eu escondo os meus dedos moídos. a arcada dentária dói. olha para mim! enrosco a língua no seu umbigo, você dorme, meto-a logo no buraco, você geme de olhos fechados, vou logo metê-la nos seus olhos.
olha, querida. eu estou te esperando.
ele me olhou e falou rápido, incrivelmente rápido, naquela entonação que tudo termina em reticência, pergunta e responde. se alguém o desafia, finge que nada aconteceu. os bandidos e etc. os bandidos e os bandidos e os bandidos e os bandidos.
no fundo, te escreveria uma hq onde você é anti-herói bandido, malandro e mentira, serhumano de falácia, verdadeira carne ferida, olho vermelho, maconha maconha maconha. vagabundagem e pilantragem da boa.
mas você nasceu supostamente rico, num bairro limpo e de gente de bem, calçadas bem varridas e lojas envidraçadas, as placas não são luminosas, são acolchoadas, tem colchetes, arredondadas, design e conforto, clean naif gourmet vegan. teu ódio é desproporcional. não cabe nestes quarteirões, se esbeira nas praças meio mal cuidadas, de flores amarelas de terrível gosto, brinquedos enferrujados, e você moleque caçando passarinhos. e você homem dando tiro na ratazana do canal aberto.
e os moleques da zona leste. você me disse, lá na zona leste, ninguém mexe com os bandidos.
dentro do carro, percorro a paisagem campineira à busca do pouco de zona leste em que estive: inconcebível. nenhuma imagem, nem alegoria, sequer uma rua, se não, apenas e totalmente, na paisagem, seu rosto. os moleque da zona leste, ele disse, e seu rosto flutuava à minha frente. murmurei tristemente sem saber o que dizer; na maior parte das vezes, minha retórica política é falível e eu a perco, mal a começo, não sei dialogar. me espreguiço mentalmente. e moralmente superior, talvez. nesse momento, porém, queria apenas atiça-lo: minha mina é zl.
que bandido você seria. morreria jovem. teria mais outros filhos. outras mulheres que amaria. bateria em tanta gente. mataria. seria rei - corrente de prata pesada balançando no peito. cifrão. filhos sem pai. bala na polícia. bala em viado. ajudaria as mães. as pessoas que julgaria boas. cuspiria de ódio no seu bairro limpinho. sujaria a cidade toda. traçaria planos de matar um político. de implodir a prefeitura. morreria antes. muito antes. desgraçaria o que poderia. seria rico. e vagabundo.
te botaram no seio da contradição. onde pra ser bandido você tem que fugir, ou sua bandidagem está nos pequenos atos malignos: não pagar uma ou outra conta, nome sujo no banco, bate em mulher muito nervoso. onde pra ser bandido, você não pode. cuida do seu bairro e da sua calçada. maldiz. e tem que trabalhar. e xinga os vagabundos. e odeia trabalhar. termina as frases concordando com si mesmo, mal ouve os outros.
essa coisa. os sujeitos que se tornaram cem por cento puderam nascer ou vencer as contradições. bandidões, anfitrões, artistas.
eu e você somos toda tomada disso. comemos disso. e nos mantemos por isso.
não terminemos a falar em reticências.
obrigada.
novembro 30, 2014
novembro 27, 2014
esses meses passaram rápido como um trovão.
eu quase nem vi.
você diz que a gente não se pertence mais, mas
eu estive tão dentro de você
(e depois tão dentro de mim, porque era você)
que eu mal percebi o que eu vivia.
eu vivi para você até perder a sua dimensão.
mas
você ficou pequena dentro de mim.
você me comeu e eu achei que eu-você era eu.
as mágoas e os escapes, os mesmos.
eu não sei mais como é o seu rosto.
o seu corpo.
não seja tão dura comigo.
eu sou ato-reflexo. perdi.
pensar em te perder é como morrer
um pouco.
não seja tão dura comigo.
outubro 20, 2014
rascunhos
bando de mnino gordinho triste que queria ser artista. a faculdade que pisei bons anos era bem amaciada por egos masculinos triturados, se pensado artistas quando jovenzinhos, lambendo bergman godard pasolini chorando spielbierg. eles ficavam tristinhos e sumiam com os rabos entre as pernas então, e eu gostava da maioria deles, mas ás vezes me enchia esse papo e toda vez alguém ressuscitava um enterrado ou enterrado vivo (godard o mais ilustre destes), e depois paravam de ressuscitar os mortos, para falar de seus filminhos, todos quase ok, mas nada geniais, nenhuma ruptura, nenhum gênio sganzerleano abrindo a porta do inferno como sentiam ao escrever os roteirozinhos, e o pior é que todos eles sabiam. então paravam de falar dos filmezinhos e dos diretores e dos sonhos que tinham para ficar correndo pequenas amarguras e rancores, roendo pedaços de palhas como velhos, cansados de cocaína, se encharcando em cachaça e whiskey relativamente bons e caros. trabalhavam. e falávamos enfim da vida, das eleições, das relações de trabalho, da burguesia, do capitalismo, de cacheiras e praias e ás vezes algum ás de saudade surgia, para rapidamente ser engafinhada pela amargura crica e encerrada em si. os chãos do prédio da faculdade era todo formado de sulcos: esses menino quase todos ou muito gordinhos ou muito magros que desapareciam com o soprar do capital mais leve de todos deixavam os tais sulcos, preenchidos e embebedados pelas infelicidades fundas de tantos anos, dos professorizinhos principalmente.
é claro que tinha uns certos sucessos, coisa ou outra, de festival bestial, pacto com pai ou com o diabo, mas eu só me dei ao trabalho de ouvir um pouco essas bolinhas de recalque amassadas e expelidoras de fumaça de tabaco. quase nenhum era maconheiro - ótima nota.
as menina todas, é claro, eram também amargas, depressivas e absurdamente histéricas, vestindo o manto do santo freud, e desmentindo a histeria com histeria. também entravam sonhando quadros de artes diretores esses todos homens, rupturas, novas linguagens e graças a deus personagens femininas boas personagens femininas servidas de bandeja. mas as menina tinha alguma coisa que, além de gostarem mais de maconha, não tinham o ego todo triturado, já que não havia ego algum antes em se louvar godard ou caetano ambos portadores fálicos. costumavam algumas quase todas canalizar energias agressivas, seja por esforço contínuo absurdamente meritocrático e assustador, solitarias ou grudando nos grandes homens seja vagabundeando entre palavras de ordem e tentando organizar coletivos que se desmantelavam tão leve soprava o vento do patriarcado. tudo dava errado, os homens ocupavam os altos cargos, os coletivos se auto-fagocitavam, a energia agressiva continua ruminante em seu interior, ora ou outra, faziam malcriações, gritavam, eram imaturas e batiam o pé igual crianças loucas e infernais. não vi nenhuma recusar rebolar um funk - tome nota.
é claro que tinha uns certos sucessos, coisa ou outra, de festival bestial, pacto com pai ou com o diabo, mas eu só me dei ao trabalho de ouvir um pouco essas bolinhas de recalque amassadas e expelidoras de fumaça de tabaco. quase nenhum era maconheiro - ótima nota.
as menina todas, é claro, eram também amargas, depressivas e absurdamente histéricas, vestindo o manto do santo freud, e desmentindo a histeria com histeria. também entravam sonhando quadros de artes diretores esses todos homens, rupturas, novas linguagens e graças a deus personagens femininas boas personagens femininas servidas de bandeja. mas as menina tinha alguma coisa que, além de gostarem mais de maconha, não tinham o ego todo triturado, já que não havia ego algum antes em se louvar godard ou caetano ambos portadores fálicos. costumavam algumas quase todas canalizar energias agressivas, seja por esforço contínuo absurdamente meritocrático e assustador, solitarias ou grudando nos grandes homens seja vagabundeando entre palavras de ordem e tentando organizar coletivos que se desmantelavam tão leve soprava o vento do patriarcado. tudo dava errado, os homens ocupavam os altos cargos, os coletivos se auto-fagocitavam, a energia agressiva continua ruminante em seu interior, ora ou outra, faziam malcriações, gritavam, eram imaturas e batiam o pé igual crianças loucas e infernais. não vi nenhuma recusar rebolar um funk - tome nota.
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