dezembro 29, 2009

pequenininha, viu?

ó, cuidado, é que eu sou pequenininha, viu?
tô de perna cruzada, tô casulo, sô semente, viu?
de longe, você nem me vê.
e cuidado pra não pisar, se você for desavisado.
esses olhos indiferentes a tudo machucam, viu?
e esses pés insandecidos à busca do não-visto, eles vão me atropelar, vão, sim.

eu sou pequenininha ainda, nem sei gritar, nem sei mentir.
não grita demais comigo não, se eu fiz mal, eu não quis, viu?

eu sou pequenininha, cuidado, você vai me machucar.
sou conchinha, viu, frágil e quebradiça.

pra você me esmigalhar basta pouco,
minha alminha toda se contorece
e vira um sopro sem vida nem cor, que feiura que é!
fica aqui pousando, sem força de voar,
sem força de vencer, de pedir, de implorar

mas isso é porque eu sou pequenininha, e não quero aguentar, viu?
eu não sei ver impetuosidade, não sei ser agressiva, não,
não quero gigante me cuspindo, não quero mão me arranhando, tá?

é que eu sou pequeninha, e qualquer soprinho vai me levar longe,
vai me levar longe, viu
vai me machucar por dentro, viu
e não tem jeito não, em gente pequena, sabe
quando machuca uma vez, não tem mais jeito, cortou-se o corpo todo!

dezembro 11, 2009

a caveira

eu tinha uns 10 anos quando a vi pela primeira vez. foi na casa da vó, que também era minha, já que fui filho de mãe solteira. sempre fui curioso, e perscrutava todos os cantos daquela casa que me parecia enorme e mágica. mas nada mais me encantava que o quarto da vó. era só ela sair, cantarolando com sua língua enrolada, que eu entrava furtivamente. abria as portas de madeira do armário, e ficava olhando, olhando, olhando. havia tanta roupa, todas com cheiro de coisa velha, pérolas espalhadas, pó de arroz, eu tinha certeza que ali se escondia um tesouro. uma coisa valiosa, quem sabe, um baú cheio de ouro. e pirata que sou, sacava minha espada, nada mais que um galho seco, e ficava cutucando os monstros que dormiam ali dentro daquele escuro. numa dessas vezes, eu a encontrei.
primeiro cutuquei algo duro, e vi algo branco dentro do escuro. cintilava. cada dia mais eu me aprofundava, certo que ali tinham enterrado o tesouro que eu tanto procurava. não sei quanto tempo demorou para eu tomar coragem de, com luvas de inverno cobrindo as mãozinhas pequenas, pegar logo aquilo e ver o que era. o que me deixaria rico, para comprar uma ilha, pra mim e pra minha mãe. ainda me lembro do terror que me tomou quando aproximei aquilo dos meus olhos. talvez tenha ficado pálido, tão mais pálido que aquele osso, mas não me desse conta, nem das pupilas dilatadas, só das pernas que tremiam e de uma certa tontura dentro da cabeça.
era, sim, uma caveira. foi a palavra que eu pensei na época, uma caveira, como aquela desenhada nas bandeiras do pirata. se um pouco mais velho fosse, talvez tivesse dito crânio, mas isto tudo me parece muito científico. e não há nada de científico nos olhos opacos, no maxilar solto com alguns dentes amarelados, naqueles buracos onde deveria se enfiar um nariz, as rachaduras no branco amarelado. era uma caveira, sim, assustadoramente, como num filme de terror.
não sei quanto tempo guardei aquilo só comigo. me apertava o coração, mas quando podia, ia ver a caveira no fundo, olhar para ela com mais carinho, e tentar dela ser amigo. o sangue que corria, a adrenalina que despertava, fazia-me sentir mais vivo naquele mundo tedioso de adultos que eu vivia metido. um dia, minha vó me pegou remexendo no armário. puxou-me o braço com força e olhou com seus olhos muito negros, o que é que eu estava procurando.
inchei meu peito de menino, fiz de conta que era homem e perguntei o que é que ela pensava guardando uma caveira no armário. lembro-me da sua reação confusa, primeiro soltou meu braço, depois gritou para nunca mais mexer ali. e quando me viu triste, disse na minha orelha, com aquela língua enrolada:
- é a cabeça do seu avô.
e por muito tempo nunca mais falamos no assunto. a imagem que eu tinha da minha avó sempre fora assustadora, tinha um nariz adunco de bruxa, e cabelos compridos grisalhos, e aqueles olhos severos. pouco falava com as pessoas, mas muitas vezes a vi conversando com as plantas, com os pássaros e as formigas, e também com os móveis, com o chão, com a panela e até com o feijão. eram murmúrios secos que não se entendia nada. ainda hoje guardo dela um retrato que usaria para retratar uma bruxa dos tempos antigos, caso as histórias moralistas dos tempos modernos acabe com a força dessa imagem complexa e encantada.
depois desse dia, ela não mais tinha pudores com a tal caveira, quando só estava eu e ela em casa, ela sumia, com seus passos tímidos. a via agarrada com a cabeça do meu avô, fazendo carinho na cabeça calva do osso, e choramingando baixinho. eu saía correndo, porque tinha dó, tinha vontade de chorar também, pouco conhecia meu avô, mas muito me deprimia saber minha vó tão saudosa ainda. um dia lhe perguntei se guardava era pra lembrar do vovô. primeiro me olhou longamente, e decidiu me contar.
- tem uma magia também, que me contaram, que se raspa o osso da cabeça na primeira noite de lua nova, faz a pessoa querida voltar do mundo dos mortos.
sorriu, triunfante, pra mim. parecia feliz com a solução para todos os seus problemas, um zumbi carcomido pelos vermes seria-lhe suficiente para escapar àquele fim de vida. e diante do meu desapontamento, acrescentou:
- é que sou um pouco de bruxa também.
ela vinha dizendo isso com mais frequência, e era motivo de piada entre meus tios. minha mãe, única filha da casa, que chorava por ela, porque sua mãe tinha perdido a sanidade e ninguém tinha sensibilidade de entendê-la. minha mãe sempre foi moça muito sensível, que condenava com vêemencia qualquer tipo de ofensa. mas também, não acreditava que ela era bruxa. isso, só eu sabia, e ainda sei, no íntimo da alma que ainda é criança e mística, o quanto de magia ela fazia, sem poção nem varinha.
morreu uns dois anos depois, e quando estava na cama, muito doente não sei do quê, mandou chamar-me. fazia tempo que já não falava com as pessoas, e principalmente comigo, apenas trocava olhares cheios de significado que eu nunca pude compreender completamente.
- escuta, menino, não guarde o crânio da sua vó, não.
- mas por que? você não quer ser eterna?
- não, menino, eu quero é voltar pro mundo dos mortos, que essa magia só fez prender o espírito do seu avô nesta terra desgraçada, que ele dormiu comigo todas as noites, mas eu ouvia seu lamentar nos meus sonhos.
não parecia que tinha remorso por tratar mal assim, o espírito do homem que tanto amava. e como se lesse meus pensamentos, bruxa que é, explicou-me:
- mas teve serventia o espírito, pra eu não ficar sozinha neste mundo que eu não conheço mais. Agora ele já se foi, também não sei aonde foi. eu quero mais é ficar no céu, e voltar a ser criança, menor que você. quero reencontrar meu pai e minha mãe, que eu era feliz, eu era feliz aquela época, menino.
umas duas horas depois, se fez toda a choradeira, e o corpo da vó se transformou num caixão cor de vinho, que colocaram ao lado do vô. melhor seria se fosse junto da mãe e do pai, mas ninguém me levou a sério, dizendo que as pessoas mais velhas não se lembram mais da infância.
meus tios e minha mãe já se foram, e sou senhor, mas minha infância eu nunca esquecerei, nem daquela caveira cor de cera, que foi demolida junto com a casa, implodida. e nos restos da construção, que fui ver, já com mais de vinte anos, pude distinguir um pózinho branco que cobria uns destroços de madeira. saí correndo, pra não me lembrar dos olhos sem olhos que tanto me olharam na infância perdida.

dezembro 03, 2009

aquoso

se sentia como em solução aquosa. derretida, esparramada, sem nenhuma consistência. como se o corpo fosse, também, aos poucos, abandonando-a. será possível que tudo fosse embora, fossa vazar pelos poros mal tampados? deveria ter esquentado por mais tempo, talvez. ou ter congelado, pra ver se solidificava. talvez se soubesse evaporar, evaporasse assim, o sentimento que ainda restava por ele. assim isso bastaria, uma sublimação perfeita. não havia no seu dicionário de química, na verdade, conceito que explicasse a tristeza de chumbo que arrastava-se por dentro dela.

a cidade iluninava-se de esperança natalina. grande besteira, grande besteira. mas ao lado dela, tudo parecia um pouco mais colorido, e até entendia as luzes, e a felicidade alheia que o mundo se enfeitava. dentro do seu peito se acendia uma luz há muito esquecida, apagada, amortecida pelos tombos que levara. contava as horas para vê-la, para ouvir ela cantar, o samba dos seus pés, os discursos que ele esqueceu guardado nas gavetas de sua juventude. na sua casa, sentia-se pesado, preso, como refém, nas garras de sua mulher triste e arrependida. contava cada minuto para dali sair, para ganhar o mundo, e ver a menina que coloria seus sonhos. cansava-se já da sua antiga vida, e tudo que queria era recomeça-la doutro jeito, doutro lado.

o natal adentrava a cidade. as luzes, e ah! e as luzes. se refletisse o que dentro dela tinha, estava tudo apagado e silencioso. talvez um suspiro, talvez um soluço contido. não poderia aguentar. sentia a dor no seu peito a maior do mundo, era sua, e era injusta. queria tanto que ele ficasse do seu lado, queria tanto que ele a olhasse com os velhos olhos. tinha cortado os cabelos, comprado um batom vermelho, e tentado fazer regime para tirar os pneuzinhos. tinha feito o jantar, comprado um vinho. mas os olhos dele se distanciavam, a janela procuravam, para o mundo se dirigiam, e dela, se esqueciam.

conheceu-a na sala de aula. sentava-se nem na frente, nem no fundo, difícil foi estereotipar sua personalidade. não era comunista, tampouco direitista. também não era aficcionada por poesia, e nem sabia de cor a história do mundo. mas tinha um sorriso leve, um jeito de andar de pássaro, como se voasse, flutuasse sobre o chão, e entedesse levemente de todos os assuntos, sem jamais se embrenhar no profundo. gostava de dançar, e de transar até amanhecer. tudo isso, tão pouco e tão melífluo, o fisgou. e ela o olhava com respeito, primeiro, e respeitava certa hierarquia, mesmo agora. na cama, o chamava de professor e mordiscava a sua orelha. nunca nem perguntou se era casado. achava tudo o mais grande sujeira, e importava que buscasse seu delírio leve e saboroso. ele assim, era outro, estava louco.

era dia 24, e ela fez macarronada. o seu vestido era vermelho. sentou-se à frente dele, com os olhos aquosos - como não poderiam estar por esses dias? contou de como estava cansada de trabalhar no laboratório, da sua dificuldade de fazer a solução, mistura exata, que andava desastrada. ele disse que estava feliz. e os olhinhos dela, novamente, encheram-se de lágrimas. brincaram o vinho, com saúde. ela disse amor e procurou os olhos dele para corresponder. não deram bola. falaram de amenidades. até riram. ela colocou cartola na vitrola, ganhada da vó, o apartamento exalava odor de família unida. depois que acabou o jantar de natal, devoraram a torta holandesa comprada. trocaram presentes. ele deu uma pulseira. ela um abajour em forma de globo, com o mapa múndi.

lembra que a gente ia viajar o mundo, amor?

ele não se lembrava. o jantar se arrastava lentamente. sentia dó dela. via os olhos dela procurando os seus, as mãos tentando encostar sem querer nas suas, como adolescente quando se apaixona. mas não podia, assim, abandonar sua felicidade. ela era mulher forte, ela era sadia, e tinha amor pra dar. era inteligente e afiada. acharia logo outro num minuto, encontraria a felicidade que merecia. sim, ela ia. como ele, em círculos, e a vida se completaria.

acho que não vamos viajar muito, não. eu tenho outros planos.

a garganta dela emudeceu, secou. não achou palavras para perguntar dos planos. por muito tempo, ficaram em silêncio. a mesa com a tolha amarela, os talheres sujos, a torta, a árvore de natal solitária sem luzes de piscar. por muito tempo, mergulharam em seus pensamentos. na verdade, ela tentava mergulhar nos seus. não queria acreditar - não podia acreditar. hoje era natal, e eles podiam ser felizes juntos, como outros natais. ela tinha que. que...

vamos beber o vinho na cama?

sorriu, tentando ser sedutora. lembrou-se das suas varizes, dos pneus, a velhice dos quarenta que arrebenta qualquer ego diminuído e o faz ficar sumido.

eu estou com sono.

foram dormir. assim pensaram. ela ficou de calcinha e sutiã. beijou a boca seca dele. ele sorriu, constrangido. deitou-se na cama. ela fazia carinho nas costas que ele deu. esfregava os pés nos pés que não se mexiam. colocou a mão no pênis que há muito nem via. gastou sua saliva em beijos melosos nos ombros que ele oferecia. o telefone tocou.

ele se levantou num minuto. sentia a saliva dela nas costas, meio gelatinosa. não gostava. precisava sair dali num minuto. do outro lado da linha, sua menina tinha voz alegre. contava de um samba de natal que soube que ia ter, para poucas pessoas, e que depois podiam comemorar, ela estava ardendo hoje, professor, vamos comigo, porfavorzinho. entrou no quarto, e a encontrou com os olhos cerrados. vestiu-se.

aonde você vai, no natal?

parece que vai ter um samba...

e... eu?

não leva a mal, lara, mas... é dos professores da universidade... sabe... é pros amigos, só vai ter professor.

beijou a têmpora dela, sem carinho nem gosto. encontrou sua menina, a cidade estava tão bonita, ela ria e comentava da vida, ele ria e concordava, como música, ela era sua melodia, e ele acompanhava seus compasso com ritmo cadente. dançaram toda a madrugada, molhados em suor e felicidade.

ela sentou-se, com o vinho na mão, e chorou. molhada em lágrima. queria só um presente: o natal, junto dele. uma despedida. nem disso era digna? nada mais adiantaria. o fim era o presente que a vida oferecia. o mundo parecia desmoronar, em moléculas, em átomos, cada vez menores, cada vez mais diluídos e sem esperança nenhuma de voltarem a se reagrupar, de voltaram a ser o que era antes. nenhuma colisão aconteceria, a não ser das suas convicções com a realidade invicta e fria.

nesta noite de natal, choveu. tudo alagou.



(as rosas não falam - cartola)

novembro 25, 2009

fiapo

- escuta, vamos embora. vamos embora daqui.
eu não posso ir, eu não posso, mas como eu poderei falar? como eu poderei dizer que os olhos dela me agarraram e aqui me encurralaram, como posso dizer, entre as tábuas de madeira que aqui me cercaram, me pregaram, e me pregaram até a pele não poder mais esticar?
eu não pude.
porque tinha quando ela colocava minha mão debaixo do vestido dela, e eu sentia a calcinha, toda molhada, a calcinha azul, de algodão barato, a rendinha costurada, o lacinho pequenininho, a linha desfiada que desenhava na pélvis seu traço azul. e eu provava a comida, salgada, me descia a garganta, sem água, tudo seco, e ela molhada, ela toda líquida. eu olhava a jarra de suco, a jarra transpirava, era barro carcomido, como a pele dela, e eu transpirava, com a outra mão limpava meu suor, meu nervoso, meu olho querendo chorar.
eu não pude resistir.
- não posso ir.
mas não poderei te falar o que aqui me mantem, neste meio de nada, neste espaço sem fim, todo esse mato, você diz, toda essa vida atrasada, eu sei, como não saberia? estive acostumado com as luzes da cidade, estive acostumado com as putas me acariciando. mas não era o mato, não era o céu estrelado, era mais o céu do olho dela, que tinha estrelas sem fim, infinito e meu, céu para mim.
e a gente saia pra dar milho pras galinhas, as galinhas carcarejavam contentes, faziam folia, se bicavam, e ela me olhava de soslaio, um pouco daquele céu dourado. os cabelos louros e sujos lhe caíam na cara, e ela fingia rir das galinhas vermelhas, e meu sangue aqui dentro, bombeava vermelho esperando a cena seguinte, querendo ver um pouco de seu olho, querendo ter um pouco do seu corpo. pra pegar o milho nossos dedos se encontravam, se entralaçavam e dançavam por toda a cuia de barro, por todos os sagrados grãos duros, e dura tudo que era o toque dela.
sentávamos um do lado do outro, o vestido velho, sem cor nem odor, batia nas coxas, via os fiapos, fiapos por todo lugar, os pêlos loiros que recobriam a pele de barro frio. e ela trazia minha mão novamente, eu sentia os pelinhos, todos um do lado do outro, desornadinhos, e se eriçavam quando meus dedos valsavam sobre a perna dura de moça da roça dela.
- mas por que? vamo volta pro mundo! o que essa terra tem, hein?
tem o gosto dela, mas como te dizer? você não entenderia. não entende quando o sol se punha devagar, como devagar tudo nessa terra modorrenta, e a gente ia pra cerca, olhar os cavalos que é pra ver se estava tudo bem, os braços dela cruzados na cerca de madeira, cheia de fiapos. e eu me punha atrás, que era pra olhar o pescoço equestre se erguer altivo, que é pra sentir o seu corpo quente, o tecido macio da chita desgastada, sentir o gosto da pele, as coxas estáticas, e ouvir baixo seus murmúrios, sei que eram gemidos, sei que eram gemidos, quisera eu.
- eu vou e você fica aí, você vai ser engulido por eles.
por ela, como eu poderia te dizer? e tão logo nossos corpos se encostavam, eram obrigados a desgrudar, num instante o gemido transformava-se num lamento mudo e mútuo. eu fechava os olhos, e queria imaginar o que seria se... o que seria se se tudo fosse certo, e eu pudesse ter o corpo dela, se eu pudesse ser dono dela... como ser? mas ela nunca desistia. ela nunca desistia, tinha prazer e sagacidade na vida, na saliva cola pra tudo aproveitar. logo me chamava pra ir à varanda, dizia pra vó que tinha fiapos de madeira pelo corpo, e ia pedir para que eu retirasse, porque eu tinha a vista boa e danada, e também tinha feito certo curso de enfermaria. na varanda, a luz baixa, a noite logo ia tudo adensando, a vó na cadeira de balanço tomava chá e ruminava a noite fria, e ela subia a blusa, e tinha as costas cheias de fiapos - que é porque passara o tempo máximo se esfragando e se machucando nas madeiras velhas que encontrava. e eu via os fiapos, todos cruelmente enfiados na pele, e eu a imaginava esfregando-se ali, e gemendo de prazer, a dor sangrada do prazer. passava os dedos dançarinos pelas costas, tirava os fiapos com extrema delicadeza, e queria beijar ali o lugar marcado de arranhões. ia por todas as costas, e a vó ia ficando cansada, eu fazia jus ao suposto curso de enfermaria, com a gaze passava álcool na pele queimada. a vó cochilava sem saber, e a gente continuava a brincadeira, sem se preocupar. ela me mostrava os fiapos na cintura, a cintura fina e delineada, um caminho tracejado e meus olhos enchiam de lágrimas. depois passava as mãos na barriga dura, os fiapos todos ali, onde é que ela se metia, onde é que ela ia com tudo aquilo pra eu tirar. deitava-se no meu colo, e dizia que era para melhor enxergar, e eu via seus mamilos duros, pontiagudos, feito dois olhos atentos a me instingarem. tinha ali, por todo o seio, fiapo também, deixando vermelho, e ao escorregar os dedos ali, com uma precisão médica e exata, sempre de olho na avó, ela mal se contia, abria a boca em êxtase, e eu sentia o grito preso fundo na garganta. sabia, porque o meu também estava preso, quase incontido. olhando para a vó, eu lambia meus dedos, e passava de novo nas costas, na barriga e nos seios, brincava no umbigo buraco, e ela colocava os dedos na calcinha de novo, me deixava ver a pernas, eu queria que tivesse fiapo de madeira na calcinha também.
- você é idiota de ficar aqui. sabe que tá disperdisando seu futuro, sua vida. sai dessa, vamo embora desse inferno.
antes que ficasse insuportável ela levantava-se, acordava a vó, e disse que ela chochilava, e já estava normal, disse que se sentia bem melhor, mas que queria tomar leite e ir dormir. ia embora sem nem me olhar, e por isso você nunca percebia, quando aparecia para a gente fumar o cigarro de palha, e ficava olhando o mato, e espreitando, zombando do meu vô que via disco voador, zombando da ignorância da minha vó, zombando da minha irmã que era quieta e serviçal e que nunca sairia daquele lugar. eu queria que você fosse embora, toda vez, eu rezava, e você ateu, e você com seu velho discurso cosmopolita, buscando prazer nos lugares errados, eu estava usurpurado de prazer, meu chapa, eu estava no limite, e não tinha mais onde enfiar toda aquela energia. mas continuava na varanda com você até o sono chegar de vez, porque se fosse pra cama, suaria tudo, e a molharia, pensando no outro quarto, pensando no sono bom da menina, a boca aberta e os lábios rosados, secos, trincados. então é melhor você ir e me deixar, que eu tô preso aqui e você jamais entenderia.
não entenderia esse prazer subjugado e proibido, esquisito e doentio. os fiapos daquela menina são minha maior obsessão, e tudo que faço, o gado que toco de manhã, o cavalo que ando de tarde, levando os grãos até a cidade, tudo que eu faço é ela no meu caminho. é ter um tempo livre e sozinho, para que eu possa distraidamente mexer nos tecidos dela, tocar sem querer em seu cabelo, sentir seu cheiro de terra e cozinha. é comer da comida dela, com o dedo na calcinha, é poder ver um pedaço da pele quando o vestido é rasgado, acordar cedo pra ir com ela ordenar. na vaca, quando a vó tá na horta e o vô tá dormindo. que é pra ver ela sentar no banquinho, com as pernas abertas, e no escuro, no úmido, com cheiro de esterco e leite quente, de animal bufando, passar as mãos nas pernas dela, encostar meu rosto no seu pescoço, enquanto ela aperta a teta da vaca, com força e manha. é pra sentir seu bafo de animal também, passar meus lábios na nuca ereta, e ver as mãos apertando cada vez mais forte a teta rosada, e a vaca muge, e o seu mugido parece o nosso gemido contido. até que ela agita as pernas, impaciente, pega minhas mãos lentas e puxa até o centro do mundo, aquilo é o centro do mundo, a luz de tudo, você quer picar a mula e ver as luzes da cidade? eu tenho minha mula, meus olhos revirados, minha salvação e e meu pecado, eu tenho a minha luz, eu sempre tive ela, eu sempre amei ela. minha antítese, meu diabo.
- fala pra mim, fala o que essa terra te mostrou que ainda eu não vi.
foi o sangue correndo nas veias, rápido, a adrenalina, e o coração na boca, as penras bambeando, o espumar da boca, a saliva acumulando, a vontade que não se completa, o intervalo, a espera, o sangue correndo nas minhas veias, o mesmo sangue correndo na veia dela, a certeza do errado, do inferno esperado, se Deus existe fez tudo errado, eu é que não sei onde me enfiar, tudo que tenho é a minha nêga, tudo que eu tenho é a sensação de seu corpo em prosa.
o que eu tenho eu sempre tive, mas nunca descobri. muito cedo saí daqui, sem esperar dois olhinhos celestiais vierem me buscar das trevas que me meti. sempre fui casmurro cabisbaixo e a vida é grande esterco, tudo que me desperta é ter e não ter a pele de barro dela. quando voltei, quando voltei, e a saia esvoaçando, e ela me olhou, e soube também, então, e me disse no ouvido
você nunca poderia ter voltado.
e depois que eu voltei, tudo é fiapo, tudo é dor, e tudo é prazer. só o que a terra me traz é o toque dos dedos, o rio que corre na terra e que invade e que me afoga, me afoga no molhado da calcinha que esfrega meu perdão e minha traição. tudo que temos é o que temos, e não sabemos nada mais que o contato ínfimo e pouco, que o resto nos é nada, é o mato sem fim, é o tempo vagaroso, e o ressoar dos grilos, os sonhos loucos da noite. tudo que temos é o sonho e o pouco da realidade, e não poderia negar, não poderia deixá-la.
e se eu te dissesse tudo isso, hein, você ia me dizer para ir embora. se eu fosse, ela morreria, porque menina-abelha-rainha, essa, só vive de prazer, só vive de amor, se transborda toda em si, é própria dona e única, e se não tivesse quem a despertasse, ela iria embora, ela iria para sempre, e eu não poderia deixar, e eu não poderia viver com nossas almas separadas, com dois corpos que tanto se gostam! por tudo ela é êxtase: o mato que adentra suas coxas, os fiapos das madeiras, as tetas das vacas, os grãos de milho, as folhas das verduras, a colher que mexe a comida, o vapor que sai do fogão. sempre extasiada, ao esperar meu toque, ao ter a esperança, nem que seja ínfima e desesperadora, do mísero toque no seu corpo, no seu rosto, na sua alma, para derramar e inundar tudo. eu quero a seiva dela pra mim, quero o líquido que emana do seu corpo, o cheiro de terra batida do seu cabelo, quero ela inteira e sempre, e não vou, não vou embora, não poderia, nunca, jamais, deixar minha irmã, assim, desamparada e só, inundada sem mim.
- acho a terra boa. acho a terra boa e tranquila pra viver. pode ir, que um dia eu volto pra lá.