1. os homens inscrevem a política no meu corpo. foi o que eu pensei quando ele perguntou, pela segunda vez, o que eu achava de tal candidato. houve um tempo em que eu tinha alguma certeza quanto às minhas escolhas políticas, em que eu sabia exatamente de qual espectro pertencia. mas tudo isso foi esfumaçado, e não só em mim. minha falta de certeza coincide com o buraco político no qual o brasil entrou (buraco mesmo, não abismo, talvez vala, mas buraco, coisa que cede na planície da terra, não gruta, coisa que se faz por alguém, talvez, mas não se sabe quem, pelo desgaste, das intempéries e das rodas do carro e o asfalto mal colocado, da terra historicamente porosa, buraco, enfim, é a palavra exata, ainda que pouco poética), e também, com a minha saída da universidade onde minha política se fazia numa assembleia caótica do movimento estudantil, num ato a qual nem mesmo concordava com tudo. sempre temi ser, e mesmo assim, sempre fui a massa, disputada pelos lados, pelos berros, das entidades. minhas formulações, no entanto, eram cheia de dúvidas. falei e fui enfática e tenho a mínima ideia do que defendia. em casa, vivi à sombra das opinões políticas de minha querida tia, de esquerda, e vi minha mãe, que também era, mudar abruptamente de lado, junto de meu padrasto. meu pai, por outro lado, sempre rosnou tudo aquilo que eu sou contra; não exatamente de direita, pois tal formulação pouco importa para ele, mas desumano, sobretudo porque indignado com as tragédias da sua vida - como os bandidos que ameaçam sua segurança, acreditando então em punição e higienização (ou seja, cadeia e morte). há imenso prazer em ser de oposição; tendo este pai, ao menos, eu sempre soube o que era contra - embora, se me perdesse nas contradições da sua fala, não saberia colocá-lo em nenhum estereótipo pronto. me cansei também, do lugar do berro e da indignação, da política juvenil. se me esforço para pensar, diante de perguntas de tais natureza "em quem você vai votar?" e vejo onde é que me enfiei (escuro, mofado, úmido, grotesco, o buraco), penso em construir alguma solução de novo - qualquer coisa que eu possa ter fé. nada. repentinamente, parece-me impossível solucionar qualquer coisa, ou mesmo, formular uma proposta pragmática que, errando, chega-se a algum lugar melhor que este. então penso, tímida, "era melhor você fazer algo, mariana, não precisa querer acreditar na política institucional, mas algo, qualquer coisa. ler uns livros, ir num ato que seja, procurar o conselho do seu bairro." não vou mais nem nos atos que defendem bandeiras que acredito piamente, como a legalização do aborto ou da maconha, não fui nem na marcha das mulheres lésbicas e bis, mesmo sendo uma. escolhi inconscientemente uma vida política estéril, com um estranho formigamento interno que sussurra: há coisas além. a arte, a crítica substancial da vida, o entendimento histórico que prefere fabular do que berrar, estar nos meios, permitir-se permanecer em dúvida.
2. indo à flip comecei a ler um livro de ensaios da virginia wolf, o valor do riso e outros ensaios, em que na apresentação o autor discorre sobre as formas reflexivas, as pausas, o texto cheio de perguntas ao leitor, travessões e pontos e vírgulas, com que virginia escreve seus ensaios. e logo no primeiro parágrafo explana, a partir do ensaio da própria, mulheres e ficção, virginia assim escrevia a fim de reinventar a linguagem escrita dos homens, com suas frases pesadas e pomposas, ou seja construídas em cima da certeza, para uma escrita feminina, uma conversa derramada em papel. em que seus ensaios são produzidos em cima do "indício de que os mundos estão em mutação violenta; de que toda verdade é provisória, pois as possibilidades de ser são infinitas". legal. eu, leitora feminina, projetada nas ânsias de virginia apresentada desse modo, senti-me acolhida feito deitar-se numa cama já quente pelo calor do sol. na própria flip, a homenageada hilda hilst teve um tratamento um pouco semelhante quando se dedicaram a falar de sua política. numa mesa fora da programação principal, falando de seu teatro feio em 68 - o país pegando fogo, então - assinalaram-o completamente político e contra as autoridades, ainda que hermético, difícil, construído por meio das alegorias, rescendendo a becket. fiquei com a impressão de que, embora hilda nos fosse pintada feito louca, corajosa e excêntrica (assim, como virginia também é, autoritária e quase mimada), no campo da linguagem e da política as mulheres escolhem os meios. ficam com as dúvidas, com a amplidão, abrem-se aos horizontes, permitem-se ora dizer uma coisa e depois tropeçar noutra. nas mulheres, admite-se o perambular. mas também, uma vez lendo sobre a vida de walter benjamin me deparei com dois fatos inusitados quanto à sua praxis, o primeiro: a militância lhe fora introduzida por uma namorada, membro do partido comunista, e depois, ele tendo largado essa militância ativa, para poder escrever. há uma lista evidentemente enorme de escritores que saíram da militância partidária ou que não se adaptaram a coletivos políticos ou que foram perseguidos pelos próprios partidos que lutaram para eleger, como lukács, camus, marguerite duras. esta última, na edição da cahiers du cinema dedicada à ela, intitulada os olhos verdes, faz dois textos de aborrecimento com a política, um sobre um colóquio de escritores que tentam escrever uma carta, espécie de manifesto, e outro sobre a impossibilidade de um escritor de se manter fiel à um partido. para duras, quando um escritor milita no partido, ele perde sua liberdade e não pode mais escrever. só o que pode escrever é o que é estrito pelo partido, e como bem sabemos, partidos são pragmáticos o bastante para aparar todas as arestas, travessões, parenteses e reticências. um escritor, para duras, deve ser, primeiramente, livre.
3. sob esse pressuposto, vejo-me embasbacada diante das tentativas das pessoas de desmoralizar ou mesmo de desculpar autores por suas escolhas políticas. desde exemplos amargos como o apoio de borges à pinochet (e borges é um gigante da literatura, descansa no seu firmamento ás vezes acometido por fedores de peido quando alguém relembra essa característica de sua vida) e, evidentemente mais leve mas não tanto menos constrangedor, a recusa de escritoras como hilda ou adélia prado de serem chamadas de feministas. para hilda na flip, ovacionada, retratada através de anedotas feito pinceladas certeiras que compõe um mito sólido e venerável, e, evidentemente, mortíssima e por isso calada diante de novas perguntas ávidas, desculparam-lhe. disseram "há que se entender o contexto, o feminismo dos anos noventa." e depois "hilda é uma escritora sem rótulo, sem caixinha. vocês não conseguirão defini-la, colocá-la numa caixa." já adélia, vivíssima, não foram ainda capaz de perdoar o inimaginável crime de não se considerar feminista. a necessidade do perdão que as pessoas tem para com estes "velhos", nascidos em outras gerações, coloca a nós, leitores contemporâneos, sabedores da terra e do céu das opressões, superiores aos escritores. deixe o escritores e sua arte, parecem dizer. são bonitas e grandes, as coisas que escrevem. colocando-os feito deuses no olimpo, acabamos por perdoar suas fraquezas ou maldades, justificando-as, num processo engraçado de concomitante sensação de superioridade e inferioridade. é impossível olhar nos olhos de um poeta e ver um igual ou nos é impossível admitir que as fraquezas deles são aquelas a quais estamos também vulneráveis, sempre a um passo curto de encontrar dentro de nós, o mal? para que lemos, então?
4. bem, a cama quente pelo sol da forma reflexiva e cheia de dúvidas que virginia escreve a qual me deitei, já não me parece tão gostosa assim. por que é que sempre dizem coisas do tipo das mulheres; mesmo das mais porretas; se os homens, quase todos eles, tem uma conduta de vida semelhante à elas? será a linguagem usada por um e outro? por que é será que eu mal consigo exprimir um pensamento se não for em forma de pergunta, como esse parágrafo inteiro? e, no entanto, esta é a única posição que me cabe, porque sim, virginia, não há verdades, ou se há, elas mudam velozmente, e temos sempre de nos mover para captar seus anseios - seus olhos, de relance, que seja - e sim, duras, não é possível imaginar mundos, se enlamear da sujeira e da beleza deles, se estivermos ligadas a um mundo tão correto e quadrado quanto o político.
5. mas os homens inscreveram a política no meu corpo. como sempre fui predisposta a ouvir e conversar, a ponderar, como nunca demonstrei que estivesse aferrada à alguma posição política (a não ser aquela enorme guarda-chuva a qual as pessoas designam esquerda), acabei sempre sendo alvo das conversas políticas dos meus amigos homens. não é como se eles falassem e falassem e eu estivesse calada o tempo todo - no fim, não tive amigos homens tão estúpidos assim - mas eles querem saber minha opinião. este fato sempre me intrigou, eu não sei se é porque visto minha própria pele, mas desde adolescente tenho a impressão que homens me procuravam para conversar, diferente de como faziam com minhas amigas. ainda hoje, estranhamente, sinto isso às vezes. eu não sei dizer se inspiro um interesse sexual insípido, bem pouco, mas o bastante para eles quererem iniciar uma conversa e não sei se é a forma com que respondo, sempre tentando ouvir e parecer honesta e humilde numa conversa, que eles continuam. nem todas as vezes é sobre política, simplesmente é sobre os assuntos que rondam a cabeça deles, aquilo que lhes apetece discutir e discorrer. eu estou longe de ser uma enciclopedia e ás vezes acabo tendo de pensar em coisas que nunca sequer fui atrás para tentar emitir opiniões válidas, inteligentes ou ao menos fazer as perguntas corretas. esse mecanismo durou tanto tempo que, nos últimos anos, não precisavam nem se dirigir diretamente a mim, mas eu comecei a ficar encantada com este modo de falar: há pesquisa em forma de dados, citações, fontes, opiniões fortes ditas de maneira doce e mesmices faladas de forma engajada, há um sibilar que não possui na minha fala e por isso me deixa estupefata. antigamente, essas ditas conversas, esse modo de falar, guiava meu prazer sexual - e só agora consigo visualizar isso. hoje, no entanto, me relaciono com uma mulher há um bom tempo e este interesse que os homens vêem em mim e que acabo respondendo, tornou-se uma curiosidade, algo meramente intelectual. as conversas que travo com minha namorada vão desde essas formulações indecisas, filosóficas, quase nunca um debate acalorado, até uma irritação exausta que nos resumimos a mandar tudo pro pau no cu. nessas e sem querer, eu enfiei o pau no cu da política do brasil, e da minha própria.
6. é curioso que o autor da apresentação da edição brasileira do livro de virginia trata esse modo de linguagem, reformulando, perguntando e refletindo cada vez que emite alguma máxima trata esse fator com carinho e admiração. primeiro, deve se tratar por ser virginia, outra gigante que tem sonhos perturbadores no céu, depois, imagino, a algum interesse editorial. com a recente ascenção da discussão feminista e de gênero nos meios culturais, no resgate das obras empreendidas por mulheres de todas as área e do interesse estratégico em lê-las, estando em projetos práticos como o leia mulheres e editoras voltadas a publicar somente autoras, parece bom tratar com carinho esta linguagem particular e denominá-la, enfim, como feminina ou feminista. há pouco tempo, e mesmo dentro da minha cabeça, essa minha característica de ouvir e não ter opiniões fortes me pareceu uma volutabilidade, remetendo à uma certa submissão das mulheres, sendo nosso pensamento muito mais volúvel ou moldável do que aquele proferido pelos homens. e esta característica sempre tivera tons obviamente negativos, gerando desconfiança nas mulheres que ocupam alguma posição de poder. em a síndrome da cinderela, livro dos anos 80 que considero controverso, a autora luta especificamente contra essa fala insegura, cheia de rodeios das mulheres, que denotam insegurança, e somatizam um certo pânico em ocupar uma posição de chefia; exemplificando com casos de mulheres com cargos poderosos que acabam recuando, mudando de área ou desejando casar-se para retornar a uma vida tranquila, sem ter de tomar decisões ou grandes sobressaltos. inúmeras vezes eu li em textos feministas que o modo político das mulheres difere dos homens justamente por sua capacidade de ouvir e entender; e por isso seriam mais aptas e melhores na política. ou no cinema. no livro feminismo y cinema, por exemplo, a autora cita textos dos anos setenta e oitenta de coletivos de cineastas feministas que comparam a linguagem masculina ao falo - reta, direcionada a um só objetivo, sem deixar-se permear pelas contradições - e por isso fariam um cinema pobre. e a linguagem feminina seria então como uma vulva - redonda, que acolhe as inúmeras possibilidades sem descartá-las, fazendo um cinema muito mais rico, pois contraditório e vivo. todas essas explicacões que buscam aliar o biológico (a forma do órgão reprodutor) a linguagem me parecem obscuras, obtusas e evidentemente perigosas - cair novamente nas diferenças entre homem e mulher é mais fácil que tropeçarmos numa rua esburacada.
7. mas não é óbvio que todos os escritores que valem a pena e mais fortemente aqueles que se consideravam militantes mudaram inúmeras vezes a forma do seu pensamento, buscando sempre a liberdade da humanidade? não são esses que estão retratados no corredor da história como os grandes contribuintes para o pensamento? é realmente válido nos determos sobre as diferenças de linguagem entre homens e mulheres?
8. os homens disputam a política no meu corpo. quando eu os ouço falar, de maneira correta, explicativa e cuidadosa, sinto como se eu fosse um território a ser disputado. mas o que tenho eu de tão importante assim para ser disputada? acham eles imprescindível que eu me aproxime mais do pensamento e da ideologia que defendem? no fim, sou eu mesma, perdida no escuro deste buraco aonde me enfiei por escolha própria, preservando minha liberdade individual (e nesse mote, acirradamente feminista e política), que me incomodo com o fato de não ter nada a ser defendido a não ser um conceito básico de liberdade pelo outro, de um bem-estar comum e da busca de um senso de comunidade que nos faça ainda mais sensíveis, que construa com mais maestria nossa própria subjetividade. nos últimos anos, fui lentamente me afastando de assuntos como qual a estratégia política para diminuir o desemprego, ou a revolução comunista, a interferência ruidosa do Estado nas nossas vidas para me dedicar a temas como o prazer e a finitude, o desejo e a morte, o sentimento pungente da autodestruição e da autosalvação. o Estado em absoluto não me interessa, e pensava me diferenciar das pessoas que gritam todos os políticos são corruptos! a política não presta para nada! mas no fim, tenho mesmo algum projeto que me diferencie deles? ou estou mergulhada nessa mesma indiferença, buscando explicações concisas como um niilismo em relação à vida pública, um derrotismo diante das inúmeras pessoas vulneráveis - os mendigos, os pobres, os viciados em crack, as travestis, as mulheres morrendo em salas de aborto clandestino, os negros encarcerados sem julgamento - e as execuções trágicas que tem cor, gênero e sexualidade. a sensação que diante de tanta informação e de tanta dor resta somente um estafamento, uma incapacidade de me surpreender e sentir. as lágrimas que deveriam verter dos meus olhos se transformam numa incômoda dor na nuca que nunca passa. tornei-me pouco a pouco o oposto do meu desejo de mundo, aquela sensibilidade provocada pelo senso de comunidade, com o pensamento dormente e a ação interrompida. levo uma vida confortável onde é possível ser apática às dores e aos problemas do mundo. não os esqueço, evidentemente, mas não os disputo. enquanto mulher, mais uma vez, sou disputada e não disputo.
9. é importante pensar, então, nas mulheres que estão na política e que por isso, exige-se delas aquela linguagem certeira, cheia de dados e fontes, inteligente, aguçada, coerente e firme. e pensa-se numa característica evidentemente masculina que emana delas; e se não percebemos isso, acabamos por massacrá-las. manuela e marina não são levadas a sério. os discursos confusos e obtusos de dilma, uma mulher que trazia em si o evidente masculino, enroscaram-se no seu pescoço levando-a a um enforcamento. lula disse que dilma é teimosa e inapta. no entanto, poucas pessoas refutaram-no. as críticas, que endosso, a esse discurso giraram em torno de lula se eximir e dissociar sua figura com a de dilma, alçando seus vôos eleitoreiros, mantendo intacta sua figura de gênio e mito. mas é ainda com resistência que vejo como saída escolher uma ideologia e um partido que me apeteça e panfletar firmemente. antes, prefiro analisar a situação à luz fria de que todos os seres humanos tropeçam, mudam de opinião, encontram-se com suas sombras e por mais que discursem, acabam por praticar pouco em sua comunidade. é preferível que os discursos sejam cheios de dúvidas, suposições e contradições, não importando a qual gênero pertence esta linguagem, para assim refletir com exatidão as ondas que embalam o pensamento e a história humana. minha política, pouco pragmática, vai de encontro a este estado onde será possível e não-condenável o ouvir paciente, a volubilidade, e a formulação de perguntas antes das respostas. infelizmente, eu não sei se isso serve à economia.
julho 30, 2018
junho 15, 2018
receita de bolo de cenoura
primeiro, as cenouras. essa parte não é lá muito fácil: a receita diz duas médias, mas serão três das pequenas ou uma daquela bem grande, na dúvida, escolha as médias. tire a casca e corte-a em rodelas. essa é a parte mais irritante de se fazer o bolo de cenoura, sem dúvida. descascar suja tudo de casca laranja e cortá-la crua é difícil, segurar a faca com as mãos pequenas é sempre um risco. mas respire e lembre-se que o bolo de cenoura é a coisa mais maravilhosa que há, e para isso, tem de cortar aquele legume laranja, pontudo e feio cuja maior missão na Terra é fazer um bolo gostoso que não tem seu gosto. bem, depois, quebre os ovos. quebrar os ovos exige cuidado e atenção, e pode ser assustador, quebre-os na ponta da pia ou da mesa mesmo, deixando um pouco de gema amarela sujando o local. jogue tudo dentro do liquidificador: as cenouras, os ovos, duas xícaras de açúcar, uma xícara de óleo. fazer um bolo é uma magia. duas xícaras de farinha, faça com calma e se divirta. puxe uma cadeira para perto da mesa, suba e observe a massa laranja se remexendo toda. uma colher de sopa de fermento, muito importante. unte a forma, com carinho, acariciando nela a manteiga e depois jogando grosseiramente a farinha em cima, batendo de um lado e do outro. cuide para que tudo esteja esfarinhado. despeje a massa na forma untada e faça questão de limpar ao máximo o liquidificador com uma colher, e depois um garfo, e os dedos, porque não se pode perder bolo: temos de ter muito bolo para comer. muitas vezes o bolo de cenoura era o nosso jantar. deixe a massa descansando um pouco e observe as bolhas de ar estourando na superfície. a ansiedade está cada vez maior, mas seu pai disse que é importante a massa descansar assim. o forno ligado e lá vai a forma. agora, a dor. esperar a massa ficar pronta é o cúmulo da ansiedade que um pequeno ser humano pode conhecer. o tempo todo, imagine e lembre-se do gosto do bolo de cenoura e se postre em frente ao forno acendendo a luz dele o tempo todo, vendo a massa crescer. vá ver tv e se distrair, para o tempo passar mais rápido. sem conseguir se distrair, pergunte quando vai ficar pronto. e de novo. e a cobertura! é preciso fazê-la. leite, nescau e açúcar. muito leite, muito nescau, muito açúcar. mexa devagarinho o leite quente em fogo baixo vendo ele se colorir de negro. continue mexendo e mexendo. até quando tem que mexer? eu perguntei, cansada, os braços já doendo. ele respondeu: já tá bom, ué, pensei que você gostasse de mexer. o que ele não entendia é que aquela cobertura nunca ficava igual ao da padaria. aquela casquinha crocante. vou contar o segredo, mas depois esqueçam que eu falei isso: pouco leite, chocolate e muito açúcar. você pode fazer um brigadeiro também. mas aqui eis o verdadeiro tesouro do bolo de cenoura perfeito: quando você jogá-lo sobre a massa, ele entrará dentro formando fios deliciosos de chocolate e deixando-o macio. vamos ver se a massa está pronta. primeiro, feche todas as portas e as janelas. nenhuma corrente de ar pro bolo não murchar. um bolo bom tem de ser grande, fofo. ih, não cresceu dos lados. nunca cresce dos lados nessa forma retangular. as janelas estão fechadas, a cozinha é quente, calorosa, confortável. tudo aspira afeto: a proximidade do bolo, a ansiedade para ver se deu certo e o calor do forno esquentando a pequena cozinha. enfie o palitinho para ver se ele sai limpo. se tem coisinha ainda, espere mais. mas agora, ele está perfeito, porque não quero falar da agonia de ter de botar de novo ele no forno e esperar mais, a ansiedade em seu pico mais agudo. e, depois, grandes chances dele murchar tristemente. um pouco, é verdade, ele murcha. você prende a sua respiração e sempre espera que um dia conseguirá tirá-lo perfeitamente, como ele estava na estufa. faça furinhos com o palito de dente por todo o bolo. aí sim, derrube lentamente o leite com chocolate e veja ela sumir se embrenhando dentro. peça seu pedaço. agora você irá comer a melhor coisa do mundo. as mãos e os pés são pequenos, os olhos redondos, de jabuticaba, o sofá puído, ele é vermelho, e vocês comem muito bolo de cenoura, metade da forma, até não conseguir mais. ele colocará ainda o bolo entre dois guardanapos e você levará um último pedaço para a casa de sua mãe. sua mãe também faz bolos de cenoura, mas não deixa você cortá-las nem mexer muito o leite quente. mas ela também faz aquela cobertura bem líquida, só que coloca menos açúcar, menos chocolate. a casquinha crocante do bolo de padaria continua um mistério. o bolo é bom gelado também, mas não há como ser melhor do que quente, recém-saído do forno. as horas de espera e ansiedade valerão a pena, você vai guardá-las com tanto afinco na sua memória que para sempre as sentirá quando fizer o bolo de cenoura, sozinha, na sua casa, com suas mãos crescidas, mas não menos desastradas.
maio 31, 2018
rede
deitei-me na rede junto à janela, o dia estava azul e claro, convidativo. mas ali estava a rede à minha espera, e todas as plantas que eu coloquei em volta delas; tudo isso eu planejei. e escolhi as plantas que recendem, para então sentir, como agora, o cheiro delas perturbando suavemente as minhas narinas: o alecrim, o manjericão, talvez esse doce venha da lavanda, e o cheiro verde, da terra, próximo do perfume reconfortante das matas fechadas, das roças bem cultivadas, o úmido e as folhas apodrecidas, a sensação calma da natureza. tudo isso eu tentei recriar, dentro da minha casa, talvez, para que não fosse preciso sair. antes de me deitar na rede, eu tinha pensado em ir ao largo, sentar-me próxima de uma árvore, mas a quantidade de pessoas lá sempre me inibe; de maneira geral, eu não gosto de estar entre as pessoas, as desconhecidas. não as multidões, eu gosto delas, mas as pessoas sentadas, numa praia ou numa praça, que te olham com curiosidade e querem vir falar com você.
eu estou ansiosa por terminar a minha casa, e eu não sei bem porquê. deitada na rede, depois de cansar de ler, eu pensei que sou infeliz. mas essa infelicidade vem da mania irritante que eu tenho de me olhar sempre em terceira pessoa, de ver o meu próprio corpo deitado na rede e gostar de ver, mas não gostar de estar nele. da minha constante incerteza se eu deveria agora estar nessa rede ou lá fora ou ter arranjado um programa qualquer ou ter convidado alguém para me visitar ou me convidado a visitar a casa de alguém. eu sou infeliz porque não me sinto bem, quase nunca, com as minhas escolhas. tentei escrever, antes disso, e abri os textos e olhei e fiquei enojada. não tenho segurança alguma de saber se o que eu tô escrevendo é uma bobagem, para os outros, e nem para mim mesma. perco, com muita facilidade, a dimensão da minha vida, perco o fio que eu achei ter encontrado por permear.
vivo num estado de ansiedade constante e calma sobre a pessoa que eu quero ser. ao me deparar com meu trabalho real, me escondo, e as ideias fogem. qualquer comentário me desanima. e deve ser porque minhas expectativas são sempre muito altas.
minha imaginação, às vezes, não me serve de nada. só para me deixar triste.
fiquei na rede até que a luz acabasse e eu não pudesse ler direito as palavras do livro. o ritmo fácil e doce que Natalia Ginzburg escreve me dá vontade de escrever, porque é direto, sem rodeios. todo o tempo que eu li Meu nome é vermelho não tive vontade de escrever porque tudo é complexo e baseado numa admirável pesquisa histórica, coisa que não tenho aptidão, ou na verdade, tenho preguiça. apesar de ter lido rápido as 560 páginas do livro, eu ás vezes lia e relia uma frase com medo de perder alguma coisa. comecei a ler Natalia assim até me tocar que eu poderia tentar ser fluida. tenho esse costume de ler e reler os parágrafos e sempre acho que é sinal de Alzheimer, déficit de atenção, dislexia, depressão, ansiedade, o que seja. sempre.
a luz foi caindo aos poucos e eu admirei este estado que visito frequentemente, muito provavelmente mais do que uma pessoa produtiva visita. admirei, mas não no sentido de admirável; é um estado lamentável. a queda da luz me deixa melancólica. vezes sem fim eu chego cedo em casa do trabalho e fico no sofá fazendo qualquer coisa, como no celular, até que a luz do dia caia e a casa esteja mergulhada em sombra. tenho mania de deixar as luzes acesas sempre - mania não, mas algo muito interno à minha personalidade de distraída e desleixada - e as minhas contas de luz são exorbitantes, mas quando o dia me oferece sua luz, eu a aproveito até que não reste mais nada.
é extremamente triste. sempre me vejo num ambiente sem vida, escuro, indistinguível - a bagunça em cima do sofá e da mesa não importam mais - e as sombras dos objetos no crepúsculo criam formas pavorosas. eu sinto uma letargia tão potente que não consigo simplesmente me levantar e acender as luzes elétricas. tudo está quieto, com exceção da cidade que nunca se cala, não tem ninguém em casa e o dia não esta mais azul. eu gosto muito dos dias azuis. mas não é prazeroso, antes, há dor. como se as luzes finalmente terem caído eu possa enfrentar meus demônios: meu medo, meu temor diante da vida; meus fantasmas, meus desejos interrompidos, a infelicidade, minha insignificância diante do mundo, das pessoas que eu amo. finalmente, acessei meu estado interno. depois de um dia inteiro vigilante com a minha própria figura e as minhas ações, brigando com as vozes internas que me mandam ser útil e criativa ou se não conseguir, pelo menos lavar a louça. mas mesmo assim, me vejo: e é por isso que escrevo. aliás! como é gostoso escrever sem ter que revisar e tomar cuidado com as repetições, com a pontuação. desde que eu levei a sério esse negócio de escrever, o prazer foi escorrendo pouco a pouco para sobrar aquilo que os escritores sempre contam, quando falam de seus métodos: disciplina, o próprio método, o trabalho de cortar e acrescentar, de se fazer entender, de criar belas metáforas, palavras contraditórias em harmonia, fazer efervescer o centro do texto sem deixar aparente, etc, etc. tudo isso é trabalho e não há prazer. mesmo agora, preciso pensar, e ás vezes parar de escrever, mas é outra coisa. isso não tem finalidade. dizer isso agora encheu meus olhos de lágrimas tímidas: fazer algo sem finalidade é realmente prazeroso.
isto me lembrou o que eu queria escrever e não veio corpo, outro dia, estava andando na avenida angélica e pensei ter alguém nas minhas costas, virei-me assustada, e nada. como estava calma e talvez, até, contente - tinha passado uma hora no parque buenos aires, fazendo hora, ouvindo um casal de lésbicas se beijar nas minhas costas e lendo o meu livro e sentindo a grama penicar minhas pernas - pensei em escrever sobre a sensação quase constante que tenho de alguém me observando.
na rua, numa padaria, e principalmente em casa, no trabalho. em casa, eu me assusto e acho que são os fantasmas. olhando daqui, enquanto escrevia, a cozinha com a luz acesa a minha direita, em perspectiva, sempre parece esconder alguém.
eu não sei se são os fantasmas, mas me ocorrera falar que são os meus demônios. vezes sem fim que me assusto com minha própria sombra. pode ser que você me ache uma menina tímida e desmiolada, que tem medo de tudo e não tem coragem de encarar a vida - em parte, isso não deixa de ser verdade - mas pode ser também que eu esteja sempre alerta demais para poder ver os meus demônios.
porque, se são fantasmas, continuam sendo minhas sombras - Sofia, que eu lamento esquecer e lembro com tristeza, e que eu queria ter um altar, mas tenho vergonha o suficiente para não fazer isso, sua voz me chamando, sua alegria e o trágico curso da vida que a levou e logo Gabriel, o irmão vivo que nasceu depois e por conta da morte dela, que eu gostaria de ser mais presente e poder amar com todas as minhas forças, mas que algo, uma culpa, ou essa insistência em perguntar se ele existiria, se Sofia tivesse viva, se eu pudesse ter os dois, e mesmo assim, me culparia pela ausência em suas vidas, culpa que não é forte o bastante para me fazer voltar para Campinas, porque aqui em São Paulo, me fiz, fiz meu lar, fiz minhas escolhas, refiz eu mesma. talvez meu avô a quem chorei pouco em seu luto, meu avô paterno que morreu há tanto tempo, minha tia avó que me estimava muito, o irmão morto de minha mãe que não conheci, minha bisavó, que idem, chorei pouco e tive medo quando a vi amarrada na cama do asilo; de forma geral, eu fugi dos mortos e dos prestes a morrer - essa é uma revelação pessoal bastante importante. explica, finalmente, minha culpa mais intensa em relação à Sofia, quando ela estava já tão mal e eu insistia em voltar para São Paulo, e quando atendi tarde demais o telefonema da minha mãe porque resolvi ir ao cinema. fiz e com certeza farei coisas estúpidas como ir ao cinema em tempos dolorosos. quando descobri que Sofia tinha um tumor, e no sábado, fiz uns dreads idiotas. eu não consigo lidar com a dor, e nem ver a morte nos olhos do doente ou do idoso. eu até consigo, mas não quero, me afasto e não quero tocar neles. para me defender perante vossos ouvidos julgadores (aqui está uma reminiscência clara de Orhan Pamuk) eu gosto de lembrar deles alegres e com vida. no fim, coleciono poucos momentos, mas como sempre os revisito espero que tenham se cristalizados na minha memória para nunca mais perdê-los. os fantasmas, os mortos - então - são a passagem da vida, a corrida inexorável do tempo, minha memória falha. quando acho que os vejo, estou vendo como que relâmpagos da minha memória, ou da falta dele. de maneira geral, há tanta coisa para se fazer em vida! visitar todos os países, principalmente os que descrevem nos livros e nos filmes bonitos, conhecer as pessoas ilustres - não as famosas, mas as pessoas que reacenderão o fogo apagado em nosso peito, realizar um sonho, perseguir um objetivo, fazer o jantar e trabalhar com afinco, ser boa para os outros, não exigir tanto deles e saber lidar com a solidão e também manter viva a memória - dos mortos e também dos vivos distantes, e também as lembranças que me constituem para que eu não caia por aí de tão leve que está meu interior. pode-se perceber que viver me enfastia.
talvez por isso eu creia ser infeliz.
os fantasmas, ou alguém que está me observando, poderão também ser meus temores e principalmente meu orgulho, a ânsia de ser alguém para o mundo, de ser imortalizada, de ter alguém que se lembre de mim, que me leia, de ter espectadores a me olhar, de ser amada e amar. vezes sem fim num dia eu me decepciono porque não me amam como eu quero. e tantas vezes mais eu não amo outros como eles querem. quando isso acontece, eu sou birrenta, e choro, e ás vezes grito, e fico pensando: tudo está terminado, eu serei triste e só. dependo muito dos outros, de alguns outros e não quaisquer outros, e sei que preciso só tomar meu prumo, costurar este fio e seguir sozinha como são todas as pessoas.
bem, ás vezes não há sustância.
não é que eu me sinta leve, é o oposto - me sinto pesada e a esse peso devo às pessoas se cansarem de mim. tão pesada quanto uma pedra estagnada. para me mover, tudo parece difícil, trabalhoso, hostil.
talvez essas sombras que me perseguem, seja minha leveza, meu próprio espírito escondendo-se de mim.
gostaria de voltar a falar do cair do dia. toda essa história dos fantasmas me surgiu um dia que não tive tempo de escrever e por isso, agora, não sei dizer ao certo o que eu queria. hoje, verdadeiramente, penso que são meus próprios olhos me olhando, como sempre.
o cair do dia é muito triste e lúgubre e nada consigo fazer, mas é como se eu me resguardasse. minhas energias só ativam pela cor total do céu, ou seu azul ou seu preto. as nuvens cinzas me desanimam e a chuva, quando não é intensa, me irrita. ainda assim, fico feliz ao constatar isso. alguma relação profunda com o tempo, o tempo das coisas e a maneira da natureza, eu guardo. o fim e o começo da luz é o tempo do resguardo. quando animais diurnos se escondem e os notívagos saem, quando as plantas descansam do seu incansável papel de processar a luz do sol. um respiro.
por quê o respiro do mundo provoca em mim melancolia?
talvez seja o contrário, e esteja desalinhada. mas estar desalinhada é a única forma de existência que eu conheço. o crepúsculo vadio provoca em mim a rara vontade de ser eu mesma. de escrever sem ser para os outros, de fumar três cigarros em meia hora. de não me observar atentamente.
meu medo, no final de tudo, é realizar tudo e não ser feliz. eu não sei porquê direito, racionalmente nem acredito em felicidade. mas estar em constante desacordo e não conseguir fazer o que eu deveria, o que eu deveria? pensar na minha morte é cada vez mais angustiante - talvez essas sombras seja ela mesma me espreitando, então - o fato de que estou me aproximando lentamente do dia que expirarei. quando era mais nova, gostava de imaginar a forma que eu morreria, quando eu comecei a fumar fazia piadas sobre morrer cedo - ainda faço, mas logo depois sinto um peso dentro de mim. quanto mais os anos passam, mais próxima ela está, e mais difícil é falar dela com aquela leveza. porque falar da morte é falar da vida, e a vida, muitas vezes, não é um campo aberto da imensas e coloridas oportunidades, mas uma trilha cada vez mais fechada, restrita. ainda me resta o alto para olhar e lá em cima, um céu. o céu é o último refúgio dos sonhadores, das pessoas insatisfeitas e infelizes, dos loucos e dos mendigos, porque não há limites nele. eu gostaria de morar no céu, onde tudo se abre em infinitas dobras de tempo e espaço, onde tudo é distante e as preocupações se dissipam feito fumaça.
mas no céu não poderia realizar. e meu egoísmo, meu orgulho, meu ego - meus diabinhos - dançam embaixo dos meus pés pedindo atenção.
tive vontade de terminar com Deus me ajude. mas eu não acredito em Deus.
maio 13, 2018
não adianta
não sou. não sou mais. a existência que te faz acordar, que te coloca no prumo. não preciso. você me olha, agora, desconfiado ou seria porquê tomou uma distância segura o suficiente para me olhar? para me olhar de fora. por não estar encostado às minhas entranhas, por não estar respirando junto das minhas costelas. eu vejo como você me olha. sóbrio. outrora eu achava que não tinha brilho para você, mas agora sim, agora eu sei. vocês falam demais quando amam demais. ao revés do que manda meu sol, meu dourado escorpião entalado na garganta, não amo intensamente.
mas perdura.
quando eu digo que busco, busco tanto, as tais conexões - o que é conexão para você? perguntou minha terapeuta. na hora não soube responder. é me fazer entender e entender o outro. não sou boa com as palavras.
oralmente
(alguma confiança na minha escrita tem de restar - pode ser que eu me transforme na loba solitária que eu sempre temi ser, mas, ainda assim, poderia falar pelos bilhetes Olá Senhor Porteiro, o Senhor poderia receber esta entrega para mim? Ela é demasiado especial, por favor, me deixe saber quando chegar, estou ansiosa Oi amiga, sinto tanto sua falta, lembra-se quando a gente tomava banhos juntas? não, eu não tinha tesão em você, mas acho triste ter que parar de tomar banho juntas só porque crescemos, saudades, Mari.)
é me fazer entender. e entender o outro - eu disse. e aí tentei me explicar: é conversar, cozinhar juntos, ter um momento. não. ela me disse: são coisas simples que você deseja, então. será? ou eu não me expressei direito. é não ter olhos de ave rapina sob mim, é olhar você com olhos esbugalhados de peixe ou planta, é florescer no silêncio depois de cada ponto final, é rir na mesma sinergia. é estar absorta num único universo, desmanchar as rígidas linhas da sociabilidade, encontrar.
não é tão simples assim, Amanda.
eu precisaria, primeiro, me esforçar. voltar ao estado infantil, ingênuo, crente, ouvir as palavras de um velho como se fossem as suas primeiras. oferecer. meu corpo, meu ouvir, minha casa. abrir. entregar.
e vê-lo desabrochar. que também me olhasse sem intermediar, e. que eu não fosse julgada, não por obrigação, mas pela consonância do entorno. tudo está em equílibrio. soltar.
sentir amor.
como se sente o amor? como ele ae âmago? não é esse engasgar na garganta, ou essa tensão, nem mesmo essa condescendência. existe? é possível? sentir o amor.
sinto-me distante disso, com você. mijando, eu pensei: estou sozinha.
é um alívio, também.
mas me dá medo.
como se tivesse sido deixada num campo aberto. existe, claro, o campo aberto e tudo que ele oferece: o horizonte, o espaço. finalmente, o espaço.
não existe você. seu colo, sua sombra, seu hálito, a proximidade.
talvez eu tenha entendido agora o que quero dizer com conexão. intimidade, talvez, o que as pessoas chamam por. sentir-se íntimo. o que é? sentir-se próximo, seguro, confortável, escarrar-se dentro do corpo do outro.
eu não escolhi abandoná-la. a intimidade. ou escolhi minuciosamente, secretamente de mim mesma, jogando sem consciência. vocês também escolheram. se afastar, me olhar à distância.
não se apaixonar por mim.
não adianta nem me abandonar, porque mistérios sempre há de pintar por aí, pessoas até muito mais vão me amar, até muito mais que difíceis que eu pra você, que eu que dois que dez que dez milhões, todos iguais. até que nem tanto esotérico assim, se eu algo incompreensível, meu deus é mais. mistério há sempre de pintar por aí. não adianta nem me abandonar, nem tão ficar tão apaixonada que nada, que não sabe nada, que morre afogada por mim.
escrevi esta música agora, ouvindo-a. é um bom exercício, como se eu pudesse de fato gravar as palavras na minha mente de uma vez por todas.
eu te amo.
nana.
eu, sobretudo, não quero esquecer. mas ando me esquecendo. deliberadamente, esquecendo. dói demais lembrar de tudo.
tudo bem. você pode ir. e não que eu precisasse te permitir alguma coisa, mas de alguma forma, você espera isso.
você espera que eu ofereça a minha permissão. não sei se é para ter paz, aplacar a culpa, ou poder me amar, talvez mais ou melhor, de alguma forma madura. pouco apaixonada. e eu digo: sim, não deixarei de te amar, mas pode ir.
eu ficarei bem, sozinha, embora meu peito doa, pequeno, apertado. não tenho escolha, também.
é isso que vocês me oferecem.
é isso que eu cavei, é o que eu busquei.
também eu não aguento carregar vocês nos ombros. preciso viver.
o vento chama.
mas perdura.
quando eu digo que busco, busco tanto, as tais conexões - o que é conexão para você? perguntou minha terapeuta. na hora não soube responder. é me fazer entender e entender o outro. não sou boa com as palavras.
oralmente
(alguma confiança na minha escrita tem de restar - pode ser que eu me transforme na loba solitária que eu sempre temi ser, mas, ainda assim, poderia falar pelos bilhetes Olá Senhor Porteiro, o Senhor poderia receber esta entrega para mim? Ela é demasiado especial, por favor, me deixe saber quando chegar, estou ansiosa Oi amiga, sinto tanto sua falta, lembra-se quando a gente tomava banhos juntas? não, eu não tinha tesão em você, mas acho triste ter que parar de tomar banho juntas só porque crescemos, saudades, Mari.)
é me fazer entender. e entender o outro - eu disse. e aí tentei me explicar: é conversar, cozinhar juntos, ter um momento. não. ela me disse: são coisas simples que você deseja, então. será? ou eu não me expressei direito. é não ter olhos de ave rapina sob mim, é olhar você com olhos esbugalhados de peixe ou planta, é florescer no silêncio depois de cada ponto final, é rir na mesma sinergia. é estar absorta num único universo, desmanchar as rígidas linhas da sociabilidade, encontrar.
não é tão simples assim, Amanda.
eu precisaria, primeiro, me esforçar. voltar ao estado infantil, ingênuo, crente, ouvir as palavras de um velho como se fossem as suas primeiras. oferecer. meu corpo, meu ouvir, minha casa. abrir. entregar.
e vê-lo desabrochar. que também me olhasse sem intermediar, e. que eu não fosse julgada, não por obrigação, mas pela consonância do entorno. tudo está em equílibrio. soltar.
sentir amor.
como se sente o amor? como ele ae âmago? não é esse engasgar na garganta, ou essa tensão, nem mesmo essa condescendência. existe? é possível? sentir o amor.
sinto-me distante disso, com você. mijando, eu pensei: estou sozinha.
é um alívio, também.
mas me dá medo.
como se tivesse sido deixada num campo aberto. existe, claro, o campo aberto e tudo que ele oferece: o horizonte, o espaço. finalmente, o espaço.
não existe você. seu colo, sua sombra, seu hálito, a proximidade.
talvez eu tenha entendido agora o que quero dizer com conexão. intimidade, talvez, o que as pessoas chamam por. sentir-se íntimo. o que é? sentir-se próximo, seguro, confortável, escarrar-se dentro do corpo do outro.
eu não escolhi abandoná-la. a intimidade. ou escolhi minuciosamente, secretamente de mim mesma, jogando sem consciência. vocês também escolheram. se afastar, me olhar à distância.
não se apaixonar por mim.
não adianta nem me abandonar, porque mistérios sempre há de pintar por aí, pessoas até muito mais vão me amar, até muito mais que difíceis que eu pra você, que eu que dois que dez que dez milhões, todos iguais. até que nem tanto esotérico assim, se eu algo incompreensível, meu deus é mais. mistério há sempre de pintar por aí. não adianta nem me abandonar, nem tão ficar tão apaixonada que nada, que não sabe nada, que morre afogada por mim.
escrevi esta música agora, ouvindo-a. é um bom exercício, como se eu pudesse de fato gravar as palavras na minha mente de uma vez por todas.
eu te amo.
nana.
eu, sobretudo, não quero esquecer. mas ando me esquecendo. deliberadamente, esquecendo. dói demais lembrar de tudo.
tudo bem. você pode ir. e não que eu precisasse te permitir alguma coisa, mas de alguma forma, você espera isso.
você espera que eu ofereça a minha permissão. não sei se é para ter paz, aplacar a culpa, ou poder me amar, talvez mais ou melhor, de alguma forma madura. pouco apaixonada. e eu digo: sim, não deixarei de te amar, mas pode ir.
eu ficarei bem, sozinha, embora meu peito doa, pequeno, apertado. não tenho escolha, também.
é isso que vocês me oferecem.
é isso que eu cavei, é o que eu busquei.
também eu não aguento carregar vocês nos ombros. preciso viver.
o vento chama.
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