da praia, na água salgada. os seus pés se banhariam leves na água gelada, a areia fina estaria quente antes. poderia o morro rua asfaltada, ladeada de túmulos de pedra, bronze, talvez prata e ouro, anjos ornamentados, jesus e nomes inscritos, acima da sua cabeça pinheiros se curvavam e faziam meia sombra. no final do trajeto, estaria no seu trabalho. não há mais o que escrever a partir daqui.
há redemoinhos escusos, como pilhas de roupa suja, um monte, sobre a sua cabeça, há escuridão sobre as ideias. um dia, ela ardia de tesão e no outro, aspirava repulsa. ela não consegue pedir ajuda, não consegue nomear o que sente.
não é tão iluminada quanto os outros.
apenas está descendo o morro e não há trejeitos que decodifiquem sua personalidade e a faça, para nós, interessente. apetitosa.
havia uma vida convulsionando há poucos dias em seu interior e foi em poucas horas que desceu um frio fio gélido de água na espinha (curvada) e toda a convulsão se viu, ante morte, devastada. estagnada não tal qual calmaria antes da tormenta, tal qual um rato que ingere veneno. e sua imagem no velório é os pés cinzentos retorcidos, a barriga gorda virada pra cima, os olhos revirados e por isso brancos, estáticos.
é preciso falar dos ratos e das baratas quando sente a podridão, para afastá-la. deixá-la próxima, e alimentá-la, para não deixá-lo pútrido, o seu íntimo.
em última instância, mandaram-me ir embora, e também ficar e esperar, mandaram-me orar, e também cuidar de mim, não mandaram-me alimentar meus desejos. sinto-os destrutivos.
enquanto amordaço-os, na esperança de que continue tudo intacto, a fina superfície sobre o planeta, a terra embaixo dos pés para que nos sustente de joelhos erguidos e calcanhares enterrados, sei que estou destruindo a mim mesma.
vou dizer claramente: calar meus desejos pútridos e possivelmente destrutivos, destroem-me. todos os dias, ela desce, encurvada, preocupada apenas com o próximo instante: se poderão se encantar com o meu sorriso, se eu conseguirei dizer alguma palavra, qualquer coisa, que faça-os sentir que eu sou importante. que eu sou alguém, que eu estou iluminada. que eu desejo. mas eu não exibo meus desejos, não exibo minhas unhas, eu retraio as minhas pernas, meus olhos evitam olhar. permaneço na penumbra.
por uma centena de vezes, nesta vida de alguns anos, meus olhos sempre evitam olhar. eu achei que havia alcançado alguma sinceridade comigo mesma e com os outros; eu contornei tudo o que é e poderia ser verdadeiro para mim mesma. eu não sei aonde me encontrar.
meus desejos não destruiriam, por fim, a vida deste planeta, nem tem fins sistemáticos, mas encontrariam o fim do que eu conheço como vida.
não me mandem embora, ao menos que eu queira. não tenha piedade.
em última instância, eu gostei de me enrolar nessa teia de aranha; mas no fim, tudo está tão interligado (eu fiz o esforço de nada separar, de tudo ser interdependente, um sistema sustentável) que se desfazer de um fio ou me enlaçar mais completamente em algum, é desfazer quase toda a teia.
eu ainda não estou preparada, então não me mandem embora ainda. eu sinto saudades.
vocês não sabem como eu sou um bicho sentimental e apegado. e como é difícil, no fim das contas, ser um pouco livre.
não há caminhos livres, quando se tem que chegar a algum lugar; no fim, ela gostaria de nunca precisar chegar a lugar algum.
e é isso que me impede de viver honestamente.
abril 10, 2017
dezembro 17, 2016
1: diga-lhes que parti
dourou o atum, óleo e leite de coco, ela escorreu a frigideira e o dedinho mindinho fritou ao encostar sem querer na panela ardida: ai ai ai, pulou de um pé só agitando os dedinhos no ar uma lufada de ar refrescou e meteu a mão toda na água gelada, sentindo o alívio momentâneo, olhou pela janela, o sol entrava claro e forte, o rio seguia serpenteando calmo e enorme, na beira, se retorciam vivas as raízes do manguezal, alucinavam os siris vermelhuscos na lama preta. ainda chorando um pouco, ouviu uma melodia antiga e arrastada, de certo uma música, não era o som contínuo do correr da água, nem os passarinhos naquela repetição contínua a seduzir suas fêmeas distraídas, nem o vento que passava assoviando pelas dobradiças das madeiras, de certo havia harmonia, de certo era música, de certo era rádio. pegou um garfo ainda sentindo dor no mindinho, espetou o atum e enfiou na boca mole e desengonçada, chupando o peixe entre os buracos do dente, ainda espiando pela janela, interessada em ver o que é que trazia a música, os dedos dos pés se torceram a fim de ficar na ponta, a mão no parapeito, outra garfada, e vinha vindo lentamente um barco de madeira, o motor zunindo desgraçado, mas bem vagaroso, e o rádio lamentando uma moda sertaneja. a moda lhe tocou o coração, foi o que pensou, e botou os dedinhos no colo, suava, era verão, sentiu a carne do corpo quente, bufou repentino aquele torpor do calor, aquele que lhes deixavam malemolentes, a preguiça estendida do domingo de sol, um meio-dia de tesão, foi caminhando sem perceber, a frigideira ainda firme na mão, o peixe ainda na boca, o peixe gostoso de morder, sentou-se em frente à casa e esperou absorta, sem qualquer disfarce ou que seja, o barco avistá-la. de certo vinha um homem lá dentro, um que não cantava a música, mas como um pássaro, caçava uma fêmea, de certo o homem lá estava, sem camisa, o peito suado e bronzeado, arrastava a rede de pesca vazia, as mãos eram grandes e fortes. olhou-a, e o peito queimou, repentino ela se envergonhou, algo como um vento lhe soprou nos ouvidos o ridículo, o torpor se desfez, e ela limpando as mãos sem parar na própria blusa, sem saber se entrava ou não. o barco foi se aproximando lento da costa, aportando, ele desceu, as coxas fortes, e as dela já arrepiadas, amarrou bem firme e novamente ela parou, e depois entrou em casa e se escondeu com a cortina amarelada com cheiro de sabão de coco, o mindinho quase curado, a chita fazendo cócegas no nariz, ela apertou-se a si própria, viu o homem descer, viu o homem olhar para a casa vizinha, viu o homem se aproximar. tem peixe, ele perguntou lá de fora, olhando súbito para a janela, de certo via a sombra dela, ou um pedaço do nariz fuxiqueiro, ela por um minuto de terror não soube o que fazer, outra moda começou, o coração não aguentava aquela poesia, decidiu-se quase sem pavor, levando a frigideira, deu-lhe com a veia da munheca a pulsar. ele pegou, a mão toda cabia no cabo, acenou agradecendo e sentou-se no degrau. ela continuou atrás, sem saber o que fazer, esperando ele comer, e ele tudo comeu, lambeu os beiços e tudo, num minuto só, muito gostoso. obrigada, ela respondeu, denunciando a posição exata, por não ter movido uma só parte do corpo, ereta e temerosa como um siri a ser caçado, esperançosa de ter se camuflado. mas era morena, de corpo grande, cabelo cheio, blusa amarela caindo aos ombros, cheirava a coco. ele se virou, a encarou inteira, de certo desejoso, que é que fez aí? ah queimei na panela, ele disse, venha cá, ela foi indo devagar, o torpor tomava o corpo, ele olhou o mindinho, olhou bem de perto e o enfiou na boca dele, como enfiou todo o atum, em um minuto guloso, chupou o mindinho aturdido, ela alarmada olhou pra casa vizinha e o empurrou para dentro de casa, chega, para, para, aqui não, jogou-o na cama e tirou a blusa, os dois mamilos pretos e grandes o olharam como dois olhos assustados, ele se debruçou sobre eles e por muito tempo se deliciou, ela olhava com olhos famintos, arrancou a calça dele e abençoou três vezes o pau duro, colocou-o na boca entre os dentes de atum, e certa se sentou no colo dele, no movimento trépido e mais ou menos ritmado, talvez lento como uma moda de viola, ela botando firme os dois olhos nele, seu rosto um pouco enrugado, cinquenta anos, o peito de pelo grisalho, inabalável com a sorte, o coração quase saindo do peito, um amor de vinte anos consumado, tudo imaginou. ele pediu-lhe o mindinho machucado, ainda antes de gozar, enfiando a pica contínua como a melodia repetitiva do pássaro, disse no ouvido, enfia no meu cu que sara, ela o virou e assim fez, certa e ereta e depois dois, ele gemeu um pouco e ela pediu por favor, termine isso, e de uma vez ele enfiou e o corpo todo dela sentiu frio, um repentino frio, algo polar naquele trópico, frio e seco, como um trovão desavisado no céu chuvoso, um aviso estático e elétrico, um desespero de um milisegundo. deitou-se na cama abandonada, cobrindo-se com o lençol, todo o corpo embalsamado em branco, o cheiro do sabão de coco, suor e porra a enojava um pouco, ele sentado puxava um fumo de palha, fumou-o tão rápido quanto comeu e levantou-se já arrastando os chinelos largados ao pé da cama, bem senhora, até. e ela com os olhos quase a dormir, ainda um pouco retesada e a vagina molhada, perguntou onde é que poderia encontrá-lo de novo. ele disse: passo o fim do mês em martim sá e o começo em são joaquim, no meio eu navego, não tenho lar. ela gravou essas palavras como um folhetim, repetiu-as febrilmente até o cair da noite e não pôde se levantar enquanto ainda ouvia o zumbido do barco se afastar e a moda de viola a tocar aquelas lindas palavras que lhe tocavam o coração. quando sua irmã pequena adentrou em casa, uma meninota de pés descalços, ela lhe perguntou: ainda tem um barco aí na frente? a irmã deu de ombros, disse que não, nada, os de sempre, era zé voltando, essas coisas. e um sertanejo, você tá ouvindo? não, tem música nenhuma, e você tá um pouco maluca, é melhor levantar antes do pai vir, não é porque você veio da cidade que você pode ficar o tempo inteiro aí, largada na cama. e saiu correndo já com medo da chinelada; ela ainda estatelada na cama, levantou-se docemente, tomou um banho demorado, armou a rede na varanda, disse que dormiria ali, que fazia calor demais, mesmo aos protestos de todos por conta da chuva que cobriria a noite, sustentou o pedido como em muito tempo não se via tão firme de uma decisão. esperou deitada a chuva cair e o céu abrir, mergulhada em insônia, descortinou-se um céu de estrelas sem nenhuma lua, relembrava entre dolorida e deliciada os segundos de amor, chegou a duvidar se foi real, e então chupava o dedo mindinho queimado, e se convencia de que sim, um homem chegou, aportou e a amou, ele era um homem solitário e o único bem que possuía era seu barco e o seu rádio, e o rádio tocava as mais belas canções compostas no planeta, e bem a lua sabia disso, embora se escondesse tímida em seu estado de nova, e bem a lua saberia disso: no começo do mês vou para martim sá, no final em são joaquim, no meio eu navego, ele se guiava de certo pela lua, matou a charada em dois instantes, pois era pescador e um homem do mar, um homem das marés, como seu pai era, mas era livre e gostava de fazer amor e tinha a amado, pois um homem com aqueles olhos de desejo, aqueles olhos de fogo, de certo era amor, embasbacado pelos peitos redondos dela, era certo que seu único destino possível era buscá-lo e amá-lo e a única missão que lhe importava nesta terra era amar, sentir e dar prazer. quando a lua se erguesse minguada, ela partiria, num sussurro de noite, ela partiria, só depois de ter feito esse derradeiro planejamento, chegando a contá-lo em detalhes e sorrir com uns siris também insones, adormeceu em plenitude.
novembro 06, 2016
pés no chão
é de alguma importância manter os pés ao chão. por vezes, vôo e o vôo dura toda uma semana, um mês. vôo para o trabalho, para a lista do que fazer, o tempo esgota.
é tão fácil passar o tempo, agora.
quando éramos crianças, o tempo era até doloroso de tanto ócio. tique-taque, conta gotas.
manter os pés no chão, encarar as coisas na altura dos olhos.
tão doloroso, tão perigoso fazer voltar o tempo; tão fácil se perder novamente. se ver esprimida entre as sombras, os cacos, mal se ver, as coisas todas tão maiores que você. tão além da compreensão.
os pés no chão.
e um coração tão delicado, tão mordido. rasa; arrepiada; arrasada.
é tão fácil passar o tempo, agora.
quando éramos crianças, o tempo era até doloroso de tanto ócio. tique-taque, conta gotas.
manter os pés no chão, encarar as coisas na altura dos olhos.
tão doloroso, tão perigoso fazer voltar o tempo; tão fácil se perder novamente. se ver esprimida entre as sombras, os cacos, mal se ver, as coisas todas tão maiores que você. tão além da compreensão.
os pés no chão.
e um coração tão delicado, tão mordido. rasa; arrepiada; arrasada.
outubro 15, 2016
pra saber dar nome às coisas terríveis
talvez pelas coisas que eu te falei e pelo que sinto por você, já não é possível te ajudar. parece que não será mais. entretanto, não é possível ajudar mais ninguém, nenhuma palavra que traga conforto vai nos salvar das coisas terríveis que sentimos. e que nem mesmo sabemos colocá-las em palavras, usando outras sem bem encaixar; é como um furo, apenas um furo em algo que deveria ser inteiro. há algum tempo, éramos inteiros ou, melhor dizendo, buscávamos ser inteiros. e tudo que queríamos era ser inteiros, então juntávamos nossas partes e nossos traços de personalidade e nossa estética e como gostaríamos de aparecer e quem éramos, nossos traumas de infância, as coisas herdadas, as características astrológicas, quisermos ser inteiros. e por um tempo, nessa busca de ser inteiro, éramos inteiros - sem nunca saber disso. era a busca que nos fazia inteiro. depois de algum tempo, paramos de buscar ser inteiros, acreditando ter montando algo ou alguém, ou ainda, acreditando ter montando um modelo de nós mesmos, projeções miúdas; e nunca se tornando neste modelo, nem tendo os sonhos costurados à nossa pele, nos tornamos versões frustradas de nós mesmos. de repente, éramos inteiros pois não há mais tempo hábil para nos construir - o tempo escasso de pensar com qual roupa transmitiria nossa bravura ou como éramos doces - o tempo mata, pois zilhões de coisas surgem para se pensar e calcular, elaborar estratégias e poder bem discursar e conversar sobriamente e manter as opinões enquanto trabalhamos e elencamos as atividades diárias. então, éramos inteiros pois não havia mais como nos construir, mas éramos metade, furados, escassos em nós mesmos. num modelo que mal lembramos como é que se arranjou, mas se instalou feito doença de pele. sem saber como coroar ou como se lembrar por quê nos frustramos, nos prostramos em pura frustração, sem nem saber dar nome a isso. dizemos que estamos entediados, sozinhos, calados demais, confusos, perdidos, tristes, melancólicos, com ódio, amargos, mal humorados. e procuramos os outros, os outros que estavam ali ao nosso lado buscando por ser eles mesmos inteiros, por alguma salvação. eu que encontrava meu bem estar (e talvez parte do que é ser eu mesma) em ajudar os outros, em dar-lhes os braços, enxugar os olhos e consegui-los fazer rir, e ver que há outros caminhos, que essas coisas passam, já não consigo mais. agora há o furo, o buraco, e meus pedaços, para juntar, fazer algum sentido. sem socorrer, nem ser socorrida, posso me lembrar das vezes que te abracei e que sorrimos; posso me lembrar que eram problemas mais bobos. mais doloridos, talvez, mas palatáveis, evocavam nomes, ações reais. agora há algo abstrato demais, pois ninguém sabe do que se trata. não há mais sábios, conselhos. todos eles estacam na língua. ainda quero preservar esta memória: a memória sincera dos nossos problemas e das nossas feridas, do porquê chorávamos, das paixões e de como as superamos, de como bebemos e caímos de beber, a memória do tempo como algo que passa; que flui; que transforma. tudo no momento agora parece por demais estanque. como se esperássemos por algo. me sinto no tempo da espera; disfarçada da cor da terra, como um inseto ou um molusco a fazer pouco ruído, esperando... com medo de que coisas grandes despertem cedo demais, um estrondo que meu corpo não poderá carregar. por isso, é importante me lembrar que o tempo é uma enxurrada, que leva com ele os detritos, que traz ora vida, ora morte; embora agora repouse plácido e sufocantemente calmo. é importante, mas tão difícil, não se deter no lamúrio de que a vida se passe acima do lago; calma e lisa. mas não é esse temor o próprio tremor que preparará a grande mudança? ou seria apenas o temor que nos deixa com aparência de doentes. se você vem a mim, tudo que eu poderia lhe oferecer é um abraço tremido, talvez com medo de lhe tocar forte demais. poderia eu...? de alguma forma, não há quem socorra, não há quem peça socorro; somos enfim iguais. gostaria de lhe dizer, que se pudéssemos achar algum jeito de estabelecer novamente uma conexão entre nós; de um jeito novo, e não como estávamos acostumados na escola e como levamos à faculdade. e se somente essa conexão fosse, de alguma forma, a salvação - que seria nada mais que viver. saber viver. ninguém nos ensina a aprender a viver; há um mundo largo e nossos pés pequenos e nossas cabeças esquizofrênicas e umas mãos ansiosas, olhos chorões. aprender a viver. eu gostaria de não aprender sozinha; gostaria de compartilhá-la; torná-la memorável. como um igual perante ao outro; sendo o outro não mais o outro de mim. o meu amigo, a minha namorada, a minha mãe, etc. todas as pessoas existiam no mundo apenas para me formar. para formar o inteiro. finalmente, eu gostaria de conhecer e reconhecer as pessoas ao meu redor como as pessoas, por elas mesmas e seus destinos. e como os seus pés caminham, de modos que desconheço. e que não podem me ajudar como eu não posso lhes demonstrar o jeito certo. deveremos nos despir. conhecer as pessoas pelo melhor momento de suas vidas a acontecer ou acontecido: quando elas olharem e verem as coisas. as coisas como elas são, sobre a terra, sob o céu e o peso da gravidade. o outro como outro. e talvez pudéssemos novamente conversar, achar as palavras certas, para dizer, sinceramente, um ao outro, que não sabemos como viver. e é isto que podemos oferecer. nossa ignorância perante a tudo; e uma companhia ignorante para que possamos ser tocados pelo mundo e refletirmos com os outros. apenas longas conversas. sem ter que socorrer ou pedir socorro. sem ter que sermos inteiros. para talvez, talvez... consigamos destruir aqueles modelos, os modelos de frustração aos quais nos apoiamos. e sejamos nós mesmos de acordo com o tempo que corre, de acordo com o que está aqui. mesmo feio e irrealizado, mesmo tosco e inseguro, talvez infantil demais, talvez muito velho. para saber dar nome às coisas terríveis; sem esperar que elas passem.
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