junho 15, 2018

receita de bolo de cenoura

primeiro, as cenouras. essa parte não é lá muito fácil: a receita diz duas médias, mas serão três das pequenas ou uma daquela bem grande, na dúvida, escolha as médias. tire a casca e corte-a em rodelas. essa é a parte mais irritante de se fazer o bolo de cenoura, sem dúvida. descascar suja tudo de casca laranja e cortá-la crua é difícil, segurar a faca com as mãos pequenas é sempre um risco. mas respire e lembre-se que o bolo de cenoura é a coisa mais maravilhosa que há, e para isso, tem de cortar aquele legume laranja, pontudo e feio cuja maior missão na Terra é fazer um bolo gostoso que não tem seu gosto. bem, depois, quebre os ovos. quebrar os ovos exige cuidado e atenção, e pode ser assustador, quebre-os na ponta da pia ou da mesa mesmo, deixando um pouco de gema amarela sujando o local. jogue tudo dentro do liquidificador: as cenouras, os ovos, duas xícaras de açúcar, uma xícara de óleo. fazer um bolo é uma magia. duas xícaras de farinha, faça com calma e se divirta. puxe uma cadeira para perto da mesa, suba e observe a massa laranja se remexendo toda. uma colher de sopa de fermento, muito importante. unte a forma, com carinho, acariciando nela a manteiga e depois jogando grosseiramente a farinha em cima, batendo de um lado e do outro. cuide para que tudo esteja esfarinhado. despeje a massa na forma untada e faça questão de limpar ao máximo o liquidificador com uma colher, e depois um garfo, e os dedos, porque não se pode perder bolo: temos de ter muito bolo para comer. muitas vezes o bolo de cenoura era o nosso jantar. deixe a massa descansando um pouco e observe as bolhas de ar estourando na superfície. a ansiedade está cada vez maior, mas seu pai disse que é importante a massa descansar assim. o forno ligado e lá vai a forma. agora, a dor. esperar a massa ficar pronta é o cúmulo da ansiedade que um pequeno ser humano pode conhecer. o tempo todo, imagine e lembre-se do gosto do bolo de cenoura e se postre em frente ao forno acendendo a luz dele o tempo todo, vendo a massa crescer. vá ver tv e se distrair, para o tempo passar mais rápido. sem conseguir se distrair, pergunte quando vai ficar pronto. e de novo. e a cobertura! é preciso fazê-la. leite, nescau e açúcar. muito leite, muito nescau, muito açúcar. mexa devagarinho o leite quente em fogo baixo vendo ele se colorir de negro. continue mexendo e mexendo. até quando tem que mexer? eu perguntei, cansada, os braços já doendo. ele respondeu: já tá bom, ué, pensei que você gostasse de mexer. o que ele não entendia é que aquela cobertura nunca ficava igual ao da padaria. aquela casquinha crocante. vou contar o segredo, mas depois esqueçam que eu falei isso: pouco leite, chocolate e muito açúcar. você pode fazer um brigadeiro também. mas aqui eis o verdadeiro tesouro do bolo de cenoura perfeito: quando você jogá-lo sobre a massa, ele entrará dentro formando fios deliciosos de chocolate e deixando-o macio. vamos ver se a massa está pronta. primeiro, feche todas as portas e as janelas. nenhuma corrente de ar pro bolo não murchar. um bolo bom tem de ser grande, fofo. ih, não cresceu dos lados. nunca cresce dos lados nessa forma retangular. as janelas estão fechadas, a cozinha é quente, calorosa, confortável. tudo aspira afeto: a proximidade do bolo, a ansiedade para ver se deu certo e o calor do forno esquentando a pequena cozinha. enfie o palitinho para ver se ele sai limpo. se tem coisinha ainda, espere mais. mas agora, ele está perfeito, porque não quero falar da agonia de ter de botar de novo ele no forno e esperar mais, a ansiedade em seu pico mais agudo. e, depois, grandes chances dele murchar tristemente. um pouco, é verdade, ele murcha. você prende a sua respiração e sempre espera que um dia conseguirá tirá-lo perfeitamente, como ele estava na estufa. faça furinhos com o palito de dente por todo o bolo. aí sim, derrube lentamente o leite com chocolate e veja ela sumir se embrenhando dentro. peça seu pedaço. agora você irá comer a melhor coisa do mundo. as mãos e os pés são pequenos, os olhos redondos, de jabuticaba, o sofá puído, ele é vermelho, e vocês comem muito bolo de cenoura, metade da forma, até não conseguir mais. ele colocará ainda o bolo entre dois guardanapos e você levará um último pedaço para a casa de sua mãe. sua mãe também faz bolos de cenoura, mas não deixa você cortá-las nem mexer muito o leite quente. mas ela também faz aquela cobertura bem líquida, só que coloca menos açúcar, menos chocolate. a casquinha crocante do bolo de padaria continua um mistério. o bolo é bom gelado também, mas não há como ser melhor do que quente, recém-saído do forno. as horas de espera e ansiedade valerão a pena, você vai guardá-las com tanto afinco na sua memória que para sempre as sentirá quando fizer o bolo de cenoura, sozinha, na sua casa, com suas mãos crescidas, mas não menos desastradas. 

maio 31, 2018

rede

deitei-me na rede junto à janela, o dia estava azul e claro, convidativo. mas ali estava a rede à minha espera, e todas as plantas que eu coloquei em volta delas; tudo isso eu planejei. e escolhi as plantas que recendem, para então sentir, como agora, o cheiro delas perturbando suavemente as minhas narinas: o alecrim, o manjericão, talvez esse doce venha da lavanda, e o cheiro verde, da terra, próximo do perfume reconfortante das matas fechadas, das roças bem cultivadas, o úmido e as folhas apodrecidas, a sensação calma da natureza. tudo isso eu tentei recriar, dentro da minha casa, talvez, para que não fosse preciso sair. antes de me deitar na rede, eu tinha pensado em ir ao largo, sentar-me próxima de uma árvore, mas a quantidade de pessoas lá sempre me inibe; de maneira geral, eu não gosto de estar entre as pessoas, as desconhecidas. não as multidões, eu gosto delas, mas as pessoas sentadas, numa praia ou numa praça, que te olham com curiosidade e querem vir falar com você.
eu estou ansiosa por terminar a minha casa, e eu não sei bem porquê. deitada na rede, depois de cansar de ler, eu pensei que sou infeliz. mas essa infelicidade vem da mania irritante que eu tenho de me olhar sempre em terceira pessoa, de ver o meu próprio corpo deitado na rede e gostar de ver, mas não gostar de estar nele. da minha constante incerteza se eu deveria agora estar nessa rede ou lá fora ou ter arranjado um programa qualquer ou ter convidado alguém para me visitar ou me convidado a visitar a casa de alguém. eu sou infeliz porque não me sinto bem, quase nunca, com as minhas escolhas. tentei escrever, antes disso, e abri os textos e olhei e fiquei enojada. não tenho segurança alguma de saber se o que eu tô escrevendo é uma bobagem, para os outros, e nem para mim mesma. perco, com muita facilidade, a dimensão da minha vida, perco o fio que eu achei ter encontrado por permear.
vivo num estado de ansiedade constante e calma sobre a pessoa que eu quero ser. ao me deparar com meu trabalho real, me escondo, e as ideias fogem. qualquer comentário me desanima. e deve ser porque minhas expectativas são sempre muito altas.
minha imaginação, às vezes, não me serve de nada. só para me deixar triste.
fiquei na rede até que a luz acabasse e eu não pudesse ler direito as palavras do livro. o ritmo fácil e doce que Natalia Ginzburg escreve me dá vontade de escrever, porque é direto, sem rodeios. todo o tempo que eu li Meu nome é vermelho não tive vontade de escrever porque tudo é complexo e baseado numa admirável pesquisa histórica, coisa que não tenho aptidão, ou na verdade, tenho preguiça. apesar de ter lido rápido as 560 páginas do livro, eu ás vezes lia e relia uma frase com medo de perder alguma coisa. comecei a ler Natalia assim até me tocar que eu poderia tentar ser fluida. tenho esse costume de ler e reler os parágrafos e sempre acho que é sinal de Alzheimer, déficit de atenção, dislexia, depressão, ansiedade, o que seja. sempre.
a luz foi caindo aos poucos e eu admirei este estado que visito frequentemente, muito provavelmente mais do que uma pessoa produtiva visita. admirei, mas não no sentido de admirável; é um estado lamentável. a queda da luz me deixa melancólica. vezes sem fim eu chego cedo em casa do trabalho e fico no sofá fazendo qualquer coisa, como no celular, até que a luz do dia caia e a casa esteja mergulhada em sombra. tenho mania de deixar as luzes acesas sempre - mania não, mas algo muito interno à minha personalidade de distraída e desleixada - e as minhas contas de luz são exorbitantes, mas quando o dia me oferece sua luz, eu a aproveito até que não reste mais nada.
é extremamente triste. sempre me vejo num ambiente sem vida, escuro, indistinguível - a bagunça em cima do sofá e da mesa não importam mais - e as sombras dos objetos no crepúsculo criam formas pavorosas. eu sinto uma letargia tão potente que não consigo simplesmente me levantar e acender as luzes elétricas. tudo está quieto, com exceção da cidade que nunca se cala, não tem ninguém em casa e o dia não esta mais azul. eu gosto muito dos dias azuis. mas não é prazeroso, antes, há dor. como se as luzes finalmente terem caído eu possa enfrentar meus demônios: meu medo, meu temor diante da vida; meus fantasmas, meus desejos interrompidos, a infelicidade, minha insignificância diante do mundo, das pessoas que eu amo. finalmente, acessei meu estado interno. depois de um dia inteiro vigilante com a minha própria figura e as minhas ações, brigando com as vozes internas que me mandam ser útil e criativa ou se não conseguir, pelo menos lavar a louça. mas mesmo assim, me vejo: e é por isso que escrevo. aliás! como é gostoso escrever sem ter que revisar e tomar cuidado com as repetições, com a pontuação. desde que eu levei a sério esse negócio de escrever, o prazer foi escorrendo pouco a pouco para sobrar aquilo que os escritores sempre contam, quando falam de seus métodos: disciplina, o próprio método, o trabalho de cortar e acrescentar, de se fazer entender, de criar belas metáforas, palavras contraditórias em harmonia, fazer efervescer o centro do texto sem deixar aparente, etc, etc. tudo isso é trabalho e não há prazer. mesmo agora, preciso pensar, e ás vezes parar de escrever, mas é outra coisa. isso não tem finalidade. dizer isso agora encheu meus olhos de lágrimas tímidas: fazer algo sem finalidade é realmente prazeroso.
isto me lembrou o que eu queria escrever e não veio corpo, outro dia, estava andando na avenida angélica e pensei ter alguém nas minhas costas, virei-me assustada, e nada. como estava calma e talvez, até, contente - tinha passado uma hora no parque buenos aires, fazendo hora, ouvindo um casal de lésbicas se beijar nas minhas costas e lendo o meu livro e sentindo a grama penicar minhas pernas - pensei em escrever sobre a sensação quase constante que tenho de alguém me observando.
na rua, numa padaria, e principalmente em casa, no trabalho. em casa, eu me assusto e acho que são os fantasmas. olhando daqui, enquanto escrevia, a cozinha com a luz acesa a minha direita, em perspectiva, sempre parece esconder alguém.
eu não sei se são os fantasmas, mas me ocorrera falar que são os meus demônios. vezes sem fim que me assusto com minha própria sombra. pode ser que você me ache uma menina tímida e desmiolada, que tem medo de tudo e não tem coragem de encarar a vida - em parte, isso não deixa de ser verdade - mas pode ser também que eu esteja sempre alerta demais para poder ver os meus demônios.
porque, se são fantasmas, continuam sendo minhas sombras - Sofia, que eu lamento esquecer e lembro com tristeza, e que eu queria ter um altar, mas tenho vergonha o suficiente para não fazer isso, sua voz me chamando, sua alegria e o trágico curso da vida que a levou e logo Gabriel, o irmão vivo que nasceu depois e por conta da morte dela, que eu gostaria de ser mais presente e poder amar com todas as minhas forças, mas que algo, uma culpa, ou essa insistência em perguntar se ele existiria, se Sofia tivesse viva, se eu pudesse ter os dois, e mesmo assim, me culparia pela ausência em suas vidas, culpa que não é forte o bastante para me fazer voltar para Campinas, porque aqui em São Paulo, me fiz, fiz meu lar, fiz minhas escolhas, refiz eu mesma. talvez meu avô a quem chorei pouco em seu luto, meu avô paterno que morreu há tanto tempo, minha tia avó que me estimava muito, o irmão morto de minha mãe que não conheci, minha bisavó, que idem, chorei pouco e tive medo quando a vi amarrada na cama do asilo; de forma geral, eu fugi dos mortos e dos prestes a morrer - essa é uma revelação pessoal bastante importante. explica, finalmente, minha culpa mais intensa em relação à Sofia, quando ela estava já tão mal e eu insistia em voltar para São Paulo, e quando atendi tarde demais o telefonema da minha mãe porque resolvi ir ao cinema. fiz e com certeza farei coisas estúpidas como ir ao cinema em tempos dolorosos. quando descobri que Sofia tinha um tumor, e no sábado, fiz uns dreads idiotas. eu não consigo lidar com a dor, e nem ver a morte nos olhos do doente ou do idoso. eu até consigo, mas não quero, me afasto e não quero tocar neles. para me defender perante vossos ouvidos julgadores (aqui está uma reminiscência clara de Orhan Pamuk) eu gosto de lembrar deles alegres e com vida. no fim, coleciono poucos momentos, mas como sempre os revisito espero que tenham se cristalizados na minha memória para nunca mais perdê-los. os fantasmas, os mortos - então - são a passagem da vida, a corrida inexorável do tempo, minha memória falha. quando acho que os vejo, estou vendo como que relâmpagos da minha memória, ou da falta dele. de maneira geral, há tanta coisa para se fazer em vida! visitar todos os países, principalmente os que descrevem nos livros e nos filmes bonitos, conhecer as pessoas ilustres - não as famosas, mas as pessoas que reacenderão o fogo apagado em nosso peito, realizar um sonho, perseguir um objetivo, fazer o jantar e trabalhar com afinco, ser boa para os outros, não exigir tanto deles e saber lidar com a solidão e também manter viva a memória - dos mortos e também dos vivos distantes, e também as lembranças que me constituem para que eu não caia por aí de tão leve que está meu interior. pode-se perceber que viver me enfastia.
talvez por isso eu creia ser infeliz.
os fantasmas, ou alguém que está me observando, poderão também ser meus temores e principalmente meu orgulho, a ânsia de ser alguém para o mundo, de ser imortalizada, de ter alguém que se lembre de mim, que me leia, de ter espectadores a me olhar, de ser amada e amar. vezes sem fim num dia eu me decepciono porque não me amam como eu quero. e tantas vezes mais eu não amo outros como eles querem. quando isso acontece, eu sou birrenta, e choro, e ás vezes grito, e fico pensando: tudo está terminado, eu serei triste e só. dependo muito dos outros, de alguns outros e não quaisquer outros, e sei que preciso só tomar meu prumo, costurar este fio e seguir sozinha como são todas as pessoas.
bem, ás vezes não há sustância.
não é que eu me sinta leve, é o oposto - me sinto pesada e a esse peso devo às pessoas se cansarem de mim. tão pesada quanto uma pedra estagnada. para me mover, tudo parece difícil, trabalhoso, hostil. 
talvez essas sombras que me perseguem, seja minha leveza, meu próprio espírito escondendo-se de mim. 
gostaria de voltar a falar do cair do dia. toda essa história dos fantasmas me surgiu um dia que não tive tempo de escrever e por isso, agora, não sei dizer ao certo o que eu queria. hoje, verdadeiramente, penso que são meus próprios olhos me olhando, como sempre. 
o cair do dia é muito triste e lúgubre e nada consigo fazer, mas é como se eu me resguardasse. minhas energias só ativam pela cor total do céu, ou seu azul ou seu preto. as nuvens cinzas me desanimam e a chuva, quando não é intensa, me irrita. ainda assim, fico feliz ao constatar isso. alguma relação profunda com o tempo, o tempo das coisas e a maneira da natureza, eu guardo. o fim e o começo da luz é o tempo do resguardo. quando animais diurnos se escondem e os notívagos saem, quando as plantas descansam do seu incansável papel de processar a luz do sol. um respiro.
por quê o respiro do mundo provoca em mim melancolia?
talvez seja o contrário, e esteja desalinhada. mas estar desalinhada é a única forma de existência que eu conheço. o crepúsculo vadio provoca em mim a rara vontade de ser eu mesma. de escrever sem ser para os outros, de fumar três cigarros em meia hora. de não me observar atentamente. 
meu medo, no final de tudo, é realizar tudo e não ser feliz. eu não sei porquê direito, racionalmente nem acredito em felicidade. mas estar em constante desacordo e não conseguir fazer o que eu deveria, o que eu deveria? pensar na minha morte é cada vez mais angustiante - talvez essas sombras seja ela mesma me espreitando, então - o fato de que estou me aproximando lentamente do dia que expirarei. quando era mais nova, gostava de imaginar a forma que eu morreria, quando eu comecei a fumar fazia piadas sobre morrer cedo - ainda faço, mas logo depois sinto um peso dentro de mim. quanto mais os anos passam, mais próxima ela está, e mais difícil é falar dela com aquela leveza. porque falar da morte é falar da vida, e a vida, muitas vezes, não é um campo aberto da imensas e coloridas oportunidades, mas uma trilha cada vez mais fechada, restrita. ainda me resta o alto para olhar e lá em cima, um céu. o céu é o último refúgio dos sonhadores, das pessoas insatisfeitas e infelizes, dos loucos e dos mendigos, porque não há limites nele. eu gostaria de morar no céu, onde tudo se abre em infinitas dobras de tempo e espaço, onde tudo é distante e as preocupações se dissipam feito fumaça. 
mas no céu não poderia realizar. e meu egoísmo, meu orgulho, meu ego - meus diabinhos - dançam embaixo dos meus pés pedindo atenção.
tive vontade de terminar com Deus me ajude. mas eu não acredito em Deus. 



maio 13, 2018

não adianta

não sou. não sou mais. a existência que te faz acordar, que te coloca no prumo. não preciso. você me olha, agora, desconfiado ou seria porquê tomou uma distância segura o suficiente para me olhar? para me olhar de fora. por não estar encostado às minhas entranhas, por não estar respirando junto das minhas costelas. eu vejo como você me olha. sóbrio. outrora eu achava que não tinha brilho para você, mas agora sim, agora eu sei. vocês falam demais quando amam demais. ao revés do que manda meu sol, meu dourado escorpião entalado na garganta, não amo intensamente. 
mas perdura.
quando eu digo que busco, busco tanto, as tais conexões - o que é conexão para você? perguntou minha terapeuta. na hora não soube responder. é me fazer entender e entender o outro. não sou boa com as palavras.
oralmente
(alguma confiança na minha escrita tem de restar - pode ser que eu me transforme na loba solitária que eu sempre temi ser, mas, ainda assim, poderia falar pelos bilhetes Olá Senhor Porteiro, o Senhor poderia receber esta entrega para mim? Ela é demasiado especial, por favor, me deixe saber quando chegar, estou ansiosa Oi amiga, sinto tanto sua falta, lembra-se quando a gente tomava banhos juntas? não, eu não tinha tesão em você, mas acho triste ter que parar de tomar banho juntas só porque crescemos, saudades, Mari.) 
é me fazer entender. e entender o outro - eu disse. e aí tentei me explicar: é conversar, cozinhar juntos, ter um momento. não. ela me disse: são coisas simples que você deseja, então. será? ou eu não me expressei direito. é não ter olhos de ave rapina sob mim, é olhar você com olhos esbugalhados de peixe ou planta, é florescer no silêncio depois de cada ponto final, é rir na mesma sinergia. é estar absorta num único universo, desmanchar as rígidas linhas da sociabilidade, encontrar. 
não é tão simples assim, Amanda.
eu precisaria, primeiro, me esforçar. voltar ao estado infantil, ingênuo, crente, ouvir as palavras de um velho como se fossem as suas primeiras. oferecer. meu corpo, meu ouvir, minha casa. abrir. entregar. 
e vê-lo desabrochar. que também me olhasse sem intermediar, e. que eu não fosse julgada, não por obrigação, mas pela consonância do entorno. tudo está em equílibrio. soltar. 
sentir amor.
como se sente o amor? como ele ae âmago? não é esse engasgar na garganta, ou essa tensão, nem mesmo essa condescendência. existe? é possível? sentir o amor.
sinto-me distante disso, com você. mijando, eu pensei: estou sozinha.
é um alívio, também.
mas me dá medo.

como se tivesse sido deixada num campo aberto. existe, claro, o campo aberto e tudo que ele oferece: o horizonte, o espaço. finalmente, o espaço.
não existe você. seu colo, sua sombra, seu hálito, a proximidade.
talvez eu tenha entendido agora o que quero dizer com conexão. intimidade, talvez, o que as pessoas chamam por. sentir-se íntimo. o que é? sentir-se próximo, seguro, confortável, escarrar-se dentro do corpo do outro.
eu não escolhi abandoná-la. a intimidade. ou escolhi minuciosamente, secretamente de mim mesma, jogando sem consciência. vocês também escolheram. se afastar, me olhar à distância. 
não se apaixonar por mim.
não adianta nem me abandonar, porque mistérios sempre há de pintar por aí, pessoas até muito mais vão me amar, até muito mais que difíceis que eu pra você, que eu que dois que dez que dez milhões, todos iguais. até que nem tanto esotérico assim, se eu algo incompreensível, meu deus é mais. mistério há sempre de pintar por aí. não adianta nem me abandonar, nem tão ficar tão apaixonada que nada, que não sabe nada, que morre afogada por mim.
escrevi esta música agora, ouvindo-a. é um bom exercício, como se eu pudesse de fato gravar as palavras na minha mente de uma vez por todas.
eu te amo.
nana.
eu, sobretudo, não quero esquecer. mas ando me esquecendo. deliberadamente, esquecendo. dói demais lembrar de tudo.
tudo bem. você pode ir. e não que eu precisasse te permitir alguma coisa, mas de alguma forma, você espera isso.
você espera que eu ofereça a minha permissão. não sei se é para ter paz, aplacar a culpa, ou poder me amar, talvez mais ou melhor, de alguma forma madura. pouco apaixonada. e eu digo: sim, não deixarei de te amar, mas pode ir.
eu ficarei bem, sozinha, embora meu peito doa, pequeno, apertado. não tenho escolha, também. 
é isso que vocês me oferecem.
é isso que eu cavei, é o que eu busquei.
também eu não aguento carregar vocês nos ombros. preciso viver.
o vento chama.



janeiro 04, 2018

praça dom josé gaspar

no banco, o namorado alisa a ponta do cigarro de maconha e na outra mão acende continuamente a chama de um isqueiro transparente, a chama explode e apaga, sua namorada repentina larga-se em cima dele de forma tão lânguida que se faz mais melancólica que romântica. à vista, quatro jovens estão sentados, uma dupla de frente para outra, um come da marmitex de alumínio; uma dupla joga baralho, pela compenetração e pelo gesto displicente mas inseguro de descarte das cartas o jogo é buraco, um deles que segura a carta tem os cabelos longos crespos presos num rabo de cavalo e é maior e mais claro que os outros três; é uma cena admirável; atrás deles uma barraca de camping se ergue, lá vive um casal ou até mais gente, o cachorro deles late, carregam seus celulares puxando energia do poste de luz próximo, o quadro suave quase se desvanece com a aparição repentina da cavalaria da polícia militar, embora nem tanto. são três cavalos que levam seus cavaleiros de coletes amarelo fluorescente e farda, eles trotam calmamente por entre os meios da praça; nenhuma tragédia prevista desmorona: o namorado alisa ou guarda a maconha; os jogadores continuam silenciosos; o fio entre o poste e a barraca não é cortado. o som do latido do cachorro é interrompido pelo eco dos dezesseis cascos batendo no chão: por um minuto, nenhum ônibus atravessa a av. são luís e tudo que se ouve são os cascos no trote, como se este tempo fosse atravessado por um outro, aquele das carruagens e dos cavalos, dos homens bem vestidos, dos namoros nos salões ou flertes ali perto, no theatro municipal, das casas dos jogos onde o mesmo buraco, com as mesmas regras e a mesma compenetração, era jogado. os cavalos atravessam a praça, um é castanho escuro, do tipo comum, outro branco e da bunda gorda, dum branco sujo de poeira da cidade tornando-o quase acizentado, e o terceiro, castanho claro, tem as pernas anormalmente longas e torneadas, é magro e forte, e seu cavaleiro policial em consequência situa-se mais alto que os demais. o terceiro cavalo embora de primeira vista imponente era um tanto desengonçado, suas compridas pernas não harmonizavam com o corpo robusto de um cavalo e o rosto, imagino, também seria mais alongado que o normal, o nariz bem longe do rabo e o dorso bem longe dos cascos, a cada trote, o cavalo, bicho destinado a correria e guerra, tinha de pensar onde é que iam suas pernas, como é que gingava o corpo; mas tal característica, nem de longe, fazia-o de menor auto estima, pois olhando de cima para seu colega branco e gordo, ria satisfeito e seguia esguio. mais adiante outra barraca de camping e três homens deitados próximos riem divertindo-se, inúmeras pessoas usam o celular, um vento refresca o sol ardido do verão, as árvores chiam encostando-se com suas folhas verdes umas nas outras. na av. são luís, depois do Rembrandt, depois da portaria do Louvre (visitantes, favor identificar-se), passando por um gay vestido à moda (camiseta rosa e meias pretas até a canela), por uma mulher tanto escura quanto alta e masculina feito um segurança, com a mão no bolso da calça e um andar firme e em nada feminino (seja pela graça ou por seu caráter eminentemente vacilante), por três jovens vestidos à moda (piercing no septo, colar grande, black power) cantando parabéns pra você, um morador de rua esconde-se debaixo de um cobertor vermelho vivo. ao seu redor, quatro ou cinco pombas beslicam-o, sem ele sentir, ou comem dos restos do seu salgadinho aberto: nenhuma parte do homem ou da mulher está a vista, alguns moradores de rua, quando se escondem debaixo de seus cobertores encolhem de tal maneira que não podemos adivinhar gênero ou idade, nem se estão vivos ou mortos, se conseguem dormir estufados por um cobertor ou se estão demasiados doentes e por isso precisam do calor, se respiram. não sabemos sequer se não há ninguém ali embaixo, e o que é tal volume uniforme e se ele sente ou não as pombas que ciscam em cima e dos lados dele; o segurança da ótica da frente olha para o volume, não de maneira fixa e obstinada, mas com olhos tristes ou cheios de dúvida (pois o tom que os olhos assumem, se estamos tristes ou duvidosos, é muito parecido) que vão e voltam, tentando desgrudar do volume vermelho vinho da calçada mas sempre a ele retornando, como que também esperando que dali surja o ser vivo ou que ao menos alguém declare: morreu! sua gravata vermelha, parte do uniforme de segurança, voa com o vento. ele desvia os olhos do chão e olha nos meus disfarçando a ruga entre os olhos, recompondo o antigo olhar carregado de emoção para um neutro, imoral, sem julgamentos. talvez não estivesse a pensar no volume vinho, talvez estivesse a repassar em sua memória alguma dor, talvez estivesse tentando domar um pensamento obsessivo que teme tomar-lhe o corpo todo e o olhar de uma estranha desviasse-o de qualquer solução ou enigma, como quando cavamos um buraco demasiado fundo e a única forma de continuar é continuar cavando-o, pois já não temos meio de cobri-lo, e a resposta fosse o escuro e úmido do seu fundo, embora quando chegamos a esse ponto, seja esse sempre um fundo falso, sabemos que é possível cavar o buraco até o nunca, até as extremidades da terra, e o escuro não será suficiente, tendo que nos contentar, sem delongas, com aquele mistério, com aquela rachadura para todo o sempre. e ele voltou a superfície e me encarou com olhos nada suplíces, nada doces, nada rancorosos, nada indagativos, nada.