maio 09, 2017

a buceta

clara caiu de cama durante três semanas e em meio à febre, descobriu sua buceta. ela lhe apareceu, marrom e carnuda, em meio aos sonhos bruscos da noite. embora todo o tempo parecesse noite, as janelas permaneciam fechadas, abertas apenas para receber a brisa morna da manhã. nas manhãs, clara recebia as visitas. vinha o doutor, dia após dia, ele a olhava atentamente e apalpava seu corpo em busca do micróbio que lhe tinha infestado e causado a nefasta doença. não, ele não sabia dizer o que era, e sussurrava preocupado à mãe aflita: poderá isso ser psicosomático, o que seria isso, meu irmão? pois o doutor era meio irmão de sua mãe, coisa da cabeça dela, glória, que se desenvolve no corpo de tal maneira que se fica assim... prostrada, glória levava as mãos à testa, ó, essa pirralha, tão fantasiosa, vai me fazer cuidar dela dia e noite por causa de uma cabeça ruim, ó não, escute glória, é preciso cuidar com mais carinho das doenças mentais que das do corpo: de manhã, abra a janela, dê um banho e deixe-a bem limpa, higiene é fundamental, troque os lençóis a cada dois dias; visitas até o meio-dia, depois do almoço feche as janelas, o escuro e o silêncio é fundamental para restaurar a sanidade, ouça-me bem, siga estas regras de maneira rígida; na primeira hora da manhã, aqui estarei para examiná-la a fim de achar um motivo que não seja tão trágico quanto a doença mental, qualquer comportamento anormal deixe-me saber. e assim glória seguiu restrita e exausta, embora, quando de tarde apenas trancava a porta, aliviava-se com os pés mergulhados na bacia de água morna, e continuava o bordar, arte pela qual era tão prestigiada. doutor ícaro estava, ainda, certíssimo, na parte da manhã apertavam a campainha ansiosas as colegas de escola de clara, todas impecáveis com suas fitas enroladas nos cabelos ondulados, a saia colegial batendo na coxa, mal davam o bom dia e invadiam o corredor trazendo seus cadernos à tiracolo. elas diziam que vinham atualizar clara das lições, mas o que faziam eram tagarelar ao infinito. como este era o único horário permitido para ouvir música, clara logo pedia para que elas ligassem o rádio e suas amigas subiam em cima da cama e dançavam esbanjando vitalidade. clara ria, corada, e em seu coração, invejosa. ás vezes, seria melhor que elas não viessem, mas não tinha coragem de pedir, se as ofendesse, as únicas visitas que sobrariam era o doutor e suas apalpações irritantes e a mãe rezando um terço de muitas contas. clara não via seus irmãos ou seu pai, já que o horário noturno era extremamente proibido, clara se sentia o próprio dente-de-leão que ao menor assoprar espalhasse uma doença branca e misteriosa. clara apertava as maçãs do rosto olhando-se no espelho, emagrecia e empaledecia. ao menos quando ardia em febre, as sentia finalmente quentes e rubras e talvez até mesmo mais rechonchudas. ás vezes, clara pedia até mesmo que as amigas a abraçasse, rubia e lídia eram puro amor entre uma e outra, andavam de mãos dadas e se abraçavam à menor comemoração, mas à esse pedido as duas se afastavam, enojadas, você está doente, clara, não queremos pegar esta doença, queremos ir à aula e ver o ian, e mandar recadinhos para o ian, vocês mandariam mais um recado meu para o ian? queria tanto uma visita, quem sabe meu corpo não transmitisse doença a quem é dono do meu coração, todas elas riram, fazendo-a esquecer de tal absurda ideia, o ian se manteria intocado, bem longe dela, ia sim. quando a buceta lhe apareceu, portanto, era noite e escuro, clara estava úmida, o ar estava pesado e quente, ela lhe veio na sua cabeça inteira e perfeita como era: clara poderia comprovar se houvesse luz para olhá-la. a primeira coisa que lhe apareceu à mente depois da buceta foi ian. não entendia muito bem, mas lhe ocorria que ian gostaria também de ver a buceta dessa maneira tão perfeita! e quem sabe ele poderia lhe beijar! mas foi só imaginar tocar os lábios de ian que a figura desvaneceu tornando-se o velho doutor ícaro e o gosto da sua boca ficou todo amargo, clara quis recorrer à qualquer outra imagem e encontrou sua mãe rezando o terço de contas azuis piscinas. não sabia como estas contas lhe despertavam esse imenso interesse, mas quando sua mãe ali se sentava, rezando a ladainha de olhos fechados e produzindo aquele som rouco dos sussurros fervorosos, clara não tirava os olhos das contas, que iam passando uma a uma por suas mãos de pele queimada, sua mãe segurava de maneira tão intensa cada uma que as deixava úmidas e as contas que se abandonavam pelo seu colo eram de um azul mais vivo, completamente hipnótico. clara achava que talvez fosse o efeito de deus invocado pela mãe que lhe mantinha tão vidrada e achou deus realmente poderoso. então, que se não seria a buceta que lhe apareceu de maneira tão súbita deus, nosso senhor, pai todo poderoso, enviando-lhe a cura, sua própria forma, seria clara uma profeta? pensava, em puro delírio, se retorcendo na cama, as duas mãos abertas e juntas pressionando a região pélvica por cima da camisola, era uma pressão completamente viril e apaixonada que acabou por penetrar o buraco que se fazia xixi, ao longo da falange toda a mão tocava a extensão de sua genitália e clara chorou de intensidade. gostaria de gritar, mas sua mãe se assustaria, então gemeu como pôde bem baixo, até que todo aquele tormento tornou-se algo extremamente preocupante e inexplicável. tudo por um momento ficou branco e leitoso e sua cabeça se desprendeu do seu corpo, flutuou por alguns instantes no nada. sua boca seca abriu-se involuntariamente e um longo suspiro subiu como um vapor demoníaco. clara havia voltado a cama, a cabeça em ordem, chamava-se clara. estava apavorada. não sabia que é que tinha lhe acontecido, mas exausta que estava, se contentou com duas possibilidades: ou o diabo tinha lhe invadido ou a doença tinha ido embora. dormiu pesada como fazia dias que não conseguia.

a mãe

a primeira a entrar no quarto, como sempre, foi glória. encontrou os lençóis ensopados e a menina ardendo, dormindo profundamente de um jeito que nunca vira. abriu as janelas e tentou acordá-la. clara, ao acordar, entreviu a mãe e morrendo de vergonha pediu-lhe que deixasse dormir mais, tinha passado uma noite muito difícil, tinha tido delírios esquisitíssimos. três semanas em cama e deus não tinha ainda mandado uma cura para aquela doença devastadora, glória buscou o terço, enrolou-o no braço e rezou-o todo até que clara tivesse acordado espontaneamente. não foi mais que uma hora. o sussurro da mãe entrando nos seus sonhos reavivaram a noite vivida e a buceta se mostrou mais uma vez. clara quis manter-se calma, a fim de que a mãe parasse com a reza, que não lhe adiantava de nada.tudo que glória fazia era passar as mãos na sua testa, chorando, ó meu deus, ó meu deus, ó meu senhor, por que me abandonaste. o desespero da mãe não ajudava o estado interno de clara, que se perguntava a cada segundo como sua mãe reagiria à notícia que o diabo tinha vindo visitá-la à noite. conte-me, meu anjo, conte-me que delírio te deixou assim, clara já se posicionava no colo da mãe que, ignorando as contravenções médicas, deitara-se na cama. se é para levar embora minha menina, leve-me também, leve-me também. veja bem, mãe, ponderou muito bem clara, que temia que sua mãe não deixasse suas visitas matinais acontecerem, eu acho que deus veio a mim. veio, foi, é? veio, e tinha uma forma tão linda! como foi, clara, como era? ah, mãe, era... veja mãe, a senhora acha possível que eu seja uma profeta? ora, clara, começou a rir de maneira espantosa a mãe, você, você... imagine! imagine! ora, mãe, a senhora não acha, que se eu tiver agora curada, deus me enviou a cura, e eu o vi, e por todas as noites desejo recebê-lo, e por todos os segundos da minha vida, eu irei transmitir a sua mensagem. glória ponderava já de pé, um pouco mais sã agora que sua filha se mostrava completamente fora de si. deus, em clara? clara, profeta? ora... deus estava ocupado com tantas outras coisas, deus estava preocupado com os grandes homens - foi o que lhes disseram quando ela, aos dezessete anos, vinha contar à avó que deus se mostrara em um dos seus bordados. ela, lhe dando um safanão bem merecido, disse: você acha que deus estaria num bordado? num bordado, glória? que penitência. a avó tinha então a ensinado que ela era uma mulher pequena, sem nada de especial, mas que aprenderia o bordado como todas as mulheres da família então aprenderam e para curar esta fome de se igualar à deus, glória devia rezar para o senhor todos os dias, devia se lembrar sempre o quão era pequena diante do grande, do misericordioso. glória não tinha coragem de dar um safanão em clara e não sabia também como falar do modo que a sua avó falou, tão rigorosa, tão ressoante, escolhida as palavras a dedo... que diante dessa sua incompletude, de uma voz de ladainhas e cantos de boca fechada enquanto o bordar se fazia, glória simplesmente mandou-a ajoelhar-se e pedir perdão por tamanha blasfêmia. e que já não era sem hora do doutor ícaro chegar, exclamou quando ouviu a campainha tocar.

o doutor 

o doutor entrou no quarto apressado e aturdido, clara estava no quinto pai-nosso, rezava de voz alta, pois se o fizesse de voz baixa logo se distraía, a cada intervalo de pai-nosso ela contava o número em que estava, preocupada que estava em perder a conta. deu de cara com a menina de camisola ajoelhada aos pés da cama, a julgar pelo seu jeito, sua mãe tinha lhe contado tudo, como a encontrara, as asneiras que falara, por deus, glória! trovejou! deixou a menina se ajoelhar assim no chão frio em meio a febre! ele correu a socorrê-la como faziam os bravos médicos, como se imaginava sendo, bravo médico, embora por ser mestiço não lhe tinham dado a oportunidade completa de ser todo esse médico, por ter lhe restado apenas as casa pobres, empestiada de ratos e diarreias, que não lhe dava vontade alguma de fazer o que tinha feito com clara: encontrava-se, ao lado da cama, com a menina em seu colo, ilustração de um jornaleco de um verdadeiro bombeiro em ação. achou-se tão emocionado com esse comovente gesto, que não sabia que era capaz, que beijou a testa da menina com força. sua plateia era apenas glória olhando-o com seus olhos grandes e apavorados. o que é isso, doutor ícaro, começou a ladainha, ele, recomposto colocou-a delicadamente na cama. você nem ao menos deu-lhe banho! ora, ora, toda molhada de suor, que pecado, que pecado. posso dá-lo agora, falou aflita glória, estupefata com este esquecimento diante de tão trágicos acontecimentos! essa pirralha me dá nos nervos, nos nervos! doutor ícaro tirou a temperatura e ouviu o coração, não a leve para a banheira, está muito fragilizada, passe um pano úmido em todo o seu corpo, qualquer coisa anormal me avise. esperarei do lado de fora. clara não tinha aberto a boca ainda, pois não tinha havido pausa em que pudesse falar, então disse: doutor ícaro, posso conversar em particular com o senhor? ela se sentia um tanto assustada. depois do banho, minha cara, depois do banho, pois agora você cheira a peixe. e saiu atrapalhado e confuso, dizendo que precisava visitar outras casas, mas que voltaria na manhã seguinte, e que suspendesse as visitas para que clara descansasse. sem poder protestar, clara aguentou um longo e unguento banho de pano úmido em todo o seu corpo nu. glória limpou as axilas, o rosto, os seios, a barriga e a vagina pois esta estava incomumente molhada. glória olhou bem nos olhos da filha, ressabiada, e segurando o coração na mão, lamentou a tarde toda para si mesma que tinha uma filha pervertida, uma pirralha pervertida. sem saber a quem recorrer, exausta do silêncio dos santos, ligou para o doutor ícaro e pediu para encontrá-lo num lugar vazio e silencioso pois tinha uma dura anormalidade a relatar. não tendo nenhum lugar nesta cidade que passasse por vazio e silencioso, ícaro sugeriu a igreja, sob os protestos de uma glória choramingona, que penitência, que penitência, deus é que me perdoe. ícaro lhe respondeu, do outro lado da linha, que glória precisava ser forte e racional, que há coisas que apenas os homens podem fazer, que os médicos eram como anjos enviados por deus para fazer acontecer a sua palavra. encontraram-se os dois na igreja e sentaram-se lado a lado no banco. glória tentava encontrar as palavras, mas nada, por isso ajoelhou-se e murmurou. daqui a pouco seria seis horas e a missa começaria e para sempre estaria perdida a oportunidade de contar o assombro, aquele diabo ao doutor ícaro. pediu que ele se ajoelhasse também assim deus os perdoaria mais fácil por falar daqueles assuntos na sua santa casa. o doutor se ajoelhou, desconfortável, as igrejas o irritavam imensamente, gostaria de sair dali antes que o sino tocasse e as beatas entrassem enfileiradas, as viúvas, ah, como o irritava a devoção das viúvas, os padres a tagarelar, enquanto ele fazia a verdadeira missão de deus nesta terra. fale logo, glória, por deus, não deve ser nada demais! que mulher dramática, que menina mimada que você foi! glória era irmã mais velha e, ainda por cima, legítima, mas mesmo assim nunca respondia àquelas provocações. era bom ter ícaro como bom meio irmão, pois era médico, mas a ele havia sido privado tudo que tinha vindo da família, seu sofrimento por esta arrogância já era pago todo dia. e, por assim dizer, glória nunca respondia a ninguém, nunca reclamava, principalmente aos homens que lhe rodeavam e prestavam tantos serviços. já mais calma, e convencendo-se que precisava contar aquilo a um médico, lhe segredou. ícaro sentiu-se tonto, abobalhado. aquilo dito de forma tão concreta e bestial provocou-lhe uma reação desproporcional e inapropriada nas calças. por alguns segundos, ícaro não queria ter sabido, mas o primeiro sino que badalou lembrou-o vivamente: era ele, médico, mensageiro de deus na terra, era ele médico, e tudo sabia e por nada se abalava, ele era médico, intocado e bem intencionado, um homem bom. certamente um homem bom, gentil, sem nenhuma moça que lhe espichasse os olhos. ora, glória, isto nesta idade é realmente preocupante, temo ter que fazer um exame de toque para ver se tudo está nos conformes. glória lhe arregalou os olhos, a cabeça finalmente erguida, quando o tempo todo esteve curvada à cruz e jesus cristo sangrando no peito. ora, glória, eu sou médico, ele leu os óbvios pensamentos dela. isto não é normal, você me entende? clara ainda não teve sua menarca, isso é absolutamente anormal! isso é tão deveras anormal que seria esta a causa de sua febre, de sua doença psíquica! clara passava por perturbações das mais severas, das mais inusitadas! sabia que havia mulheres que sofriam de doenças com nomes terríveis! ninfomania, glória, ninfomania! eu nunca vi nada parecido em meus anos de estudo, mas me interesso absolutamente pelas doenças da loucura! a loucura é o diabo, glória! é como o diabo instalado no corpo dela! ora, ícaro, bufou a velha, atormentada, que raio de diabo, a clara é tão pequena e tão criança que não pode receber em seu corpo nem deus nem o diabo. nenhum dos dois! nada! ora, glória, ora! você deixará sua filha apodrecer da pior loucura! você deixará ela cair na desgraça dos prazeres da carne! da carne, minhas senhoras! ele olhava estonteante para as primeiras beatas que vinham à missa das seis, para as viúvas com os lenços na cabeça, ele gritava e o grito ecoava na igreja, agora que todos sabem que sua filha sofre de prazeres, tão pequena e antes de sangrar! tão pequena e antes de sangrar! você tem que dar à ela a cura! a cura, glória!

as amigas

no dia seguinte, a mãe permitiu que as amigas a visitassem. ela assentiu isso com uma tristeza pálida no rosto, olhando bem para clara. clara lhe assegurava que estava tudo bem, pois se assustava com aquela melancolia estranha pairando no rosto de sua mãe. geralmente, ela rezava e chorava, depois bordava e cantava, mas tinha sempre num jeito de olhar uma fé que não deixava a sombra lhe abater. clara dizia isso, mas era mentira. a buceta tinha visitado outra vez seus sonhos. dessa vez, já não apavorada, pôde contemplá-la com calma, pôde apalpar bem aonde as mãos automaticamente desciam, e sem virilidade nos movimentos, o que lhe ocorreu fora uma tremedeira de alguns instantes que ela associou a uma intensa febre. mas sentiu tanta energia depois que não se preocupou tanto com esta febre. além do mais, o carinho na sua genitália fora tão suave e indolor que clara pensou que poderia ter descoberto antes, a fim de dar um sentido àquelas horas tediosas que perdia deitada na cama. clara estava extremamente curiosa quanto à buceta, que face de deus era essa, que é que ele queria lhe dizer com aquela forma e estava pronta para dividir isso com as suas amigas. mas logo elas entraram, não encontrou o clima, a música estava alta, elas tagarelavam sem parar, hoje tinha tido uma festa na escola e o ian estava cheiroso. como está ian? diga-me para ele me visitar, choramingou clara, sentada com a coluna ereta na cama, lídia disse: temos que contar! rúbia discordou: não, ela vai se achar! rúbia, ela está doente! ela está triste! tá bem, mas é só porque você tá doente, clara, só por isso, veja bem hein, e clara sorriu contente com a moeda de barganha recém descoberta com as suas amigas tagarelas. o ian perguntou como você tá, as duas disseram, quase em uníssono, por isso, um sopro quase triste de ter de falar isso. o ian! exclamou clara, ah, o ian! ele me ama? ele me ama? clara pensava na buceta, enquanto suas amigas riam dela, quem sabe a buceta tinha soprado nos ouvidos do ian o quanto clara o amava tanto, o quanto queria beijar aquela boca, ei clara, ei clara! para de sonhar sua idiota, todo mundo acha que você vai morrer, é por isso, gritou lídia mal-humorada. um silêncio pesou no quarto e clara sentiu os olhos fumegarem, era vontade de chorar. eu não vou morrer, disse uma vozinha embargada, cheia de pavor sincero. deus me protege. ora lídia, que horror! é claro que ela não vai morrer. e rúbia, danada que era em desfazer tensões, treinamento garantido por uma família violenta, ligou a música alta e subiu na cama, dançando descontroladamente. lídia, envergonhada que estava por ter vindo de uma família bem criada, saiu correndo porta afora. clara, ainda com lágrimas nos olhos, ria da dança estapafúrdia de rúbia. ela rebolava, subia e descia, a saia curta quase mostrava a calcinha. ei, rúbia, teve uma ideia genial clara, você pode tirar sua calcinha, por favor? rúbia olhou-a longamente. por favor, eu estou tão triste, eu vou morrer, eu estou tão doente, eu juro que não é nada demais, mas é que tenho tido uns sonhos, eu só preciso ver, por favor. rúbia obedeceu, deveras culpada, e arrancou fora a calcinha quase sem cerimônia. achava clara um doce de pessoa e ás vezes se perguntava por que é que ela, escura, com os cabelos tão duros que tinha de trançar todos os dias, filha de pai bêbado, não adoecia. clara tentou não demonstrar o torpor que sentia com esse recém poder descoberto, e assim pediu, docemente, vá, dance, minha querida! e se deitou debaixo das pernas arqueadas e dançantes de rúbia, viu-a. era ela, a buceta! a buceta que aparecia nos seus delírios ali estava! rúbia continuava a dançar, desprendida de tal maneira que se perguntou se gostava de estar dançando daquele jeito em cima da cabeça de clara. é ela, rúbia! gritou, clara! é ela, quem aparece nos meus delírios de febre, é ela! desse jeito! não é deus, rúbia, é a sua coisa entre as pernas, que é igual a minha, você quer ver? rúbia concordou, igualmente curiosa, e logo estava vendo a buceta de clara! é ela, vê? elas não são iguais? você acha que elas são como deus ou como o diabo? rúbia encarou aquela vulva com demorado interesse e disse: acho que não é nada, clara! não é nada, é só o lugar que a gente faz xixi, sabe? o lugar que os bebês nascem, sabe? é como um braço, clara, é só um braço. clara se enfureceu por rúbia não ter compreendido a sua luz, o estado divino de ter encontrado a buceta, a ocupante irrestrita dos seus sonhos. rúbia voltava a dançar, completamente satisfeita com a sua explicação, quando sentiu o toque. clara tocava a genitália dela de maneira gentil, e rúbia, ao invés de parar continuou a dançar, seu movimento ritmado do quadril condicionava o toque de clara e rúbia se sentia, pela primeira vez em muito tempo, dona da situação, irradiada de um poder tão incrível. veja rúbia, veja, em pouco tempo, talvez, se tudo estiver como foi comigo... você vai senti-lo, deus ou diabo, você vai senti-lo, mas não fique com medo, pois é... é... e corou antes de conseguir terminar. eu não tenho medo, falou rúbia! eu não tenho nenhum medo, por favor, continue! eu sou tão boa, clara, tão boa por lhe deixar ver a minha coisa! e agora eu queria que você se aproximasse, chegasse mais perto, queria que você, isso, assim?, isso, dentro, ah! rúbia sentiu um arrepio do pé à cabeça, uma tontura e a boca abriu-se e um perfeito ó, deixando escapar um grito longo e agudo. antes mesmo que pudesse voltar aonde estava, havia uma lídia enfurecida no quarto, chorando, quente, o rosto branco todo rubro, pegava os cabelos com a mão e queria arrancá-los. depois de algum tempo clara pôde distinguir o que ela dizia: suas... suas... sujas, eu vou contar para todo mundo, suas sujas, vocês não podem fazer isso, suas burras! vocês tinham que ser virgens, virgens! virgens! brancas! sujas! você vai morrer rúbia, você vai morrer da mesma doença que ela!

dente-de-leão 

a sua doença era como um dente de leão, quem a assoprasse se esfarelava em instantes, pensou uma clara insone. ela se esfregava na cama, e na falta de qualquer coisa naquele quarto insípido, enfiava continuamente uma grossa cruz na buceta. clara se sentia solitária e a única que atendia ao seu chamado, dia após dia, e no seu aniversário, era ela, quem tinha descoberto, a sua buceta.


abril 20, 2017

ainda moro na mesma rua

eu estou apenas triste. apenas triste. eu gostaria de dizer à alguém: na verdade, estou triste. tenho vivido cenas de uma série norte-americana qualquer, sem nenhum espectador a compadecer.
hoje arrumei o quarto. recolhi suas coisas. separei-as das minhas e coloquei-as num canto. achei o cartão de aniversário que eu te dei do último ano. ele dizia pra você viver, pra você se lembrar de quem é você. diz que eu não sei porquê te amo. eu nunca saberei, acho, pelo menos pelo próximos meses. talvez, com alguma distância. não. a distância não me faz bem àqueles que eu achei que amei. mas algo me diz, que com você será diferente. você será a primeira a não ser uma ilusão, uma história cômica. porque eis aqui os objetos espalhados pela casa, os retratos, todos os clichês, tudo que foi tocado, algumas músicas. eu poderia chorar ouvindo marília mendonça, mas foi com um girassol da cor do seu cabelo.
uma amiga nossa um dia longíquo teve pânico ao ouvir essa música. eu a compreendo e lembro de tudo isso, a piscina azul, nosso estado de cocaína. estou sóbria e por fim escolhemos todos os móveis do quarto cor da madeira. é uma cor sóbria, como se fosse neutra. mas mesmo a escrivaninha maciça sofreu e guardou seu toque. o meu corpo todo, tocado. e agora, eu me privo do contato do outro, talvez com medo de imacular essa memória grudada à pele. e agora, eu não deveria me privar de nada. nem ler cartões de aniversário, nem ouvir esta música. no mais, é certo, se eu morrer, não chore não, é só, só, poesia. eu estou apenas triste e com medo de sentir saudade.

abril 12, 2017

2: digal-lhes que sonhei

a chuva fria e fina acordou-a. sobre seu corpo repousava uma manta de algodão cru, puxou-a à altura do pescoço. ao movimentar seu corpo sentiu que o mundo estremeceu. estava deitada na rede, lembrou-se. tentou não fazer movimentos bruscos e estendeu as mãos debaixo da manta, os olhos fechados. não havia sol e não poderia dizer que horas eram, mas a claridade opaca indicava as primeiras horas da manhã. o rio murmurava aquele eterno lamento, ainda plácido, tímido, acalmando-se às margens depois de uma noite um tanto turbulenta. a maré devia ter baixado e os pássaros da manhã piavam solícitos uns aos outros sua harmonia repetitiva. tudo que havia passado no dia anterior tinha a mais azeda tônica de sonho. ela tentou se lembrar do homem, dos pelos grisalhos, do chinelo de dedo largado no chão, do gosto. a um custo, as peças se juntaram, ainda fragmentadas; ainda assim o rosto dele não vinha, brusco, inteiro, e belo, como deveria ser. tentou lembrar-se do júbilo, daquele alegria, do calor nas bochechas; com muito cuidado, quis sentir as bochechas, num ato infantil, desesperado, tateou-as, estavam frias como a manhã, estavam cobertas de orvalho. ela se integrava de forma orgânica à paisagem e de súbito tudo aquilo destoava de como tudo sempre fora. nita teria ali passado passagens de sua infância, com sua avó, e adoecendo, a adolescência, e tinha ido embora dali, para a cidade, e tinha retornado, pois seus olhos ressecavam-se de tantas noites que vagava insone, e desde então, nita, como era chamada, não entendia o que fazia ali. e por quê, agora, a sensação de pertencimento a envolvia tal como se ela tivesse voltado a ser pitica? andando chorosa aos pés da mãe e sendo embalada na rede - que parecia tão grande - por uma vó muito velha que cantava cantigas da qual ninguém jamais recordaria. ela puxou a manta para cima da sua cabeça. ser encaixada de maneira tão harmoniosa naquele morro, naquele rio, entre aquelas árvores, a ouvir besouros e maritacas, siris e peixes que pulam do rio ao ar, garças, os arbustos e, inclusive, e de maneira perfeita, com o açude de esgoto que, do alto das casas, entregavam, dia após dia, suas oferendas fétidas ao rio, fez-a em pânico. o que havia acontecido ao homem, o que havia acontecido com o seu desejo? levantou-se já barulhenta, a rede se deformou e ela sentou, tonta, com os pés descalços no chão. o mundo ainda girava um pouco, as costas doíam. nem na rede gostava de dormir, pensou, mas se aqui dormi, satisfeita, fui embalada por esta insanidade. na boca estalava a palavra que não ousava se formar, sequer dentro dos teus pensamentos - paixão. e agora sentia o amargo. a sensação de irrealidade do dia anterior era tão concreta quanto os dois pilares de madeira que a rede pendia. e a rede, por sim, aguentava trançada e firme, embora seu corpo fosse volumoso. nita, grande urso, disse a avó quando ela nasceu, gorda, marrom e cabeluda. por anos, nos seus momentos de angústia, sem saber reconhecer sua imagem nem no espelho d'água nem no espelho do banheiro, teve de se agarrar à estas palavras que sua avó cuspia rindo qual uma maritaca: nita, grande ursa, e o pai, nita, grande ursa, e as irmãs, ursa peluda. era esta sua concha, sua morada, seu último reduto. levantou-se pé ante pé e foi até a beira da casa, debruçando-se a olhar o rio largo lá embaixo correndo. vislumbrou o barco que ontem tinha ali aportado, entre a neblina, mas não fazia sol ontem? e nita, de uma vez, convenceu-se do sonho estúpido, tão estúpido, que parecia real e não, que tinha lhe dado um desejo cego de ir embora dali e seguir serpenteando o rio, seguindo um homem que não sabia o nome, se guiando pela lua, tentando encontrá-lo em martim sá. sim, em são joaquim e martim sá. lembrava-se disso tão translúcido quanto era a água, mas o eco desses nomes não faziam provocar nada em seu interior, nem uma borbulha, quem diria a corredeira, a corredeira que seria preciso para seguir alguém desconhecido. o gato preto enroscou-se em sua perna, o suficiente para tirá-la do absorto do seu olhar. chispou-o irritada e entrou para fazer o café.
o dia transcorreria sem grandes surpresas, ela começava a se acostumar com aquele sentimento de pertencer àquele lugar. lavaria as roupas dos outros, seu ofício passado através de gerações, com afinco e atenção, ciente de talvez, aquelas camisas e mantas de algodão faziam parte adequadamente àquele ambiente, às pessoas que ali moravam, comiam, tinham filhos e morriam. não tão ursa, pensava, esfregando no tanque uma blusa de lã, mais um siri vermelho, com duas e boas patas ruidosas. seu pai chamou-a, ela levantou-se do tanque, e num movimento distraído, chupou o dedo mindinho da mão, que doía. ali, ela viu, um corte quase cicatrizado, embora vermelho pela fricção e talvez irritado com o sabão. o corte existia. ela sentiu-se mole, tonta, os olhos soltos da cabeça, algo como um desmaio assombrava uma palidez na tez escura.

abril 10, 2017

penumbra

ela caminhava há mais de quarenta minutos, os ombros se encaixavam encarando o chão, as mãos soltas. embora fosse outono, o sol ardia sobre sua cabeça, a carapuça de cabelos se erguiam mais como uma estufa, apenas um filete de suor escorria ao lado do rosto. descia. não há nada mais a contar sobre ela, a não ser seu movimento último e lento: descia, pé ante pé, em um morro. poderia o morro ladeado de árvore e arbusto, teia de aranha, tronco, pedra, folha verde viva, e seu caminho desembocaria na areia, na areia da praia, na água salgada. os seus pés se banhariam leves na água gelada, a areia fina estaria quente antes. poderia o morro rua asfaltada, ladeada de túmulos de pedra, bronze, talvez prata e ouro, anjos ornamentados, jesus e nomes inscritos, acima da sua cabeça pinheiros se curvavam e faziam meia sombra. no final do trajeto, estaria no seu trabalho. não há mais o que escrever a partir daqui.
há redemoinhos escusos, como pilhas de roupa suja, um monte, sobre a sua cabeça, há escuridão sobre as ideias. um dia, ela ardia de tesão e no outro, aspirava repulsa. ela não consegue pedir ajuda, não consegue nomear o que sente.
não é tão iluminada quanto os outros.
apenas está descendo o morro e não há trejeitos que decodifiquem sua personalidade e a faça, para nós, interessente. apetitosa.
havia uma vida convulsionando há poucos dias em seu interior e foi em poucas horas que desceu um frio fio gélido de água na espinha (curvada) e toda a convulsão se viu, ante morte, devastada. estagnada não tal qual calmaria antes da tormenta, tal qual um rato que ingere veneno. e sua imagem no velório é os pés cinzentos retorcidos, a barriga gorda virada pra cima, os olhos revirados e por isso brancos, estáticos.
é preciso falar dos ratos e das baratas quando sente a podridão, para afastá-la. deixá-la próxima, e alimentá-la, para não deixá-lo pútrido, o seu íntimo.
em última instância, mandaram-me ir embora, e também ficar e esperar, mandaram-me orar, e também cuidar de mim, não mandaram-me alimentar meus desejos. sinto-os destrutivos.
enquanto amordaço-os, na esperança de que continue tudo intacto, a fina superfície sobre o planeta, a terra embaixo dos pés para que nos sustente de joelhos erguidos e calcanhares enterrados, sei que estou destruindo a mim mesma.
vou dizer claramente: calar meus desejos pútridos e possivelmente destrutivos, destroem-me. todos os dias, ela desce, encurvada, preocupada apenas com o próximo instante: se poderão se encantar com o meu sorriso, se eu conseguirei dizer alguma palavra, qualquer coisa, que faça-os sentir que eu sou importante. que eu sou alguém, que eu estou iluminada. que eu desejo. mas eu não exibo meus desejos, não exibo minhas unhas, eu retraio as minhas pernas, meus olhos evitam olhar. permaneço na penumbra.
por uma centena de vezes, nesta vida de alguns anos, meus olhos sempre evitam olhar. eu achei que havia alcançado alguma sinceridade comigo mesma e com os outros; eu contornei tudo o que é e poderia ser verdadeiro para mim mesma. eu não sei aonde me encontrar.
meus desejos não destruiriam, por fim, a vida deste planeta, nem tem fins sistemáticos, mas encontrariam o fim do que eu conheço como vida.
não me mandem embora, ao menos que eu queira. não tenha piedade.
em última instância, eu gostei de me enrolar nessa teia de aranha; mas no fim, tudo está tão interligado (eu fiz o esforço de nada separar, de tudo ser interdependente, um sistema sustentável) que se desfazer de um fio ou me enlaçar mais completamente em algum, é desfazer quase toda a teia.
eu ainda não estou preparada, então não me mandem embora ainda. eu sinto saudades.
vocês não sabem como eu sou um bicho sentimental e apegado. e como é difícil, no fim das contas, ser um pouco livre.
não há caminhos livres, quando se tem que chegar a algum lugar; no fim, ela gostaria de nunca precisar chegar a lugar algum.
e é isso que me impede de viver honestamente.