janeiro 04, 2018

praça dom josé gaspar

no banco, o namorado alisa a ponta do cigarro de maconha e na outra mão acende continuamente a chama de um isqueiro transparente, a chama explode e apaga, sua namorada repentina larga-se em cima dele de forma tão lânguida que se faz mais melancólica que romântica. à vista, quatro jovens estão sentados, uma dupla de frente para outra, um come da marmitex de alumínio; uma dupla joga baralho, pela compenetração e pelo gesto displicente mas inseguro de descarte das cartas o jogo é buraco, um deles que segura a carta tem os cabelos longos crespos presos num rabo de cavalo e é maior e mais claro que os outros três; é uma cena admirável; atrás deles uma barraca de camping se ergue, lá vive um casal ou até mais gente, o cachorro deles late, carregam seus celulares puxando energia do poste de luz próximo, o quadro suave quase se desvanece com a aparição repentina da cavalaria da polícia militar, embora nem tanto. são três cavalos que levam seus cavaleiros de coletes amarelo fluorescente e farda, eles trotam calmamente por entre os meios da praça; nenhuma tragédia prevista desmorona: o namorado alisa ou guarda a maconha; os jogadores continuam silenciosos; o fio entre o poste e a barraca não é cortado. o som do latido do cachorro é interrompido pelo eco dos dezesseis cascos batendo no chão: por um minuto, nenhum ônibus atravessa a av. são luís e tudo que se ouve são os cascos no trote, como se este tempo fosse atravessado por um outro, aquele das carruagens e dos cavalos, dos homens bem vestidos, dos namoros nos salões ou flertes ali perto, no theatro municipal, das casas dos jogos onde o mesmo buraco, com as mesmas regras e a mesma compenetração, era jogado. os cavalos atravessam a praça, um é castanho escuro, do tipo comum, outro branco e da bunda gorda, dum branco sujo de poeira da cidade tornando-o quase acizentado, e o terceiro, castanho claro, tem as pernas anormalmente longas e torneadas, é magro e forte, e seu cavaleiro policial em consequência situa-se mais alto que os demais. o terceiro cavalo embora de primeira vista imponente era um tanto desengonçado, suas compridas pernas não harmonizavam com o corpo robusto de um cavalo e o rosto, imagino, também seria mais alongado que o normal, o nariz bem longe do rabo e o dorso bem longe dos cascos, a cada trote, o cavalo, bicho destinado a correria e guerra, tinha de pensar onde é que iam suas pernas, como é que gingava o corpo; mas tal característica, nem de longe, fazia-o de menor auto estima, pois olhando de cima para seu colega branco e gordo, ria satisfeito e seguia esguio. mais adiante outra barraca de camping e três homens deitados próximos riem divertindo-se, inúmeras pessoas usam o celular, um vento refresca o sol ardido do verão, as árvores chiam encostando-se com suas folhas verdes umas nas outras. na av. são luís, depois do Rembrandt, depois da portaria do Louvre (visitantes, favor identificar-se), passando por um gay vestido à moda (camiseta rosa e meias pretas até a canela), por uma mulher tanto escura quanto alta e masculina feito um segurança, com a mão no bolso da calça e um andar firme e em nada feminino (seja pela graça ou por seu caráter eminentemente vacilante), por três jovens vestidos à moda (piercing no septo, colar grande, black power) cantando parabéns pra você, um morador de rua esconde-se debaixo de um cobertor vermelho vivo. ao seu redor, quatro ou cinco pombas beslicam-o, sem ele sentir, ou comem dos restos do seu salgadinho aberto: nenhuma parte do homem ou da mulher está a vista, alguns moradores de rua, quando se escondem debaixo de seus cobertores encolhem de tal maneira que não podemos adivinhar gênero ou idade, nem se estão vivos ou mortos, se conseguem dormir estufados por um cobertor ou se estão demasiados doentes e por isso precisam do calor, se respiram. não sabemos sequer se não há ninguém ali embaixo, e o que é tal volume uniforme e se ele sente ou não as pombas que ciscam em cima e dos lados dele; o segurança da ótica da frente olha para o volume, não de maneira fixa e obstinada, mas com olhos tristes ou cheios de dúvida (pois o tom que os olhos assumem, se estamos tristes ou duvidosos, é muito parecido) que vão e voltam, tentando desgrudar do volume vermelho vinho da calçada mas sempre a ele retornando, como que também esperando que dali surja o ser vivo ou que ao menos alguém declare: morreu! sua gravata vermelha, parte do uniforme de segurança, voa com o vento. ele desvia os olhos do chão e olha nos meus disfarçando a ruga entre os olhos, recompondo o antigo olhar carregado de emoção para um neutro, imoral, sem julgamentos. talvez não estivesse a pensar no volume vinho, talvez estivesse a repassar em sua memória alguma dor, talvez estivesse tentando domar um pensamento obsessivo que teme tomar-lhe o corpo todo e o olhar de uma estranha desviasse-o de qualquer solução ou enigma, como quando cavamos um buraco demasiado fundo e a única forma de continuar é continuar cavando-o, pois já não temos meio de cobri-lo, e a resposta fosse o escuro e úmido do seu fundo, embora quando chegamos a esse ponto, seja esse sempre um fundo falso, sabemos que é possível cavar o buraco até o nunca, até as extremidades da terra, e o escuro não será suficiente, tendo que nos contentar, sem delongas, com aquele mistério, com aquela rachadura para todo o sempre. e ele voltou a superfície e me encarou com olhos nada suplíces, nada doces, nada rancorosos, nada indagativos, nada. 

julho 21, 2017

nascimento e morte de sofia vieira garcia

sofia veio ao mundo na barriga da minha mãe, eu tinha quinze anos. eu gostaria de contar a sua história como se sofia habitasse a primeira pessoa, mas, por enquanto, eu consigo conceber sofia através de mim mesma. talvez porque houve um antes - sem sofia, e um depois - de sofia ir embora, e eu tenha continuado aqui. anets de sofia, eu tinha visto bebês nascerem, mas nunca um irmão. antes de sofia, meu avô tinha morrido, mas nunca alguém que eu amasse tanto.
aos 15 anos eu tinha vivido tempo demais como filha única, e era, de certa maneira, era uma menina calma e independente. eu acompanhei com curiosidade a gravidez da minha mãe, mas sem nunca pensar direito no assunto. quando ela me perguntou se eu estava bem com ganhar uma irmã, eu disse apenas que tinha medo de não ter dinheiro dali para frente. parece mesquinho e horrível, mas de fato era o que me assombrava. o que me faz pensar que, antes de tudo, pelo menos, eu era pragmática. eu deixei para amar sofia quando o amor viesse por si só. talvez eu estivesse calma o bastante por saber que eu o amor brotaria sem qualquer artifício. ele brotou. não sei quando. não exatamente quando a  minha mãe deu a luz, foi um parto complicado. uma cesária demorada, aflita. tem uma foto em que eu uso duas tranças e seguro sofia recém-nascida nos braços. é engraçado lembrar dessa foto, porque aos 15 anos eu me lembro de estar tão calma e segura, mas aos 15 anos e com duas tranças, uma calça de flanela xadrez e uma regata preta desgastada, eu era uma criança. sofia nasceu dia 5 de janeiro. mas nada mais me lembro, além dessa foto, e de olhar ela através do vidro do hospital, em que era a única menina e tinha 51 cm. era o maior bebê do hospital. a semana seguinte ao parto da minha mãe foi triste, terrível. minha mãe não reagira bem às anestesias da cesária e ela passou uma semana de cama, debilitada. não conseguia comer, e por isso, seu leite estava estava escasso. ela estava fraca, dormia o dia todo, e acordava para que sofia pudesse mamar. talvez ali, eu tenha sentido o amor, o amor urgente e necessário que um recém-nascido demanda. ás vezes meu padrasto estava muito cansado, e restava para que eu ficasse dando volta pelo corredor de casa, com sofia no carrinho - eu tinha medo de segurá-la por muito tempo - tentando fazê-la parar de chorar. eu conseguia. junto dessa urgência, eu tinha algum orgulho de mim mesma. orgulho que me acompanhou durante seu tempo doente, de como eu chegava ao hospital na intenção de fazê-la rir. eu conseguia, algumas vezes. são estes os momentos que mais me doem, porque são minhas memórias que coloquei em uma redoma de vidro, para nunca serem tocados, para nunca serem esquecidos. sofia foi crescendo como se deve, tinha dois olhos muito azuis que a gente nunca sabia se continuariam azuis, e foram esverdeando. eu olhava sofia com um ou dois anos e achava-a bonita até demais. eu tinha um pouco medo da beleza dela. seu cabelo era todo cacheado, loiro puxado para o escuro. sofia amava brincar na rua e ir para a escola. ela sempre gostou de estar rodeada de outras pessoas, de outras crianças. ela brigava com sua melhor amiga da mesma idade, mordia a bochecha do juan da escola. eu cuidei dela durante muito tempo, limpei sua bunda, troquei fralda, ela tomava banho junto comigo. nós desenhávamos, eu gostava de pintar o rosto dela com tinta de palhaço, colocávamos um cd de músicas infantis e ficávamos jogando ursos e bonecos para cima, deixando a casa um caos. nós fizemos isso até seus últimos dias, enquanto ela pôde andar. nós brincávamos e também discutíamos, e na maioria das vezes, ela ganhava de mim nas discussões. eu fazia técnico de meio ambiente, tinha 17 anos e sofia 2 e meio, quando recebi uma ligação antes de entrar para a aula. eu me lembro que estava sentada, esperando o sinal bater, no grande pátio que tinha aquela escola. há mais ou menos um mês, sofia estava doente. ninguém sabia o porquê. tinha dores de estômago, vomitava. achavam que era gripe, resfriado, deram inúmeros remédios. ficava deitada e começou a recusar suas comidas favoritas. um médico chegou a dizer que era psicológico. mas naquela noite ou naquela manhã, não sei ao certo, mas minha mãe com certeza o sabe, ela teve duas convulsões. no hospital, finalmente fizeram uma tomografia. sofia tinha um tumor no cérebro. um tumor do tamanho de uma bola de tênis. quando minha tia me ligou, ela já tinha entrando em operação. eles a operaram na hora. não havia tempo. nunca há tempo. tudo se descobre repentinamente. tudo isso, as doenças devastadoras repentinas, ou o câncer que fica quieto, crescendo, até que, de repente, aparece com uma sentença de morte. eu odeio tudo isso. tudo isso, não terem feitos exames nunca. tudo isso, sem ter a ninguém a culpar. eu lembro de ter chorado no chão, dandara estava ao meu lado. eu contei. e fui para o hospital. de ônibus, da minha escola, que era longe. mas fui e eu não me lembro desse caminho. eu me lembro de estar na sala de espera, e de poder entrar na UTI. sofia estava lá. deitada, viva, careca, com uma faixa de gaze em torno da sua cabeça. cabeça que foi aberta e fechada num mesmo dia, numa operação de seis horas. ela estava viva e tinha resistido bem. todo o tumor foi tirado, eles disseram. ela estava fraca, e dormia mais do que acordava, mas estávamos bem, estávamos felizes.
eu cheguei a acreditar, é claro, que tudo tinha terminado ali.
depois de uns dias, uma amostra do tumor foi enviado para biópsia. quando sofia estava quase recuperada da cirurgia, fomos ao boldrini, hospital de câncer de campinas. não, minha mãe e meu padrasto foram. eu, provavelmente, fiquei com ela, enquanto eles recebiam a notícia de que sofia tinha câncer e que teria de trato-lo com quimioterapia. eu não me lembro se houveram alívios como: descobrimos agora, há grandes chances. na verdade, eu me lembro de sentirmos uma esperança grande e ingênua, mas irredutível, como uma luz cega. eu não cheguei a ficar tão triste, porque dento de mim, eu sabia que ela iria recuperar.
esse é o único jeito de seguir em frente, com a certeza absoluta, completa - a única certeza que eu provavelmente experenciarei na minha vida.
eu tinha 17 anos, era junho e fazia frio. eu fiz dreads e fiquei de recuperação em todas as matérias do técnico e em matemática no médio - foi a primeira vez que isso aconteceu comigo, e eu não ligava.
primeiro, vieram as quimios extensas. ficávamos dias, semanas, no boldrini. ela ainda usava fraldas e nunca deixou de usar, era o jeito mais fácil de cuidar. não podia comer nada natural, nenhuma fruta ou legume ou verdura, porque seu sistema imunológico chegava quase a zero. não entrávamos com sapatos em casa, tinha alcool gel em todos os cantos, tinha sempre que lavar as mãos, se estávamos doentes tínhamos que usar máscara. mas não importa. sofia ficou triste porque não podia ir mais à escola. ela amava a escola. sofia ficou triste porque não podia mais ir aos parquinhos. mas ela soube viver, entretanto. há uma janela de imunidade depois da quimio em que ela não podia sair, depois o sistema se recuperava e podíamos sair. íamos ao shopping, ela comia mc lanche feliz. ela amava muito mc lanche feliz. eu me lembro particularmente de uma coisa, nesta fase: no último dia de cada internação, eu e minha mãe ficávamos muito ansiosas. eu e minha mãe dormíamos no hospital todo dia, revezando entre o quarto com cama ao lado do quarto de sofia ou a cadeira que deita ao lado de sua cama. quem dorme na cadeira, além do pior sono, tem que acordar no meio da noite para trocar a fralda, pesar e anotar. tudo era controlado. então, eu e minha mãe também estávamos sempre doidas para ir embora dali. um hospital nunca se torna a sua casa. havia ali uma brinquedoteca que ajudava imensamente as crianças. era o único contato possível: um monte de crianças carequinhas e com catéter sendo crianças, sendo más umas com as outras, brigando pela posse de certos brinquedos e criando fantasias, excluindo e interagindo. recebíamos pastas todos os dias com desenhos para pintar junto a sofia, com gibis da mônica, com livros infantis. também kits básicos de costura, como linhas e miçangas, paras as mães se ocuparem. mas o hospital não é uma casa. no dia de irmos embora, eu e minha mãe acordávamos bem cedo, comíamos o café da manhã do hospital, minha mãe arrumava tudo, eu aprontava sofia, tirava sua roupinha de hospital e colocava o vestidinho, o chapéuzinho. ficávamos as três ansiosas. só precisávamos que o médico passasse para nos liberar, o catéter de sofia já não estava conectado aos remédios e soros. ás vezes, o médico demorava 3 ou 4 horas. saímos bem depois do meio dia. tudo que ele fazia era passar, ouvir o coração de sofia e dizer: podem ir, semana que vem, consulta tal. mas ele demorava 3 ou 4 ou 5 horas para liberar.
algo tão cruel que eu nunca consegui entender.
ás vezes minha mente fica confusa. eu não sei contar direito com exatidão o que vem depois do que. mas depois do fim desse tratamento, o tumor reincidiu, uma nova operação e um novo tipo de tratamento eles sugeriram. com o tempo, percebemos que os médicos davam ordens claras e precisas e ficavam muito bravos caso não seguíssemos qualquer coisas, mas eles não sabiam o que fazer. sofia era um estudo de caso da médica que era responsável por ela. uma senhora de rosto redondo e cabelo preto em volta que oscilava entre irritada e amorosa. geralmente, era seca, e nunca olhava nos nossos olhos. ela não deixou minha mãe tentar homeopatia, pois isso poderia interferir no tratamento. nós nunca tínhamos escolhas. quando sofia teve de vir se tratar no graac, em são paulo, e mudou de médica, as duas começaram uma rixa de ordens e procedimentos. e todas essas coisas burocráticas, escrotas, humanas demais, que nunca estão nos relatos de alguém que sofre de câncer, tornava tudo mais difícil, irritante. não é um processo linear, e embora os médicos assegurem certeza, eles estão testando, tentando. eu não os julgo, mas no mínimo, gostaria que fossem transparentes acerca de seus processos. eu sempre odiei a ideia de radioterapia. a essa altura, um pouco de cabelo tinha voltado a crescer na cabeça de sofia. quando ela tinha cachos, os balançava e dizia: meus cachinhos, meus cachinhos. parece um filme de drama, mas eu não sei o que dizer, tínhamos essas brincadeiras. quando ela cortou o cabelo dela, choramos. mas ela continuava a balançar a cabeça e dizer meus cachinhos. ela disse isso num dia que estávamos indo para a sessão de radio, no carro, e ela passou em frente a uma creche, com um parquinho e disse: eu queria ir a escola. eu disse: você vai. eu tinha certeza que ela iria.
eu odiava a radioterapia, porque a ideia de jogar radiação num cérebro de alguém me parecia, no mínimo, escrota. todas as manhãs, durante o mês de julho, um ano depois de descobrir o tumor, íamos naquele hospital. primeiro, eles pousavam um pano com éter no seu nariz, e ela dormia. e depois, entrava numa máquina gigante. eu a vi só uma vez. eu e minha mãe ficávamos 4 horas lá, esperando. e, geralmente, íamos pro mc donalds mais perto. eu conheci muitas pessoas com filhos com câncer. nesse hospital, havia um pai muito miúdo e muito gentil que tinha vindo do acre só com as roupas da filha dele. morava numa das casas que o mesmo mc donalds oferecia por causa do dia do big mac. eu também fico impressionada como o mc donalds pôde ser tão presente na minha vida, nesses anos. a mãe da filha desse homem tinha abandonado os dois, ao saber da doença da filha. ele tinha vindo sozinho, buscar tratamento. recebia suplementos de todo mundo, roupas e brinquedos. eu vendia bic macs para todos que eu conhecia no dia que era revertido para "crianças em tratamento", e todo mundo acha isso uma estupidez, mas era o mínimo que eu fazia por todas as crianças e pais que eu conhecia. depois da morte recente de sofia, eu estava ficando com uma menina e tínhamos vindo para são paulo para a casa de uma amiga dela. eu lembro de ter chorado para ela dizendo que gostaria de ir ao shopping comer bic mac porque era o dia do big mac. os rituais que eu construí na minha cabeça, para aguentar toda a dor, não são glamorosos e não tem nenhum tom de superação. eu prometi mil vezes que eu iria ser voluntária depois da morte dela e brincaria com as crianças, eu mandei e-mails. mas nunca fui. eu não sei se teria coragem de olhar as crianças vivas, sabendo que algumas iriam viver e outras poderiam morrer. a única coisa sólida que eu podia fazer era ir ao mc donalds. e isso é extremamente triste e patético, mas é isso.
a sofia amava mc lanche feliz.
(...)

julho 03, 2017

3: diga-lhes que dormi

nita acordou com o frio dos panos úmidos na bochecha, deitada na cama de seu pai, o mosquiteiro cobrindo toda. lentamente movimentou a cabeça e deu a ver um vulto que a vigiava por detrás do véu do mosquiteiro. na boca, faltava um ou dois dentes. os longos cabelos grisalhos, que ao se mexerem, brilharam à luz do sol que entraram pela janela, fez nita reconhecer o fantasma que lhe guardava. o contragosto dominou o seu corpo e fez menção de se levantar, a mão firme da cuidadora segurou seu braço. ela não devia ter mais que quarenta anos, mas seja pelo seus trejeitos e a sua voz rouca, ou talvez os serviços de curandeira e enfermaria que ela prestava seja quem fosse pedir-lhe ajuda em sua cabana, coberta ainda de folhas de bananeiras em vez de telhas, parecia uma idosa. sem nome, com pouca fala, chamavam-lhe inhã ou moça. sozinha, alimentava os gatos mas não tinha nenhum, tinha sido enfermeira durante alguns anos, preparava chás e infusões e receitas aprendidas com a sua família, indígenas do interior, já todos mortos. nita conformou-se com o toque da sua mão quente e sentiu que ela retirava os panos úmidos e recolhia o mosquiteiro; sem o véu tudo estava claro e os dois olhos levemente puxados da moça olhavam-na de maneira clínica. mesmo assim, a visão de nita ainda era embaçada e a moça prestava atenção àqueles olhos grandes e belos, mas baços, que lhe fitavam assustados feio um gato filhote. a moça passou a mãos pelos seus dedos e saiu, deixando a porta aberta. nita sentia um enorme temor no peito, sufocando, tentou lentamente sentar-se na cama. olhou com curiosidade o dedo, o machucado no dedo, ainda vivo, e o risco leve e vermelho, cicatrizado, fez seus olhos se encherem de lágrimas. seu olfato foi invadido por um odor de ervas bem forte, algo doce e inebriante, e a xícara de chá estendida pela moça apareceu na sua fuça. negou sem dizer nada, mas a xícara continuou ali, a mão firme e sem tremer, nita pegou-a e deu um gole que esquentou todo seu corpo. a moça sentou-se de novo na cadeira ao lado da cama. nita agradeceu com a cabeça. depois desse chá, você está pronta, se sentir disposta, a sair. nita tomou-o devagar, pois não sabia se gostaria de sair, pois não sabia para onde é que iria, por ora, o chá dava-lhe uma doce e confusa sensação de irrealidade, de que tudo estava quente e confortável, de que tinha tudo que lhe dispunha. nita sentiu a mão da moça em sua testa mais uma vez, sua mão firme, de temperatura neutra. um sopro quente de ar fez as cortinas balançarem, lançando uma sombra acolhedora para dentro do quarto. nita segurou a mão da moça em cima da mão da testa, desejando que ela não retirasse dali. pousou a xícara de chá e já não contendo o pranto que se avolumava de desejo de escorrer, mostrou-lhe o dedo ferido, colocou perto da boca de moça. moça ou inhã beijou suavemente a ferida, e os seus lábios não eram secos nem rachados, mas molhados e suaves. nita sentiu-se quente e trouxe o corpo de moça para junto do seu, em cima da cama. moça olhou bem em seus olhos, com olhos suaves, nada vorazes, com olhos tranquilos, como duas lagoas, duas poças de água estagnada e clara, dois olhos que lhe faziam esquecer a tortura que se agitava em seu corpo e que não sabia que nome dar, a imagem da feição do homem que não se formava de jeito maneira, mas que espreitava feito uma sombra em seu interior. moça tinha colocado o mosquiteiro novamente e as duas se davam as mãos, no centro da cama, olhando-se nos olhos, nita movimentou-se vagarosamente, passando a mãos nos longos cabelos grisalhos e sentiu a mão da moça percorrer seus seios e seu ventre numa velocidade extremamente lenta, apenas as pontas dos dedos a tocavam, o corpo de nita parecia como o tamanho do corpo do planeta, tão imenso para percorrer com os dedos, ou tão precioso para não se deter em todos os buracos recônditos. quando os dedos de moça chegavam à virilha, nita sentia-se quente, abafada e úmida. ofegava bem baixo, e ainda assim, os olhos de moça calmos como as duas lagoas que nita nunca conhecera na vida, lhe davam paz. quando nita sentiu os dois dedos de moça na sua vagina, sentiu-se toda mergulhada neste lago, rodeada de águas quentes e calmas que faziam cócegas no seu umbigo e entravam voluptuosas pelos buracos do seu corpo, friccionando para dentro do cu e de toda a extensão da vagina, fechando-se sobre si mesmos. somente a boca se mantinha aberta pelo medo de se afogar e nita subia a superfície, mergulhada inteira e sem saída, para buscar ar, o sopro necessário para não se entregar àquela mortalidade. nita viu a boca sem alguns dentes de moça e enrolou sua língua lá dentro de um jeito impetuoso, ainda buscando ar, aspirando o ar quente e morno de dentro do corpo de moça e desceu com os lábios encontrando cada sopro, beijou os lábios menores e enfureceu-se com a tempestade que jorrava líquida, ali não havia calma, se não rebeldia. os lábios pulsavam ferozes e monstruosos, provocativos de um maremoto, foi o que lhe invadiu, às duas deitadas em união, debaixo do mosquiteiro. as duas pingavam e arfavam, mas moça se recuperou logo e os olhos não mais tinham tormenta, como se voltavam à ser aquelas duas poças estagnadas de água, sem emoção alguma. nita sentiu que seu corpo tentava minimamente se desvencilhar do seu, e ela, alarmada, chorosa, dolorida, agarrou seu corpo, ursa como era, montou em cima num abraço, sem deixar alternativa para o corpo magro da cuidadora. ela, então, sentiu seu abraço, e as mãos fazendo um cafuné calmo, trançaram uma grande trança no cabelo de nita. nita afrouxou o corpo e os braços e foi embalada pelo doce caminhar dos dedos sobre seus cabelos, trançando infinitamente de forma carinhosa. adormeceu.
de noite, abriu os dois olhos num susto e do seu lado, dormia a irmã e o irmão pequenos, a cadeira de balanço balançava vazia. ao seu lado pousada a xícara de chá branco, nita pegou em suas mãos, sentiu o cheiro de erva. confusa e ainda sonolenta, dormiu novamente.

junho 22, 2017

notas sobre silêncios

da minha sacada bate um sol transversal que ilumina o feio prédio amarelo de sacadas marrons, à frente dele um gigante cresce mais e mais, fiquei fora três semanas e o horizonte já jaz morto, nem uma última foto do que nunca mais será eu tive a coragem de bater, o guindaste continua imóvel mas sabe-se que de noite ele abocanha os casqueiros sem casa e sem rua.
quando em lisboa, andava perto da beira do rio tejo na parte central da cidade, pessoas agasalhadas esperavam o ônibus no ponto, como agora, havia sirene e um motor ruidoso, o motor se transformou num ônibus, as pessoas entraram, sobraram poucas ou nenhuma. uma lufada de vento encheu o ar e eu o conheci: há muito tempo eu não tinha me deparado de forma tão intensa com o silêncio. é certo que qualquer um que se digne a saber sobre o silêncio sabe que ele é um contraste e isso foi dito e redito e fizeram músicas acerca, mas é difícil tocá-lo em meio à natureza das coisas, em meio à natureza de uma capital.
a lufada de vento preencheu o tempo e o som, os cabelos das mulheres no ponto voaram, o meu também, eu senti ele frio atravessando minha blusa corta-vento vermelha, cruzei os braços e fui preenchida pela sua frágil magnitude.
tudo que havia no mundo era o vento, e não os motores zunindo, nem as buzinas, as sirenas, nem os passos e as vozes longíquas das pessoas. fui tomada de uma emoção alienígena como se daqui a instantes o rio fosse se levantar em um redemoinho e nos abarcaria criando tudo outra vez, de um outro modo. meu coração se expandiu dentro do meu peito.
sentia-me bem pequena e parte deste todo.
o som retornou, me aproximei de um lugar que se preparava para o arraial de noite, pirilampos pendurados e barracas de madeira com os nomes das comidas, gente arrastando coisas, buzinas, sirenas.
são paulo não aceitaria este silêncio porque é impossível que uma lufada de vento seja capaz de cobrir todo esse zunido.
me perguntaram minha cidade favorita que visitei, eu só conseguia pensar em lisboa, eu só conseguia pensar nesse momento, eu gostaria de habitá-lo, de sê-lo. mas é claro que a sua natureza é contraditória para se tornar uma morada ou mesmo um lugar: se faz de contraste, é efêmero. por essa entendo a quando se referem, então, não-lugar?
adentrei num parque bem arborizado em zagreb e procurei pelos lagos que seu mapa indicava. o parque se fazia numa avenida iluminada pelo sol ladeada de árvores e pequenos caminhos pavimentados com pedrinhas selvagens bem colocadas. desde que estive a beira do tejo e o silêncio me invadiu decidi procurar pela água, onde é que elas estariam, nas cidades que eu viveria por não mais que cinco dias. o maior lago tinha uma espessa mata de grandes árvores por todos os lados e parecia um lugar silencioso e recôndito. na outra margem via-se apenas árvores e um morro, sem passagem alguma, resguardando o mistério necessário para que aquele parque urbano parecesse selvagem. um casal de namorados no banco mais próximo ali estava e andei, não querendo atrapalhar possíveis sexos em público, um homem que remexia no lixo falou comigo em croata e eu não sabia o que responder, ele saiu correndo fechando um sorriso malicioso depois de um no meu nervoso. por um tempo, estive imersa nos porquês do medo que eu sentia o tempo todo dos homens que cruzavam meu caminho: há pouco tinha me escondido de adolescentes em bicicletas (extremo e traumático), de uns jovens, da minha idade, rindo e conversando alto e sem camiseta (falariam mal de mim em croata) e por fim do velho que catava lixo.
me livrei completamente das teorias e reclamações que tinha formulado, do meu eu enquanto mulher, oprimida, e o medo escorregou por entre as folhas secas e mergulhou como uma rã escorregadia no lago para ser comida por um peixe grande e esbugalhado. olhei com desinteresse vivo o reflexo da luz na água que fazia correr pelas folhas verdes bem claras desenhos e rajadas de luzes. estive por muito tempo olhando esse lago, essas folhas, esse reflexo.
estive por muito tempo olhando, estive desde que nasci, e desde antes, e me parece que por qualquer razão ou caminho aleatório, me encontrarei sentada no banco de madeira olhando o reflexo fluido das luzes sobre as folhas e a água correndo.
uma mulher se aproximou e foi até o deck próximo a mim, não um deck, mas uma tábua de madeira estendida em direcão ao rio. indo até ali, se via no meio do lago um jardim de samambaias e plantas que desconhecia bem iluminadas pelo sol, artificial como cyborgs assassinos, mas tão lindo quanto eles. por conta das árvores, eu não sabia o que a mulher fazia, mas depois de uns minutos uma mutirão de patos que estavam dormindo na sombra das árvores ou flutuando vazios em cima da água, vieram até o deck a grande velocidade piando e mugindo e grasnando e seu som pareciam como de cem sapos coaxando. vieram filhotes, que mais berravam, e depois os grandes, e eu não pude saber se ela os alimentava ou era uma encantadora de patos ou tudo passou de uma grande coincidência ou se sabia que naquela exata hora os patos se agitam e vão nadando naquela direção e ela os amava intensamente. sim, de qualquer hipótese absurda, ela com certeza os amava intensamente. eu também os amava, mas de uma outra maneira, de praxe tenho um pouco de medo, mas estes eram tão inofensivos às sombras das árvores e dormindo nos seus galhos daquele modo engraçado, que eu simpatizei com eles.
durante muito tempo seu coaxar preencheu o espaço do som. o vento inconstante que rajava as folhas, os pássaros, os patos e umas crianças brincando, uma sirene, um ruído muito grave que surgia do fundo da terra como se fossem seres intraterrestres ou do fundo do céu como um avião tão distante e presente ao mesmo tempo, e pássaros, de vários tipos. dois pica paus bicando uma árvore atrás de mim e eu gravei todos esses sons e me ative à eles de forma tão concentrada como se eles fossem o silêncio que eu buscava.
mas são o oposto disso, e por muitas vezes, gostaria de ter aqui escrito que encontrei o silêncio duas vezes, mas não.
depois por um longo tempo observei as tartarugas - e elas sim, posso dizer que amo, de um amor infantil e puro e platônico até o último ano do mundo. elas se secavam ao sol e estendiam os pescoços de pele enrugada para recebê-lo aonde podiam sentir os minúsculos olhos pretos fechados. àquela hora, muitas estavam ao sol e não no lago. os patos tinham migrado e sumido e elas seguiam seu curso. resolvi me movimentar e observei que o chão se movia e era uma tartaruga que andava com dificuldade entre as folhas secas e pedrinhas se afastando para o lado oposto ao lago, se digirindo a um pequeno morro que daria num caminho pavimentado de pedrinhas selvagens, debaixo de uma grande sombra de árvore frondosa. todas as tartarugas faziam a siesta e ficavam próximas ao lago e esta, tendo os pés aptos a água, insistia em se mover à terra.
me apaixonei instantaneamente por esta tartaruga. eu não sabia se ela estava desnorteada e pensando que se fosse para aquele lado, encontraria o lago, então fiquei triste por ela. eu não sabia se ela tinha desejo de explorar o seu mundo, a área que lhe foi designada, talvez absorta pelos ruídos graves que rugiam do grandioso céu e faziam tremer a terra. por fim eu pensei que ela se afastava de suas companheiras para morrer distante e em terra.
fiquei extremamente triste ao acompanhar aquele velório em vida.
uma bicicleta veio zunindo pelo caminho da tartaruga e eu dei licença para ela passar e resolvi me afastar da tartaruga que continuava seu caminho lembrando-me quando aos onze anos num zoológico observava intensamente um orangotango e como suas mãos eram grandes e humanas, e como tudo nele era humano, e me perguntava o que é que fazia de mim humana e dele orangotango, atrás das grades do zoológico, com aquele olhar triste que os animais deste lugar tem, e que os orangotangos naturalmente tem. eram pensamentos infantis mas eu me lembro da hipnose à que fui submersa e um menino que tinha tentando me roubar um beijo sem sucesso no ônibus da excursão, pedro, cabelo tijela, magro e agitado disse: está apaixonada pelo orangotango, é?
tristemente a rã de quem eu sou, a memória que me constitui, a mulher que me designaram para ser, minha experiência psicológica, voltou galgando as escamas do grande peixe, pulou da sua boca com tanto afã que caiu em terra e em dois segundos estava entalada na minha garganta.
nada mais pude pensar que não em como eu tinha desistido de observar a tartaruga porque tinham me repreendido, dizendo algo em absoluto nojento, porque era um mulecote de ego ferido, porque talvez eu estivesse mesmo num estado de paixão pelo orangotango, porque contemplar intensamente qualquer outro era errado, eu parei de contemplar o orangotango.
eu parei de contemplar a tartaruga.
ainda andando querendo ir embora, dei uma olhada para trás para ver se divisava a tartaruga em meio ao chão marrom, moribunda, perdida ou aventureira desmedida, e não mais a vi, de certo porque se camuflava ou o tempo da rã entrar pela minha garganta e esbugalhar meus próprios olhos para o meu estado interno era o tempo que a faria desaparecer.
eu gostaria de saber se ela tinha ido à terra. ou voltado ao lago.

continuei minha viagem nessa busca pela água mas a espanha me deu águas completamente comuns, lugares inteiros e visivelmente conhecidos, um mar mediterrâneo azul de certo, mas atravessado pelas milhares de pessoas na praia e meu temor que levassem minha bolsa com dinheiro e passaporte, um rio ladeado de concreto em madrid.
madrid fazia mais de 40 graus todos os dias e as pessoas todas também buscavam água desesperadamente. em meu último dia lá, andamos até um lugar turístico que não me interessa explanar, atrás dele havia uma fonte, e as pessoas tinham os pés mergulhados na água da fonte e com roupa se banhavam na fonte qual chuveiro ou cachoeira e se secavam ao sol nas bordas de concreto da fonte. uma moça de cabelo verde sentava na piscina baixa junto ao seu namorado fumando um cigarro.
são paulo escurece logo e as luzes aqui na parte central da cidade são cada vez mais escassas. o som continua absolutamente ininterrupto buzinas constantes de um mesmo carro helicópteros e a porta da minha sacada rangendo irritantemente por conta do vento.

ás vezes, eu penso em você só para ter a sensação de estar apaixonada por algo. é uma sensação inebriante mas você está fixo e enraizado aqui, e ao meu lado, então também não é. minha hipnose, minha contemplação e a forma mais simples de felicidade que eu conheço habita os não-lugares, os olhos minúsculos fechados das tartarugas e as águas que dançam à luz do sol.
então eu penso em silêncio em te foder e tudo fica bem de novo.