hoje eu tive um sonho terrível. tinha uma irmã, que não era sofia nem gabriel, mas um pouco dos dois, se chamava maria ou bia, e estava muito doente, quase morrendo. estive na casa dos meus avós. tirei ela do carro. na hora de tirar, o pé dela se enroscou. levei ela para nossa antiga casa. só lá percebi que havia cortado seu pé. a casa estava vazia. não esguichava sangue, mas parava no tornozelo. maria ou bia não chorou pois estava morta ou à beira da morte, sem nada sentir. foi completamente terrível perceber o que eu tinha feito tempos depois. eu apenas chorava. como eu não percebi o sangue?
a imagem do pé cortado me acompanhou o dia todo.
março 25, 2015
rua
olá doutora, como vai? senhora.
e as pernas, doutô?
vai aonde, sinhô?
maria de quê? maria do josé.
não, maria josé.
sei, maria. josé!
zé num voltou não.
ah é, que se sucedeu?
caiu.
caiu?
caiu.
caiu, de novo?
do andaime de novo?
todo dia, santo dia.
tinha até aquela música.
merdinha.
todo dia, merdinha.
todo dia, santa.
reze três vezes, filha.
mas não há bem que repare todo esse mal!
que mal, filha?
sinto um malestar quando piso lá.
todo dia?
é, sim.
todo dia.
acho que é o jeito que botam os olhos em mim.
sei.
não é não preguiça ein, fia?
preguiça eu tenho, vózinha, mas quem num tem?
importa é que se come.
sim.
sim, come.
mmmmm.
menos barulho, sinhá.
menos barulho de mastigar viu?
queria só um pouco de quieto.
isso não existe, rapaz.
até o quieto tem um zumbido.
eu ouço, todo segundo, o zumbido.
porque mesmo quando a gente dorme, os verme trabalha.
é mesmo.
um quieto só.
deixa disso, vai trabalhar.
vou indo.
bom te ver.
bomtever.
au revoua.
oquê?
nada, não.
vai com deus.
fica com ele.
me devolve.
o que?! deus?!
deus e o resto que cê pegou de mim.
olho da rua.
o olho da rua, vi.
é um olho bem grande e cheio de veias.
ele tá sempre aberto. sempre espera.
sei.
sei.
sei não, o olho da rua.
nunca vi.
fevereiro 05, 2015
uma lista
uma lista!
uma lista - é claro.
das minhas privações
da falta de propriedades
de prioridades
privadas ou sobre qualquer coisa
públicas também
uma lista seria grande o bastante
opressiva e assustadora
de olhos juntos e joelhos cerrados
- minhas gengivas inflamadas
e os dentes deles sangrando
a sua lista também seria
ainda mais opressiva e derrubadora
compararíamos as listas.
compararíamos e morreríamos
- enfim!
de comparação medíocre
eterna e desolada
infrutífera e descascada
bem portada num deserto
morreríamos enfim
talvez com algum alívio
porque qualquer um suspiro
estrangula os ossos miúdos
ter que viver todos os dias
sem chão nem revolta
uma mínima ode à vida
ou aos explorados
ou morte aos exploradores
morreríamos de cabeça quente
de saliva seca e silêncio sagaz
nossos tesouros perdidos e contas de banco esvaziadas
completamente -
nenhum nome paira na eternidade
o universo é univoco
flutuamos sem destino nem espaço
pairando ora ou outra na órbita estrangeira
sem nem sequer se dar conta
ou perceber a indiferença
uma lista! uma lista das minhas privações
e dos meus arrependimentos
e da minha vergonha de não ser tão privada
e assim me manter trancafiada
uma lista dos meus dias:
meu café amargo e ruim, o pó barato,
o pão,
a cama,
a dor nas costas,
a tv desligada,
a internet sem fio,
a internet caindo,
a água,
a torneira,
o banho,
a cama,
a cama,
a cama,
o jogo estúpido
o vivo,
a transa,
a transa,
a cama,
a cama
a cama.
impossivelmente se escreve
não resta qualquer coragem
de pisar na rua de novo
não me resta nem vontade
a cama,
a cama
a cama.
uma lista - é claro.
das minhas privações
da falta de propriedades
de prioridades
privadas ou sobre qualquer coisa
públicas também
uma lista seria grande o bastante
opressiva e assustadora
de olhos juntos e joelhos cerrados
- minhas gengivas inflamadas
e os dentes deles sangrando
a sua lista também seria
ainda mais opressiva e derrubadora
compararíamos as listas.
compararíamos e morreríamos
- enfim!
de comparação medíocre
eterna e desolada
infrutífera e descascada
bem portada num deserto
morreríamos enfim
talvez com algum alívio
porque qualquer um suspiro
estrangula os ossos miúdos
ter que viver todos os dias
sem chão nem revolta
uma mínima ode à vida
ou aos explorados
ou morte aos exploradores
morreríamos de cabeça quente
de saliva seca e silêncio sagaz
nossos tesouros perdidos e contas de banco esvaziadas
completamente -
nenhum nome paira na eternidade
o universo é univoco
flutuamos sem destino nem espaço
pairando ora ou outra na órbita estrangeira
sem nem sequer se dar conta
ou perceber a indiferença
uma lista! uma lista das minhas privações
e dos meus arrependimentos
e da minha vergonha de não ser tão privada
e assim me manter trancafiada
uma lista dos meus dias:
meu café amargo e ruim, o pó barato,
o pão,
a cama,
a dor nas costas,
a tv desligada,
a internet sem fio,
a internet caindo,
a água,
a torneira,
o banho,
a cama,
a cama,
a cama,
o jogo estúpido
o vivo,
a transa,
a transa,
a cama,
a cama
a cama.
impossivelmente se escreve
não resta qualquer coragem
de pisar na rua de novo
não me resta nem vontade
a cama,
a cama
a cama.
privações
1. estou fazendo, não sei porquê, sonoplastia na escola sp de teatro. cheguei na terça-feira e sentei perto das meninas que já estavam em módulos avançados. elas disseram que nenhum teatro grande contrata sonoplastas mulheres. só contrata homens. tive a vontade súbita de desistir imediatamente. não consigo mais, a mesma batalha, em outro território. compulsoriamente, a maioria vai desistir, uma ou outra mina zika vai conseguir. é claro que me apontarão estes exemplos. não que eu seja obrigada a ser zika. seria melhor se eu tivesse nascido com vocação pra ser atriz ou dançarina.
2. estudei numa escola técnica e pública, no segundo ano do ensino médio, uma professora de português nos disse que a gente nunca saberia o que a elite consome culturalmente. que eles ouviam coisas que nem imaginávamos, liam coisas que nunca saberíamos o que era. que ela, nem a gente, saberia o que era. que eram coisas maravilhosas mas complicadíssimas de entender. até hoje eu me pergunto se cheguei a conhecer a cultura erudita e elitista. eu não sei se ela considerava gente da USP gente assim. eu não sei onde estou. o meu buraco da impotência compete com o ódio da existência deste abismo. fiquei espantada quando ela disse aquilo. fiquei amargurada quando me disseram que eu não podia conhecer tudo que havia de complexo e maravilhoso no mundo. meu ódio dela se transfere ao ódio desse culto do erudito. ela criou um monstro terrível feito de muro de pedra, ela, sem saber, despejou a impotência que sentia todo dia, sendo mal paga e mal quista, sobre adolescentes cheios de energia e vontades; ela me fez enxergar castas, sem nenhuma saída ou revolução, a não ser a completa ignorância.
3. tenho medo de algum dia ter criado monstros terríveis de impotência aos meus alunos da periferia. peço desculpas desde já e trabalharei na possibilidade de acabar com tudo isso e recomeçar outra coisa. vocês que empunharão.
2. estudei numa escola técnica e pública, no segundo ano do ensino médio, uma professora de português nos disse que a gente nunca saberia o que a elite consome culturalmente. que eles ouviam coisas que nem imaginávamos, liam coisas que nunca saberíamos o que era. que ela, nem a gente, saberia o que era. que eram coisas maravilhosas mas complicadíssimas de entender. até hoje eu me pergunto se cheguei a conhecer a cultura erudita e elitista. eu não sei se ela considerava gente da USP gente assim. eu não sei onde estou. o meu buraco da impotência compete com o ódio da existência deste abismo. fiquei espantada quando ela disse aquilo. fiquei amargurada quando me disseram que eu não podia conhecer tudo que havia de complexo e maravilhoso no mundo. meu ódio dela se transfere ao ódio desse culto do erudito. ela criou um monstro terrível feito de muro de pedra, ela, sem saber, despejou a impotência que sentia todo dia, sendo mal paga e mal quista, sobre adolescentes cheios de energia e vontades; ela me fez enxergar castas, sem nenhuma saída ou revolução, a não ser a completa ignorância.
3. tenho medo de algum dia ter criado monstros terríveis de impotência aos meus alunos da periferia. peço desculpas desde já e trabalharei na possibilidade de acabar com tudo isso e recomeçar outra coisa. vocês que empunharão.
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