termino verão no aquário de lygia agora. nos últimos capítulos, ela narra alguém que sofre a morte de outro. durante todo o livro, a morte assombrava longíqua; mas o exercício de narrar um luto recém passado, eu não lia faz tempo. o calor do momento, a véspera, como diz. não a memória, o fantasma. isso eu não fiz. ainda.
um dia quis contar a vida inteira de sofia e parei em determinado ponto. talvez tenha percebido que é impossível resgatar toda a sua história - ou todos os detalhes da minha memória antes que ela se perca completamente. eu quis também perguntar a quem tinha acontecido e montar um retrato, um mosaico, um livro - só para estar entre nós. algum tipo de alento.
não chorei com este livro. a noite caiu feito narrado no livro, a gata preta fica do meu lado na esperança de carinho. eu sei que ela me ama. eu mais uma vez não sei lidar com seu amor. com o amor de ninguém. mas agora estou tranquila, eu sei que posso amá-la em sua medida. não é preciso se desesperar.
minhas plantas estão bem, mas todas verdes, verdes demais. não consigo cultivar flores. a roseira que era a esperança da primaveira fez cair as folhas. um botão amarelo nasce do camarão. é preciso cuidar para que ele resista.
tentarei contar essa história sem muito drama e fugir da narrativa de culpa que criei para mim mesma. há anos, essa memória da culpa persiste e me desgasta. mas eu não preciso dela. sofia não precisa dela.
no seu último mês, sofia estava bem magra, frágil e perdia as funções cerebrais pouco a pouco, falava enrolada e um dos olhos fechava, tomado pelo tumor. neste mês, eu chorei deitada no travesseiro, rezei desesperada, mas só dormia sonhando com cemitérios. só dormia pensando no seu enterro. no limite do sonho e da lucidez, o sonho parecia ou premonição ou desejo perverso. o cemitério vinha-me primeiro em negativo: como quando choramos demais, os olhos criam aqueles feixes e bolas redondas de luz que ficam piscando. e o cemitério vinha assim, como negativo.
inesperadamente, era a única imagem que me fazia descansar. que me dava paz.
eu tentei afastá-la, pois achei que pensar assim era como pedir por sua morte. era como se eu tivesse desistido, antes dela, como se eu não fosse capaz de olhar o seu sofrimento. mas quem sofria era ela! ainda penso um pouco assim, em como fui egoísta.
mas meu corpo preparou-se um mês para sua morte. disso, eu tenho certeza. não foi menos duro quando recebi a notícia de sua morte.
a notícia é a narrativa a qual me acostumei: no domingo, vi ela nua, magrinha, os ossos aparecendo, nana me dá banho. eu já não aguentava olhar sem os olhos querer chorar. na segunda fui pra são paulo. fui à aula de manhã e a à tarde, no cinema com uma amiga. durante todo o cinema, o celular desligado. no ônibus de volta, liguei e me deram a notícia. sofia morreu enquanto eu estava no cinema. peguei um fretado para campinas onze da noite, opção mais rápida. cheguei e já tinha passado horas de sua morte.
eu não vi sua última luz, sua última calma. eu não falei com ela. por anos, me torturei com isso. mas como foi receber sua dor?
eu chorei muito no ônibus. chorei de culpa e rezei. chorei e disse a mim mesma que eu já sabia, mas a dor dilacerava no peito. no fretado, os universitários iam rindo e vivendo sua vida, jogando baralho. eu juro, a vida continuava estúpida enquanto eu me acabava, chorava alto e queria matar eles. eu queria que eles ficassem em silêncio. por um momento. nada. tive raros momentos de silêncio desde que sua morte chegou como um terremoto. como um terremoto em terras instáveis. as pálpebras inchadas, as lágrimas ressecadas no rosto. como quando secam e deixam aquele rastro no rosto inchado. eu chorei todo o mar que se chora sozinha, sem ninguém a me confortar. quando cheguei em campinas, já estava quase seca, cansada. minha mãe, eu não sei. eu não sei quem confortou ela, mas não fui eu. nem eu, ela. o júnior eu não sei. minha família inteira, eu não sei. tudo era silêncio. quando foram me buscar era silêncio no carro. a sensação de querer apenas rodar, rodar em silêncio que raíza fala, é isso. talvez seja isso. o apartamento que morávamos tava cheio de gente. não tinha muito espaço para luto. a família inteira do júnior, cumprimentei, todos daquele jeito. não me lembro como foi abraçar minha mãe. minha mãe, mãe dela. até hoje não sei como ela sofreu. por isso quando se diz com dor, eu mal me importo. ela tinha de arrumar tudo para os parentes, onde dormir, o que comer. e aquela dor no rosto do rastro das lágrimas como um rio intermitente. eu dormi no chão, num colchão num chão. acho que me lembro dela arrumando, dela me dando um beijo de boa noite. ninguém parecia saber consolar ninguém. todo mundo precisava de conforto e não havia ninguém a dar. minha mãe, tinha ainda que arrumar tudo, as provisões. ela estava calma. ela sempre esteve calma, de certo modo. nunca a vi se desesperar, não me lembro. talvez por isso parece que passou ilesa. não. passou dolorida e calada tendo que cuidar do marido cheio de drama. meu crédito não foi perturbá-la. foi tentar cuidar da minha tristeza sozinha. e o dela? quem cuidou de você, mãe? talvez por isso se fez tão triste na morte de meu avô. porque finalmente não tinha que cuidar de ninguém. podia se charfudar na tristeza. falar da morte do outro é acabar falar de um vivo. mas falar de um vivo é tocar na sua morte. se falo coisas clichês, não me importo. dormi no chão e devo ter chorado mais. mas lembro-me de ter dormido. como uma pedra. e que o dia seguinte, tomávamos café da manhã, todas aquelas pessoas, tentando descontrair. as coisas ainda tinham o cheiro dela. o cheiro dela eu senti durante muito tempo depois. associava-o como a um leite. ora doce, ora azedo. ela cheirava a leite, embora tivesse quatro anos. muitos anos depois, andando na rua, eu sentia aquele cheiro. as coisas rosas dela. os gorrinhos e chapéus, os brinquedos rosas. fiquei com a tartaruga, guardei a lagosta. a lola, os pequenos bonecos da lola. aquele bebê laranja que fala. sofia, sofia. quais eram seus brinquedos favoritos? quase todos, eu acho. de uns cinco ou seis, todos, eu acho. aquele elefante grande, não era? a cortina verde do quarto da antiga casa, esvoaçante, meio transparente. o berço branco com a cômoda branca quando você era bebê. o caixão branco. na porta um artesanato desses de bebê escrito sofia. sofia, sofia. como era seu sorriso? assim tortinho com os dentes separados. não era. bem alto. e os olhos azuis bem céu. bem alto. os brinquedinhos miúdos, você gostava. aquele de madeira de construir casa. massinha. as bolas. as bolas grandes, não as pequenas. aquela cortina verde, por quê me lembro tão bem. a cama no meu quarto que dormia. as duas chupetas. as duas chupetas, uma na boca outra no nariz. eu não me lembro direito como reagi a sua morte. será que isso importa? estou perdoada? acho que estava anestesiada. sofia. todos foram embora de casa e no enterro foi tão pouca gente. não era enterro, cremação. era lá em são bernardo. isso eu me lembro. o carro andando lento. sofia, amava palavra encantada, xuxa. o carro na estrada e todo muito quieto. e ninguém sabia o que falar. como é que o corpo foi para lá? eu não sei, eu não sei. era um cemitério simples, desses com gramado e cruz com flores no chão. nenhum túmulo, nada, só isso. muitas flores. o céu estava azul, a grama verde, as flores de todas as cores. a sala era pequena, e no meio, o caixão branco. como só fui perceber agora como se pareciam o berço e o caixão? que horror à madeira branca. que horror, sofia. o caixãozinho, como eu tinha lido algumas vezes. e você lá dentro. de olhos fechados, pálida. e você lá dentro, a carequinha proeminente, sem o azul dos seus olhos. e a roupinha, talvez rosa, um vestido. então eu senti mais uma vez a dor. dessa eu me lembro. aguda, atravessando o peito. porque fazia alguns dias que eu não te olhava. e antes disso tinha te visto viva, nua, indo tomar banho. e agora estava ali, vestida, maquiada talvez? e fria. fria demais. toquei na sua mãozinha. eu amava tanto sua mãozinha. eu segurava sua mãozinha na hora de dormir porque pensava: eu não quero esquecer nunca como é a sua mão. eu já pensava nisso. era inevitável, eu pensava o tempo todo. um pensamento me escapava e eu não sabia controlar. a gente dormia de conchinha, você dentro de mim, com suas duas pepetas. pepetas, agora sim, me lembrei como você chamava. veio tão claro, agora. e da mãozinha, eu queria reter o calor e lembrar como eram: finas, alongadas, as unhas diferentes da minha, porque eram mais angulares, mais estreitas. e a mão parecida com a da minha mãe. sim, eu segurava e olhava pra elas e as unhas transparentes com as pelinhas soltando ao lado, e pensava: são como as mãos de minha mãe. porque minhas mãos são de meu pai. gordinhas atarracadas unhas curtas e fracas dedos pequenos. e você tinha a mão dela! a mão dela como uma criança. como segurar a mão de sua mãe criança. e ver essa mão se despedir desse calor. lembro-me da fachada do boldrini agora, com os brinquedos de animais na frente, o céu azul, o calor de campinas, as nuvens rondando brancas. toda vez que lembro de sua mão, essa imagem também vem junto. agora, sinto quase o cheiro do leite. há tanto tempo, sofia. eu ás vezes não sei me aproximar da mãe, sofi. ás vezes acho que essa história que de certa forma a gente viveu juntas, sem nunca comentar direito, uniu e distanciou a gente de um jeito sei lá. como se estivéssemos dentro demais para nos ver direito e por isso longe. entende? como num útero. é isso que penso agora. como num útero. nunca tinha me atentado que morei no mesmo lugar que você, no quente e úmido útero da mãe. e que era um bom lugar para se viver. eu não me lembro, é claro, nem você, mas me parece agora como é confortável, como exala um calor que eu gosto tanto. o calor dos edredons. os filhos da minha mãe amam uns edredons, se quer saber. mas é mentira, minha mãe me disse um dia, faz pouco tempo. e eu não consegui sequer reagir. eu fico dizendo que amadureci e sou adulta, mas não sei dizer essas coisas ainda. não sei ser sincera e limpa como ela. ela disse, estava lembrando de como você me ajudou com a sofia. estava me lembrando de como você me ajudou com o gabriel. obrigada mari. eu fico feliz que tenha ajudado, mãe, porque ás vezes acho que fiz tão pouco. pronto! eu quis escrever sobre a vésperas de uma morte e tô aqui destrinchando a relação com a minha mãe, igual no livro. mas ela é viva. é preciso dizer algo dos vivos. ela testemunhou tudo isso. eu não sei o quanto ela tocou sofia, quando ela morreu. quanto ela conseguiu abraçar um corpo que vai se esvaziando de vida. quando eu toquei, a vida toda tinha escapulido. ás vezes me assombrava esse negócio de cremar, porque vai que a pessoa ainda tá viva. mas era tão fria, e não qualquer frio. fria mesmo, fria de um jeito que eu nunca tinha sentido antes, fria como pele de cobra de lagartixa. as unhas transparentes cruzadas. eu chorei muito, sofia, porque você finalmente se foi. porque sua mão não era aquela, quente, e meio enrolada em concha quando eu pegava no seu sono. você não estava dormindo, a morte não é sono nenhum. porque seu sono era cheio dessas coisas que são vida. a mão em concha os dedos relaxados. sabem? eu chorei e a dor era muita. e depois, minha mãe me deu para ler um livrinho, onde contava a história de um passarinho que voava. não houve pregação, nem nada pesado, nem rendenção católica, e tocava palavra - fugiu me o nome da banda. eu não lembro como era o poema, mas era algo de um passarinho. passarinho, como gabs ama. por quê será que a reinventamos passarinho? como quando jogamos suas cinzas no mar e uma gaivota nos acompanhou e minha mãe e junior disseram, é sofia... eu também acreditei que era ela, naquele momento. eu precisava, porque doía, doía. a cinza voando manchando o mar azul esverdeado. seu olho, sofia. precisamente tudo isso. e seu olho. eu cheguei a desconfiar daquela cor desde que você nasceu: porque era poético demais, sofia. é céu, é mar. que ódio. e azul eu digo que amo. sinto obsessão pela cor. eu mal percebo, mas. também não tem que se justificar tudo pela psicologia, mas, quando colocada assim em linha. passarinho, então. porque voam? e agora veio-me a lembrança de que desenvolvi esse terrível medo de altura. como se eu fosse morrer. será que não sei morrer, sofia? quero dizer, não saberia criar asas, que nem você? que criei horror à morte, sofia? o poema do passarinho e a música infantil não diminuíram a dor. quando o caixãozinho branco subiu meu coração pulou da boca. que desespero. eu me lembro exatamente: que desespero. que vontade de pedir que descessem de novo, que deixassem aqui, que não levassem, que eu ficasse abraçada com ela, que ela poderia estar viva, que iam cremar ela viva, como sabiam, não tinham casos? por favor. eu nunca mais quis ver isso, e vi o do meu avô e de novo senti desespero. que coisa idiota o caixão subir!!!! que coisa mais imbecil do mundo. deixa lá e a gente vai saindo, não adianta? não adianta? eu não me lembro como foi voltar. mas deve ter sido lento, silencioso, cheio de dor. eu não me lembro como foi viver depois. lembro-me que viajamos e a vida retomava seu curso interrompido por acesso de fúria e choro do junior. nós rimos bastante naquela viagem. mas era pra ter sido feita com ela. e não em sua homenagem. durante toda ela, a urna nos acompanhou. eu nem sabia, mas nos acompanhou porque só no final a gente soltou ela, junto com as sempre-viva. as sempre viva, quando encontrar umas vou comrpar. guardei umas florezinhas dentro de um colar com um saquinho que enfiei na minha cabeça que não ia tirar do pescoço para me lembrar para sempre, como um livro a moda antiga, sim, óbvio, eu mal aguento usar colar um dia. então eu fiz a tatuagem. eu escolhi seu desenho e fiz e fiz também porque eu amava seu traço, viu? eu amava que as pessoas eram assim sempre tão gordinhas. tão parecidas comigo, diferentes de você. e as pessoas acham que é um fantasminha. ai sofia, não. era só o jeito que você desenhava viu? nada de premonição sinistra, coisa idiota, tá? eu me lembro como desenhou uma vez essas pessoas de preto e vermelho e pintou bem forte. eu tive medo do seu desenho sofia. porque entendi por ele que você sofria. sofria de não levar uma vida normal. uma vida de criança normal. eu peço desculpas por isso, mesmo que não seja minha culpa, tudo bem? eu espero que sua estadia aqui tenha sido boa. que a companhia tenha sido boa. que se lembre de mim com carinho. é tão difícil não virar espírita quando a gente tá nesses momentos. já já eu viro a cínica racional. não importa. qualquer coisa pra confortar. a dor que me aflinge se esplaha por toda a caixa toráxica, como se envolvesse meu coração e os ossos que o protegem, e assim apertando-se tudo, como se os ossos fossem esmagar o coração, é uma dor funda, do centro do peito e também dos lados, sufocante. essa dor que eu sinto agora eu senti tantas vezes tão pior, sofia. é como se me apertasse tanto que o ar tem de se comprimir para passar e o pescoço fica teso e o ar não vem e o coração dói dói mesmo. apertando-o até que não sobre nada, nadinha de mim. mas eu tenho um corpo fora de mim e uma tatuagem do meu lado esquerdo e a dor vai se diluindo pras outras partes, vai se dissolvendo pelas células. é a única forma de viver, sofia, espalhar. a gata pula bem aqui agora. nem tudo é coincidência e poesia e eu sou uma tutora um pouco má e distraída. mas arrumo esses novos problemas pra esquecer da memória antiga e dolorosa. da minha culpa. e de tudo mais.
foi dia primeiro de junho, e não era calor como no livro. era frio. mas não me lembro de sentir frio. e depois quando viajamos era nordeste e era sempre calor. mas o céu estava claro e azul como é o céu de inverno.
outubro 17, 2018
outubro 15, 2018
antes que a vida se torne ordinaria
antes que a vida se torne ordinária demais.
o lugar é seco como uma cidade de um filme de faroeste. as casas são baixas e tudo é baixo para encontrar lá longe a cordilheira e mais próximo, vigilante, o vulcão. tudo é pó e poeira e fica-se com a roupa toda suja em dois minutos. amanhece frio e lá pelo meio dia o calor é insuportável e lá pelas seis bate o vento frio novamente. o céu anoitece já estrelado e o frio dá as caras.
primeiro, vimos o céu num lugar sem luz. a van que nos levava ia titubeando no chão ruim, do lado passava o mato e casas no meio do mato, quem vive aqui? sem a luz do poste duas ou três manchas da via láctea nos sorriem tímidas. as estrelas continuam altas, pequenas, mas brilham sem lua.
levadas de manhã por entre montes de pedras, lava embrutecida de vulcão e uma vegetação rasteira verde amarelada. tudo é marrom, amarelo, verde. num morro, guanacos comem da planta, tem o corpo marrom e a cara preta. o vento zune nos ouvidos. a todo o momento, o vento zunia, ora grosso nos ouvido, ora assobiando. nas pedras, os desenhos dos antigos povos atacamenhos. lhamas, pumas, e um macaco, um macaco-deus com riscos do lado. lhamas grávidas de lhaminhas dentro e etc. a rica rica cresce do solo, suculentas gordinhas de galhos duros e espinhosos. a montanha de pedra de lava se ergue em verde, branco de sal, marrom e um leve roxo do cobalto. trouxe uma pedra verde e uma da lua, como um cristal. os picos pontudos apontam pro céu sempre azul demais, sem nuvens. as encostas são cheias das pedras que vão se juntando umas às outras.
a cidade continua baixa e empoeirada.
na madrugada, a van nos busca. uma lua minguante bem sobre o horizonte, clara no horizonte donde nasce uma luz fraca e opaca, as estrelas ainda sorriem de luz branca. os contornos das montanhas são riscos duros no céu escuro. adormeço.
das entranhas da terra, saem as fumarolas brancas, e de algumas um jato intenso com água fervendo. os geiseres vem ao amanhecer frio e se despedem no calor do dia. no campo das fumaças, uma construção abandonada, um projeto de retirar energia daquilo. dentro do solo correm os rios de lava, fervendo. a água bule dentro da terra, mostra o magma demoníaco e com cheiro de enxofre de que é feita. um lago de águas termais - dizem - um lago de águas quentes e sulforosas saindo da terra onde os gringos se banham felizes até demais. não nos banhamos. o frio continuava cruel às nove. na volta, um vado, um pântano. as águas baixas por entre os pedaços de verde musgo donde os patos andinos, os gansos andinos e não mais que tipo de pássaro mergulham a cabeça na água e comem não sei o quê. o pássaro andino de olhos assustados e cara preta como um pinguim, o corpo branco. os patos de bico azul e os cines todo em negro elegantes se coçam. do lado do pântano, as cordilheiras em neve e as secas, o vulcão a assobiar. num pueblo de resistência ou turismo, as antigas casas de pedra e as novas, as casas baixas, a carne de lhama no espeto.
no sol quente, as lagunas escondidas continua fazendo frio por aqui tudo é planície. o vento não se escora em nada, o deserto é seco e nem a vegetação amarelada existe, só pedra. perto das lagunas o sal vai aparecendo. onde tudo uma vez houve mar, agora há crostas de sal em pedra que rasgam a pele. as lagoas não se vêem de longe, tem de chegar perto, andando pelo caminho do sal. são de um azul claro cristalino. a primeira azul escuro e as outras azuis tão claro quanto uma piscina. se abrem como buracos eternos no chão da onde a água vem do fundo, misturada com sal. mais sal que água. entramos no frio e no vento da lagoa de sal, para boiar. cheio de brasileiros falando e gente com medo, inclusive a gente. demorei para parar de boiar propositadamente, é difícil confiar no sal. daí quando deitei a cabeça na água vi aquele céu azul rachado de nuvenzinhas rarefeitas brancas e as pontas das cordilheiras lá longe e já era hora de sair. minha cara tava toda branca. a água evapora e sobra tiras de sal grosso por toda a pele.
perdemos o óculos da dira e aparada num mirante de umas nuvens cor de chumbo se avolumando no céu não foi boa. tudo estava seco e estranho, sem vida.
cedo nos levantamos para encarar com temor 4 dias de uyuni. a fronteira do chile com a bolívia é só quarenta minutos chegando perto do vulcão que antes só vigiava. consegui não dormir até ver ele de perto, as nuvens rondando o gigante, a terra escura se encurvando para o alto sem pico, uma cratera. quando acordei, havia neve na fronteira. tudo estava branco e demasiadamente frio. nunca tínhamos visto neve, mas o frio era muito para ir lá fora. a fronteira não é nada, um pedaço de terra extenso entre o vulcão e o nada aberto da bolívia. o chile tem suas cordilheiras dos lados, mas na bolívia tudo é mais extenso, um horizonte de terra. dois latões de lixo esmaltados de azul e amarelo, o pássaro de cara preta que chamamos de chuu ali esvoaçando e pousando, as 4x4 esperando os turistas com as mochilas coloridas. seguimos com maxx o guia boliviano de pele queimada de sol, dente de ouro e boné de lado.
primeiro a lagoa branca, enorme. ao seu lado as montanhas refletem-se. branca porque rasa e cheia de sal. um depósito de água leitosa no centro da terra, entre os morros. sem nenhum animal, apenas água terra e mineral. sem nada que perturba um infinita paz que é feita de violência.
depois, a lagoa verde, mais escura.
e finalmente os geiseres de la manãna, na cratera de um vulcão ativado. as fumaças brancas saíam de sulcos fundos da terra daonde um água espessa, ora vermelha como lava, ora amarela boiavam. a terra dentro destes buracos fica toda enrodilhada, como pequenos círculos, como uma pele queimada. a terra vai sendo queimada pela brutalidade da água quente. o cheiro de enxofre é um insulto, as fumaças nos atravessam e a terra parece ora oca ora firme. de dentro da terra sopram os vapores solenes. como uma música que precisa ser cantada.
nas águas termais da bolívia entramos, quente, dando a vista a um pântano com aquele mesmo musgo amarelado e uns flamingos longíquos.
na laguna colorada, dezessete mil quilômetros quadrados de uma lagoa ora transparente como a água deve ser ora vermelha. roja. milhares de flamingos rosas se alimentam dos crustáceos que comem bactérias cheias de betocaroteno e logo se vê os flamingos que mais comem mais rosas, quase vermelhos e outros com manchas ainda incipientes no manto branco. os flamingos tem as pernas finas e dobram para trás, ficam em grupo, como se conversassem, mas apenas enfiam os bicos na terra, se coçam ou dormem em pé. milhares de flamingos. na água transparente sua penugem branca e rosa se reflete e os flamingos se duplicam sem fronteiras, tornando-se quase uma miragem, um bicho que não é ele mesmo. uma imagem. eles não se importam se são tal imagem tão devastadora de se olhar. em que a beleza foge aos olhos e estes tentam se dar conta de tudo que jamais virão isso novamente, ao menos que voltem. mas tem-se a impressão que é único e vai terminar, ainda que estejam ali há milhares de anos milhares se alimentando. terminará para nós.
na estrada a paisagem não é menos exuberante, pedras, e o verde amarelo, e as montanhas, que se abrem nu solavanco mostrando sua face branca e marrom. a montanha se ajusta ao olhar da perspectiva movendo-se e mudando de forma conforme nosso olhar de automóvel olha. uma sombra escura pode ser de um peixe ou uma cratera, não se sabe. a vicunha toda marrom come da folha amarela verde. nada daquilo é assim se testemunhado por olhos em movimento. a fenomenologia existe mais no deserto do que em qualquer outra parte.
o pueblo villa del mar não dá pro mar. entre um pântano com seus musgos e água rasa donde a lhama bebe e come e uma formação rochosa empilhada para cima, duas ruas de casinhas baixas e simples. o céu é frio e estrelado, bonito se deixado a se olhar. o quarto é grande, mas debaixo de cinco cobertores e um saco de dormir sinto-me sem ar. a altitude faz e o calor forçado no frio falta o ar. as bolivianas que atendem só balançam a cabeça ou nem isso, desviam os olhos, saem rápido antes que possamos decorar suas feições. cholas com suas armações na saia enorme, tranças compridas e bem feitas com pedaços de tecido entre o cabelo, meias grossas de lã laranjas e sandálias mal nos olham. nós é que as olhamos, como se fossem flamingos. elas, também, não se importam em ser olhadas e continuam a viver num mundo onde há apenas lhamas, terra, rocha e campos de quinua. céu estrelado e turistas, de toda parte do mundo, vindo testemunhar a beleza que é rotina. ou a miséria que aos olhos dos outros, é bonita. será miséria sua vida? ou é esse adjetivo que damos comparando ao conforto de nossas vidas? ninguém está imune de despejar coisas estúpidas para cima deles. seja a beleza que é estonteante, a miséria que deixa triste. nada escapa e tudo continua sendo pó.
dira deu um mal jeito e o segundo dia se fez mais triste.
formações rochosas se intercalam: na itália perdida, uma cidade de pedra esculpida pelo mar e pelo vento. lhamas pastam em paz. três lagoas formam uma só refletindo as pedras marrons. são de lava. a pedra é um processo inerte do planeta: se forma, se deforma, ali está. é bonita, mas é bruta. tem de se admirar por sua brutalidade por sua capacidade de nos aguentar escalando-a para ver o horizonte de pedras e montanhas. o ser humano põe os olhos em tudo e quer crê que viu tudo isso a partir deles, quer crê que sentiu a beleza apertar-lhe os bagos, os ânimos, as veias.
o ar que se respira é pouco, mas frio, percorre o corpo. a sede sempre é tanta e a água mal encosta na boca pede mais. os lábios se racham de calor e frio e a pele craquela pouco a pouco.
não sei por quê queria ver tudo isso e agora que escrevo perde ainda mais o sentido. quis sentir conexão com sua namorada, com a terra? quis ver.
pouco a pouco vamos nos aproximando do deserto de sal.
tenho medo de altura e escalei pouco. a nível do chão, porém, considero que vi o que queria ver, patos de bico azul e a água parada refletindo o céu de pedra. as pernas finas e o bico encurvado do flamingo a cara de algodão da lhama assustada a folha grossa amarelada.
quis ver o que eu não vi antes, qualquer coisa que fosse, vida, a vida mais vívida porque próxima da morte. num deserto onde tudo aponta para a morte, animais como a biscate coelhinho canguru se esconde na sombra da pedra vivem. os indígenas viveram e vivem. na montanha vê-se as linhas que são muros de pedra que dividiam as casas dos povos pré incas. os povos viviam em encostas, meio inclinados, bem divididos, donde a água do pântano só lá embaixo e em cima só o sol que tortura. muito longe do mar onde já fora mar. então o ar tem algo de mar: o sal. o vento continua sua sinfonia desde o começo do mundo. das lhamas e alpacas fazem suas roupas quentes e elas mesmas precisam disso tudo. como deus é bom e darwin estava correto, como darwvin é bom e deus não existe, como darwin nunca existiu e deus dorme debaixo da pedra. o planeta é um mistério infindável, do magma vaporoso até o céu escuro de estrelas. quis vir para testemunhar ainda jovem a profunda velhice e soturnice da terra, os rasgos e as rusgas de sua face, seus olhos fechados de noite contrariados. o que é implacável, insólito, instável, que expulsa o homem da terra que continua fincando com suas sandálias de couro e mais de lã tranças negras debulhando no chão. em uma paisagem onde tudo paira eterno e imutável sabe-se deformado e em constante mudança, terra erodida, força da água nas pedras, vento que esculpe, vulcão cospe, tectônicas que fazem tremer e abrem falhas na terra. tudo lento mas visível como se rápido, como se víssemos de outra constelação o acelerar do tempo da terra. tudo visível mas tão sólido quanto uma cordilheira como se não fosse possível pensar que antes ali não havia nada. mas agora ela existe gigante e bruta e arregaça os dentes brancos a todo o momento como que querendo nos engolir como se dissesse que sempre esteve ali e sempre estará. tudo na natureza de um egoísmo pungente, que parece se maravilhar consigo mesmo, assassinando seu rosto em múltiplas lascas que voam para quilômetros distante.
chegamos a um pueblo onde um hostal de sal nos esperava, os tijolos de sal com cimento do lado e o chão de um sal maior que o grosso titurado. dava para frente do deserto longíquo onde não se via nada além do branco. lá longe umas luzes assinalavam uma usina tecnológica de extração de lítio. o lítio da minha pilha que escrevo nesse teclado no meio daquele sal todo e eu nem tchum. reto e infinito, quando a noite caiu em seu manto habitual de estrelas o céu ainda refletia a luz que brotava como magia do horizonte.
acordamos ainda no escuro e subimos uma isla no meio do deserto de sal, um vulcão feito de rochas do fundo do mar, que ainda mostrava os corais enbranquecidos e envelhecidos pelo tempo e pela poeira. cactos de cinco metros grossos cheios de espinhos por toda a parte. o sol nasceu lá do final do horizonte onde o teto branco reto e infinito de alguma maneira parece terminar. e iluminou todo o branco deixando rastro de luz e um céu azul.
no meio do deserto nada se vê. a não ser longe as montanhas refletidas pelo branco arredondando-se onde tudo, aqui, não tem fim. não tem fim o horizonte do sal, como é o mar quando o olhamos da praia, não tem forma as montanhas que se refletem em si mesmas e parecem boiar, miragens. tudo é branco e o sol tudo lava, cegando nossos olhos escondidos por óculos de sol. nos divertimos tirando aquelas fotos.
tudo aqui um dia fora mar e agora o sal em quatro ou oito camadas grossas se sustenta em cima de água. buracos se abrem no sal pela pressão da água e por ela escapa a água com jeito de congelada e os cristais de sal. morte. lembra-se da morte, do que há depois dela, talvez. um nada branco congelado, não leitoso, não confortável. senta-se no sal e fica-se branco e gelado e a pele queima de sol. beija o branco.
formam-se no chão de sal como que octângulos deformados. craquelados, parecendo ceder á água sem nunca ceder, firme e frágil em sua essência.
sexual.
depois disso não havia quase mais nada para ver além de trens velhos, cidades de faroeste, uma simpática boliviana perguntando se gostamos. este é um pueblo muy chico. a linha do trem até antofogasta no meio da poeira.
surreal e selvagem.
julho 30, 2018
os homens inscrevem a política no meu corpo
1. os homens inscrevem a política no meu corpo. foi o que eu pensei quando ele perguntou, pela segunda vez, o que eu achava de tal candidato. houve um tempo em que eu tinha alguma certeza quanto às minhas escolhas políticas, em que eu sabia exatamente de qual espectro pertencia. mas tudo isso foi esfumaçado, e não só em mim. minha falta de certeza coincide com o buraco político no qual o brasil entrou (buraco mesmo, não abismo, talvez vala, mas buraco, coisa que cede na planície da terra, não gruta, coisa que se faz por alguém, talvez, mas não se sabe quem, pelo desgaste, das intempéries e das rodas do carro e o asfalto mal colocado, da terra historicamente porosa, buraco, enfim, é a palavra exata, ainda que pouco poética), e também, com a minha saída da universidade onde minha política se fazia numa assembleia caótica do movimento estudantil, num ato a qual nem mesmo concordava com tudo. sempre temi ser, e mesmo assim, sempre fui a massa, disputada pelos lados, pelos berros, das entidades. minhas formulações, no entanto, eram cheia de dúvidas. falei e fui enfática e tenho a mínima ideia do que defendia. em casa, vivi à sombra das opinões políticas de minha querida tia, de esquerda, e vi minha mãe, que também era, mudar abruptamente de lado, junto de meu padrasto. meu pai, por outro lado, sempre rosnou tudo aquilo que eu sou contra; não exatamente de direita, pois tal formulação pouco importa para ele, mas desumano, sobretudo porque indignado com as tragédias da sua vida - como os bandidos que ameaçam sua segurança, acreditando então em punição e higienização (ou seja, cadeia e morte). há imenso prazer em ser de oposição; tendo este pai, ao menos, eu sempre soube o que era contra - embora, se me perdesse nas contradições da sua fala, não saberia colocá-lo em nenhum estereótipo pronto. me cansei também, do lugar do berro e da indignação, da política juvenil. se me esforço para pensar, diante de perguntas de tais natureza "em quem você vai votar?" e vejo onde é que me enfiei (escuro, mofado, úmido, grotesco, o buraco), penso em construir alguma solução de novo - qualquer coisa que eu possa ter fé. nada. repentinamente, parece-me impossível solucionar qualquer coisa, ou mesmo, formular uma proposta pragmática que, errando, chega-se a algum lugar melhor que este. então penso, tímida, "era melhor você fazer algo, mariana, não precisa querer acreditar na política institucional, mas algo, qualquer coisa. ler uns livros, ir num ato que seja, procurar o conselho do seu bairro." não vou mais nem nos atos que defendem bandeiras que acredito piamente, como a legalização do aborto ou da maconha, não fui nem na marcha das mulheres lésbicas e bis, mesmo sendo uma. escolhi inconscientemente uma vida política estéril, com um estranho formigamento interno que sussurra: há coisas além. a arte, a crítica substancial da vida, o entendimento histórico que prefere fabular do que berrar, estar nos meios, permitir-se permanecer em dúvida.
2. indo à flip comecei a ler um livro de ensaios da virginia wolf, o valor do riso e outros ensaios, em que na apresentação o autor discorre sobre as formas reflexivas, as pausas, o texto cheio de perguntas ao leitor, travessões e pontos e vírgulas, com que virginia escreve seus ensaios. e logo no primeiro parágrafo explana, a partir do ensaio da própria, mulheres e ficção, virginia assim escrevia a fim de reinventar a linguagem escrita dos homens, com suas frases pesadas e pomposas, ou seja construídas em cima da certeza, para uma escrita feminina, uma conversa derramada em papel. em que seus ensaios são produzidos em cima do "indício de que os mundos estão em mutação violenta; de que toda verdade é provisória, pois as possibilidades de ser são infinitas". legal. eu, leitora feminina, projetada nas ânsias de virginia apresentada desse modo, senti-me acolhida feito deitar-se numa cama já quente pelo calor do sol. na própria flip, a homenageada hilda hilst teve um tratamento um pouco semelhante quando se dedicaram a falar de sua política. numa mesa fora da programação principal, falando de seu teatro feio em 68 - o país pegando fogo, então - assinalaram-o completamente político e contra as autoridades, ainda que hermético, difícil, construído por meio das alegorias, rescendendo a becket. fiquei com a impressão de que, embora hilda nos fosse pintada feito louca, corajosa e excêntrica (assim, como virginia também é, autoritária e quase mimada), no campo da linguagem e da política as mulheres escolhem os meios. ficam com as dúvidas, com a amplidão, abrem-se aos horizontes, permitem-se ora dizer uma coisa e depois tropeçar noutra. nas mulheres, admite-se o perambular. mas também, uma vez lendo sobre a vida de walter benjamin me deparei com dois fatos inusitados quanto à sua praxis, o primeiro: a militância lhe fora introduzida por uma namorada, membro do partido comunista, e depois, ele tendo largado essa militância ativa, para poder escrever. há uma lista evidentemente enorme de escritores que saíram da militância partidária ou que não se adaptaram a coletivos políticos ou que foram perseguidos pelos próprios partidos que lutaram para eleger, como lukács, camus, marguerite duras. esta última, na edição da cahiers du cinema dedicada à ela, intitulada os olhos verdes, faz dois textos de aborrecimento com a política, um sobre um colóquio de escritores que tentam escrever uma carta, espécie de manifesto, e outro sobre a impossibilidade de um escritor de se manter fiel à um partido. para duras, quando um escritor milita no partido, ele perde sua liberdade e não pode mais escrever. só o que pode escrever é o que é estrito pelo partido, e como bem sabemos, partidos são pragmáticos o bastante para aparar todas as arestas, travessões, parenteses e reticências. um escritor, para duras, deve ser, primeiramente, livre.
3. sob esse pressuposto, vejo-me embasbacada diante das tentativas das pessoas de desmoralizar ou mesmo de desculpar autores por suas escolhas políticas. desde exemplos amargos como o apoio de borges à pinochet (e borges é um gigante da literatura, descansa no seu firmamento ás vezes acometido por fedores de peido quando alguém relembra essa característica de sua vida) e, evidentemente mais leve mas não tanto menos constrangedor, a recusa de escritoras como hilda ou adélia prado de serem chamadas de feministas. para hilda na flip, ovacionada, retratada através de anedotas feito pinceladas certeiras que compõe um mito sólido e venerável, e, evidentemente, mortíssima e por isso calada diante de novas perguntas ávidas, desculparam-lhe. disseram "há que se entender o contexto, o feminismo dos anos noventa." e depois "hilda é uma escritora sem rótulo, sem caixinha. vocês não conseguirão defini-la, colocá-la numa caixa." já adélia, vivíssima, não foram ainda capaz de perdoar o inimaginável crime de não se considerar feminista. a necessidade do perdão que as pessoas tem para com estes "velhos", nascidos em outras gerações, coloca a nós, leitores contemporâneos, sabedores da terra e do céu das opressões, superiores aos escritores. deixe o escritores e sua arte, parecem dizer. são bonitas e grandes, as coisas que escrevem. colocando-os feito deuses no olimpo, acabamos por perdoar suas fraquezas ou maldades, justificando-as, num processo engraçado de concomitante sensação de superioridade e inferioridade. é impossível olhar nos olhos de um poeta e ver um igual ou nos é impossível admitir que as fraquezas deles são aquelas a quais estamos também vulneráveis, sempre a um passo curto de encontrar dentro de nós, o mal? para que lemos, então?
4. bem, a cama quente pelo sol da forma reflexiva e cheia de dúvidas que virginia escreve a qual me deitei, já não me parece tão gostosa assim. por que é que sempre dizem coisas do tipo das mulheres; mesmo das mais porretas; se os homens, quase todos eles, tem uma conduta de vida semelhante à elas? será a linguagem usada por um e outro? por que é será que eu mal consigo exprimir um pensamento se não for em forma de pergunta, como esse parágrafo inteiro? e, no entanto, esta é a única posição que me cabe, porque sim, virginia, não há verdades, ou se há, elas mudam velozmente, e temos sempre de nos mover para captar seus anseios - seus olhos, de relance, que seja - e sim, duras, não é possível imaginar mundos, se enlamear da sujeira e da beleza deles, se estivermos ligadas a um mundo tão correto e quadrado quanto o político.
5. mas os homens inscreveram a política no meu corpo. como sempre fui predisposta a ouvir e conversar, a ponderar, como nunca demonstrei que estivesse aferrada à alguma posição política (a não ser aquela enorme guarda-chuva a qual as pessoas designam esquerda), acabei sempre sendo alvo das conversas políticas dos meus amigos homens. não é como se eles falassem e falassem e eu estivesse calada o tempo todo - no fim, não tive amigos homens tão estúpidos assim - mas eles querem saber minha opinião. este fato sempre me intrigou, eu não sei se é porque visto minha própria pele, mas desde adolescente tenho a impressão que homens me procuravam para conversar, diferente de como faziam com minhas amigas. ainda hoje, estranhamente, sinto isso às vezes. eu não sei dizer se inspiro um interesse sexual insípido, bem pouco, mas o bastante para eles quererem iniciar uma conversa e não sei se é a forma com que respondo, sempre tentando ouvir e parecer honesta e humilde numa conversa, que eles continuam. nem todas as vezes é sobre política, simplesmente é sobre os assuntos que rondam a cabeça deles, aquilo que lhes apetece discutir e discorrer. eu estou longe de ser uma enciclopedia e ás vezes acabo tendo de pensar em coisas que nunca sequer fui atrás para tentar emitir opiniões válidas, inteligentes ou ao menos fazer as perguntas corretas. esse mecanismo durou tanto tempo que, nos últimos anos, não precisavam nem se dirigir diretamente a mim, mas eu comecei a ficar encantada com este modo de falar: há pesquisa em forma de dados, citações, fontes, opiniões fortes ditas de maneira doce e mesmices faladas de forma engajada, há um sibilar que não possui na minha fala e por isso me deixa estupefata. antigamente, essas ditas conversas, esse modo de falar, guiava meu prazer sexual - e só agora consigo visualizar isso. hoje, no entanto, me relaciono com uma mulher há um bom tempo e este interesse que os homens vêem em mim e que acabo respondendo, tornou-se uma curiosidade, algo meramente intelectual. as conversas que travo com minha namorada vão desde essas formulações indecisas, filosóficas, quase nunca um debate acalorado, até uma irritação exausta que nos resumimos a mandar tudo pro pau no cu. nessas e sem querer, eu enfiei o pau no cu da política do brasil, e da minha própria.
6. é curioso que o autor da apresentação da edição brasileira do livro de virginia trata esse modo de linguagem, reformulando, perguntando e refletindo cada vez que emite alguma máxima trata esse fator com carinho e admiração. primeiro, deve se tratar por ser virginia, outra gigante que tem sonhos perturbadores no céu, depois, imagino, a algum interesse editorial. com a recente ascenção da discussão feminista e de gênero nos meios culturais, no resgate das obras empreendidas por mulheres de todas as área e do interesse estratégico em lê-las, estando em projetos práticos como o leia mulheres e editoras voltadas a publicar somente autoras, parece bom tratar com carinho esta linguagem particular e denominá-la, enfim, como feminina ou feminista. há pouco tempo, e mesmo dentro da minha cabeça, essa minha característica de ouvir e não ter opiniões fortes me pareceu uma volutabilidade, remetendo à uma certa submissão das mulheres, sendo nosso pensamento muito mais volúvel ou moldável do que aquele proferido pelos homens. e esta característica sempre tivera tons obviamente negativos, gerando desconfiança nas mulheres que ocupam alguma posição de poder. em a síndrome da cinderela, livro dos anos 80 que considero controverso, a autora luta especificamente contra essa fala insegura, cheia de rodeios das mulheres, que denotam insegurança, e somatizam um certo pânico em ocupar uma posição de chefia; exemplificando com casos de mulheres com cargos poderosos que acabam recuando, mudando de área ou desejando casar-se para retornar a uma vida tranquila, sem ter de tomar decisões ou grandes sobressaltos. inúmeras vezes eu li em textos feministas que o modo político das mulheres difere dos homens justamente por sua capacidade de ouvir e entender; e por isso seriam mais aptas e melhores na política. ou no cinema. no livro feminismo y cinema, por exemplo, a autora cita textos dos anos setenta e oitenta de coletivos de cineastas feministas que comparam a linguagem masculina ao falo - reta, direcionada a um só objetivo, sem deixar-se permear pelas contradições - e por isso fariam um cinema pobre. e a linguagem feminina seria então como uma vulva - redonda, que acolhe as inúmeras possibilidades sem descartá-las, fazendo um cinema muito mais rico, pois contraditório e vivo. todas essas explicacões que buscam aliar o biológico (a forma do órgão reprodutor) a linguagem me parecem obscuras, obtusas e evidentemente perigosas - cair novamente nas diferenças entre homem e mulher é mais fácil que tropeçarmos numa rua esburacada.
7. mas não é óbvio que todos os escritores que valem a pena e mais fortemente aqueles que se consideravam militantes mudaram inúmeras vezes a forma do seu pensamento, buscando sempre a liberdade da humanidade? não são esses que estão retratados no corredor da história como os grandes contribuintes para o pensamento? é realmente válido nos determos sobre as diferenças de linguagem entre homens e mulheres?
8. os homens disputam a política no meu corpo. quando eu os ouço falar, de maneira correta, explicativa e cuidadosa, sinto como se eu fosse um território a ser disputado. mas o que tenho eu de tão importante assim para ser disputada? acham eles imprescindível que eu me aproxime mais do pensamento e da ideologia que defendem? no fim, sou eu mesma, perdida no escuro deste buraco aonde me enfiei por escolha própria, preservando minha liberdade individual (e nesse mote, acirradamente feminista e política), que me incomodo com o fato de não ter nada a ser defendido a não ser um conceito básico de liberdade pelo outro, de um bem-estar comum e da busca de um senso de comunidade que nos faça ainda mais sensíveis, que construa com mais maestria nossa própria subjetividade. nos últimos anos, fui lentamente me afastando de assuntos como qual a estratégia política para diminuir o desemprego, ou a revolução comunista, a interferência ruidosa do Estado nas nossas vidas para me dedicar a temas como o prazer e a finitude, o desejo e a morte, o sentimento pungente da autodestruição e da autosalvação. o Estado em absoluto não me interessa, e pensava me diferenciar das pessoas que gritam todos os políticos são corruptos! a política não presta para nada! mas no fim, tenho mesmo algum projeto que me diferencie deles? ou estou mergulhada nessa mesma indiferença, buscando explicações concisas como um niilismo em relação à vida pública, um derrotismo diante das inúmeras pessoas vulneráveis - os mendigos, os pobres, os viciados em crack, as travestis, as mulheres morrendo em salas de aborto clandestino, os negros encarcerados sem julgamento - e as execuções trágicas que tem cor, gênero e sexualidade. a sensação que diante de tanta informação e de tanta dor resta somente um estafamento, uma incapacidade de me surpreender e sentir. as lágrimas que deveriam verter dos meus olhos se transformam numa incômoda dor na nuca que nunca passa. tornei-me pouco a pouco o oposto do meu desejo de mundo, aquela sensibilidade provocada pelo senso de comunidade, com o pensamento dormente e a ação interrompida. levo uma vida confortável onde é possível ser apática às dores e aos problemas do mundo. não os esqueço, evidentemente, mas não os disputo. enquanto mulher, mais uma vez, sou disputada e não disputo.
9. é importante pensar, então, nas mulheres que estão na política e que por isso, exige-se delas aquela linguagem certeira, cheia de dados e fontes, inteligente, aguçada, coerente e firme. e pensa-se numa característica evidentemente masculina que emana delas; e se não percebemos isso, acabamos por massacrá-las. manuela e marina não são levadas a sério. os discursos confusos e obtusos de dilma, uma mulher que trazia em si o evidente masculino, enroscaram-se no seu pescoço levando-a a um enforcamento. lula disse que dilma é teimosa e inapta. no entanto, poucas pessoas refutaram-no. as críticas, que endosso, a esse discurso giraram em torno de lula se eximir e dissociar sua figura com a de dilma, alçando seus vôos eleitoreiros, mantendo intacta sua figura de gênio e mito. mas é ainda com resistência que vejo como saída escolher uma ideologia e um partido que me apeteça e panfletar firmemente. antes, prefiro analisar a situação à luz fria de que todos os seres humanos tropeçam, mudam de opinião, encontram-se com suas sombras e por mais que discursem, acabam por praticar pouco em sua comunidade. é preferível que os discursos sejam cheios de dúvidas, suposições e contradições, não importando a qual gênero pertence esta linguagem, para assim refletir com exatidão as ondas que embalam o pensamento e a história humana. minha política, pouco pragmática, vai de encontro a este estado onde será possível e não-condenável o ouvir paciente, a volubilidade, e a formulação de perguntas antes das respostas. infelizmente, eu não sei se isso serve à economia.
2. indo à flip comecei a ler um livro de ensaios da virginia wolf, o valor do riso e outros ensaios, em que na apresentação o autor discorre sobre as formas reflexivas, as pausas, o texto cheio de perguntas ao leitor, travessões e pontos e vírgulas, com que virginia escreve seus ensaios. e logo no primeiro parágrafo explana, a partir do ensaio da própria, mulheres e ficção, virginia assim escrevia a fim de reinventar a linguagem escrita dos homens, com suas frases pesadas e pomposas, ou seja construídas em cima da certeza, para uma escrita feminina, uma conversa derramada em papel. em que seus ensaios são produzidos em cima do "indício de que os mundos estão em mutação violenta; de que toda verdade é provisória, pois as possibilidades de ser são infinitas". legal. eu, leitora feminina, projetada nas ânsias de virginia apresentada desse modo, senti-me acolhida feito deitar-se numa cama já quente pelo calor do sol. na própria flip, a homenageada hilda hilst teve um tratamento um pouco semelhante quando se dedicaram a falar de sua política. numa mesa fora da programação principal, falando de seu teatro feio em 68 - o país pegando fogo, então - assinalaram-o completamente político e contra as autoridades, ainda que hermético, difícil, construído por meio das alegorias, rescendendo a becket. fiquei com a impressão de que, embora hilda nos fosse pintada feito louca, corajosa e excêntrica (assim, como virginia também é, autoritária e quase mimada), no campo da linguagem e da política as mulheres escolhem os meios. ficam com as dúvidas, com a amplidão, abrem-se aos horizontes, permitem-se ora dizer uma coisa e depois tropeçar noutra. nas mulheres, admite-se o perambular. mas também, uma vez lendo sobre a vida de walter benjamin me deparei com dois fatos inusitados quanto à sua praxis, o primeiro: a militância lhe fora introduzida por uma namorada, membro do partido comunista, e depois, ele tendo largado essa militância ativa, para poder escrever. há uma lista evidentemente enorme de escritores que saíram da militância partidária ou que não se adaptaram a coletivos políticos ou que foram perseguidos pelos próprios partidos que lutaram para eleger, como lukács, camus, marguerite duras. esta última, na edição da cahiers du cinema dedicada à ela, intitulada os olhos verdes, faz dois textos de aborrecimento com a política, um sobre um colóquio de escritores que tentam escrever uma carta, espécie de manifesto, e outro sobre a impossibilidade de um escritor de se manter fiel à um partido. para duras, quando um escritor milita no partido, ele perde sua liberdade e não pode mais escrever. só o que pode escrever é o que é estrito pelo partido, e como bem sabemos, partidos são pragmáticos o bastante para aparar todas as arestas, travessões, parenteses e reticências. um escritor, para duras, deve ser, primeiramente, livre.
3. sob esse pressuposto, vejo-me embasbacada diante das tentativas das pessoas de desmoralizar ou mesmo de desculpar autores por suas escolhas políticas. desde exemplos amargos como o apoio de borges à pinochet (e borges é um gigante da literatura, descansa no seu firmamento ás vezes acometido por fedores de peido quando alguém relembra essa característica de sua vida) e, evidentemente mais leve mas não tanto menos constrangedor, a recusa de escritoras como hilda ou adélia prado de serem chamadas de feministas. para hilda na flip, ovacionada, retratada através de anedotas feito pinceladas certeiras que compõe um mito sólido e venerável, e, evidentemente, mortíssima e por isso calada diante de novas perguntas ávidas, desculparam-lhe. disseram "há que se entender o contexto, o feminismo dos anos noventa." e depois "hilda é uma escritora sem rótulo, sem caixinha. vocês não conseguirão defini-la, colocá-la numa caixa." já adélia, vivíssima, não foram ainda capaz de perdoar o inimaginável crime de não se considerar feminista. a necessidade do perdão que as pessoas tem para com estes "velhos", nascidos em outras gerações, coloca a nós, leitores contemporâneos, sabedores da terra e do céu das opressões, superiores aos escritores. deixe o escritores e sua arte, parecem dizer. são bonitas e grandes, as coisas que escrevem. colocando-os feito deuses no olimpo, acabamos por perdoar suas fraquezas ou maldades, justificando-as, num processo engraçado de concomitante sensação de superioridade e inferioridade. é impossível olhar nos olhos de um poeta e ver um igual ou nos é impossível admitir que as fraquezas deles são aquelas a quais estamos também vulneráveis, sempre a um passo curto de encontrar dentro de nós, o mal? para que lemos, então?
4. bem, a cama quente pelo sol da forma reflexiva e cheia de dúvidas que virginia escreve a qual me deitei, já não me parece tão gostosa assim. por que é que sempre dizem coisas do tipo das mulheres; mesmo das mais porretas; se os homens, quase todos eles, tem uma conduta de vida semelhante à elas? será a linguagem usada por um e outro? por que é será que eu mal consigo exprimir um pensamento se não for em forma de pergunta, como esse parágrafo inteiro? e, no entanto, esta é a única posição que me cabe, porque sim, virginia, não há verdades, ou se há, elas mudam velozmente, e temos sempre de nos mover para captar seus anseios - seus olhos, de relance, que seja - e sim, duras, não é possível imaginar mundos, se enlamear da sujeira e da beleza deles, se estivermos ligadas a um mundo tão correto e quadrado quanto o político.
5. mas os homens inscreveram a política no meu corpo. como sempre fui predisposta a ouvir e conversar, a ponderar, como nunca demonstrei que estivesse aferrada à alguma posição política (a não ser aquela enorme guarda-chuva a qual as pessoas designam esquerda), acabei sempre sendo alvo das conversas políticas dos meus amigos homens. não é como se eles falassem e falassem e eu estivesse calada o tempo todo - no fim, não tive amigos homens tão estúpidos assim - mas eles querem saber minha opinião. este fato sempre me intrigou, eu não sei se é porque visto minha própria pele, mas desde adolescente tenho a impressão que homens me procuravam para conversar, diferente de como faziam com minhas amigas. ainda hoje, estranhamente, sinto isso às vezes. eu não sei dizer se inspiro um interesse sexual insípido, bem pouco, mas o bastante para eles quererem iniciar uma conversa e não sei se é a forma com que respondo, sempre tentando ouvir e parecer honesta e humilde numa conversa, que eles continuam. nem todas as vezes é sobre política, simplesmente é sobre os assuntos que rondam a cabeça deles, aquilo que lhes apetece discutir e discorrer. eu estou longe de ser uma enciclopedia e ás vezes acabo tendo de pensar em coisas que nunca sequer fui atrás para tentar emitir opiniões válidas, inteligentes ou ao menos fazer as perguntas corretas. esse mecanismo durou tanto tempo que, nos últimos anos, não precisavam nem se dirigir diretamente a mim, mas eu comecei a ficar encantada com este modo de falar: há pesquisa em forma de dados, citações, fontes, opiniões fortes ditas de maneira doce e mesmices faladas de forma engajada, há um sibilar que não possui na minha fala e por isso me deixa estupefata. antigamente, essas ditas conversas, esse modo de falar, guiava meu prazer sexual - e só agora consigo visualizar isso. hoje, no entanto, me relaciono com uma mulher há um bom tempo e este interesse que os homens vêem em mim e que acabo respondendo, tornou-se uma curiosidade, algo meramente intelectual. as conversas que travo com minha namorada vão desde essas formulações indecisas, filosóficas, quase nunca um debate acalorado, até uma irritação exausta que nos resumimos a mandar tudo pro pau no cu. nessas e sem querer, eu enfiei o pau no cu da política do brasil, e da minha própria.
6. é curioso que o autor da apresentação da edição brasileira do livro de virginia trata esse modo de linguagem, reformulando, perguntando e refletindo cada vez que emite alguma máxima trata esse fator com carinho e admiração. primeiro, deve se tratar por ser virginia, outra gigante que tem sonhos perturbadores no céu, depois, imagino, a algum interesse editorial. com a recente ascenção da discussão feminista e de gênero nos meios culturais, no resgate das obras empreendidas por mulheres de todas as área e do interesse estratégico em lê-las, estando em projetos práticos como o leia mulheres e editoras voltadas a publicar somente autoras, parece bom tratar com carinho esta linguagem particular e denominá-la, enfim, como feminina ou feminista. há pouco tempo, e mesmo dentro da minha cabeça, essa minha característica de ouvir e não ter opiniões fortes me pareceu uma volutabilidade, remetendo à uma certa submissão das mulheres, sendo nosso pensamento muito mais volúvel ou moldável do que aquele proferido pelos homens. e esta característica sempre tivera tons obviamente negativos, gerando desconfiança nas mulheres que ocupam alguma posição de poder. em a síndrome da cinderela, livro dos anos 80 que considero controverso, a autora luta especificamente contra essa fala insegura, cheia de rodeios das mulheres, que denotam insegurança, e somatizam um certo pânico em ocupar uma posição de chefia; exemplificando com casos de mulheres com cargos poderosos que acabam recuando, mudando de área ou desejando casar-se para retornar a uma vida tranquila, sem ter de tomar decisões ou grandes sobressaltos. inúmeras vezes eu li em textos feministas que o modo político das mulheres difere dos homens justamente por sua capacidade de ouvir e entender; e por isso seriam mais aptas e melhores na política. ou no cinema. no livro feminismo y cinema, por exemplo, a autora cita textos dos anos setenta e oitenta de coletivos de cineastas feministas que comparam a linguagem masculina ao falo - reta, direcionada a um só objetivo, sem deixar-se permear pelas contradições - e por isso fariam um cinema pobre. e a linguagem feminina seria então como uma vulva - redonda, que acolhe as inúmeras possibilidades sem descartá-las, fazendo um cinema muito mais rico, pois contraditório e vivo. todas essas explicacões que buscam aliar o biológico (a forma do órgão reprodutor) a linguagem me parecem obscuras, obtusas e evidentemente perigosas - cair novamente nas diferenças entre homem e mulher é mais fácil que tropeçarmos numa rua esburacada.
7. mas não é óbvio que todos os escritores que valem a pena e mais fortemente aqueles que se consideravam militantes mudaram inúmeras vezes a forma do seu pensamento, buscando sempre a liberdade da humanidade? não são esses que estão retratados no corredor da história como os grandes contribuintes para o pensamento? é realmente válido nos determos sobre as diferenças de linguagem entre homens e mulheres?
8. os homens disputam a política no meu corpo. quando eu os ouço falar, de maneira correta, explicativa e cuidadosa, sinto como se eu fosse um território a ser disputado. mas o que tenho eu de tão importante assim para ser disputada? acham eles imprescindível que eu me aproxime mais do pensamento e da ideologia que defendem? no fim, sou eu mesma, perdida no escuro deste buraco aonde me enfiei por escolha própria, preservando minha liberdade individual (e nesse mote, acirradamente feminista e política), que me incomodo com o fato de não ter nada a ser defendido a não ser um conceito básico de liberdade pelo outro, de um bem-estar comum e da busca de um senso de comunidade que nos faça ainda mais sensíveis, que construa com mais maestria nossa própria subjetividade. nos últimos anos, fui lentamente me afastando de assuntos como qual a estratégia política para diminuir o desemprego, ou a revolução comunista, a interferência ruidosa do Estado nas nossas vidas para me dedicar a temas como o prazer e a finitude, o desejo e a morte, o sentimento pungente da autodestruição e da autosalvação. o Estado em absoluto não me interessa, e pensava me diferenciar das pessoas que gritam todos os políticos são corruptos! a política não presta para nada! mas no fim, tenho mesmo algum projeto que me diferencie deles? ou estou mergulhada nessa mesma indiferença, buscando explicações concisas como um niilismo em relação à vida pública, um derrotismo diante das inúmeras pessoas vulneráveis - os mendigos, os pobres, os viciados em crack, as travestis, as mulheres morrendo em salas de aborto clandestino, os negros encarcerados sem julgamento - e as execuções trágicas que tem cor, gênero e sexualidade. a sensação que diante de tanta informação e de tanta dor resta somente um estafamento, uma incapacidade de me surpreender e sentir. as lágrimas que deveriam verter dos meus olhos se transformam numa incômoda dor na nuca que nunca passa. tornei-me pouco a pouco o oposto do meu desejo de mundo, aquela sensibilidade provocada pelo senso de comunidade, com o pensamento dormente e a ação interrompida. levo uma vida confortável onde é possível ser apática às dores e aos problemas do mundo. não os esqueço, evidentemente, mas não os disputo. enquanto mulher, mais uma vez, sou disputada e não disputo.
9. é importante pensar, então, nas mulheres que estão na política e que por isso, exige-se delas aquela linguagem certeira, cheia de dados e fontes, inteligente, aguçada, coerente e firme. e pensa-se numa característica evidentemente masculina que emana delas; e se não percebemos isso, acabamos por massacrá-las. manuela e marina não são levadas a sério. os discursos confusos e obtusos de dilma, uma mulher que trazia em si o evidente masculino, enroscaram-se no seu pescoço levando-a a um enforcamento. lula disse que dilma é teimosa e inapta. no entanto, poucas pessoas refutaram-no. as críticas, que endosso, a esse discurso giraram em torno de lula se eximir e dissociar sua figura com a de dilma, alçando seus vôos eleitoreiros, mantendo intacta sua figura de gênio e mito. mas é ainda com resistência que vejo como saída escolher uma ideologia e um partido que me apeteça e panfletar firmemente. antes, prefiro analisar a situação à luz fria de que todos os seres humanos tropeçam, mudam de opinião, encontram-se com suas sombras e por mais que discursem, acabam por praticar pouco em sua comunidade. é preferível que os discursos sejam cheios de dúvidas, suposições e contradições, não importando a qual gênero pertence esta linguagem, para assim refletir com exatidão as ondas que embalam o pensamento e a história humana. minha política, pouco pragmática, vai de encontro a este estado onde será possível e não-condenável o ouvir paciente, a volubilidade, e a formulação de perguntas antes das respostas. infelizmente, eu não sei se isso serve à economia.
junho 15, 2018
receita de bolo de cenoura
primeiro, as cenouras. essa parte não é lá muito fácil: a receita diz duas médias, mas serão três das pequenas ou uma daquela bem grande, na dúvida, escolha as médias. tire a casca e corte-a em rodelas. essa é a parte mais irritante de se fazer o bolo de cenoura, sem dúvida. descascar suja tudo de casca laranja e cortá-la crua é difícil, segurar a faca com as mãos pequenas é sempre um risco. mas respire e lembre-se que o bolo de cenoura é a coisa mais maravilhosa que há, e para isso, tem de cortar aquele legume laranja, pontudo e feio cuja maior missão na Terra é fazer um bolo gostoso que não tem seu gosto. bem, depois, quebre os ovos. quebrar os ovos exige cuidado e atenção, e pode ser assustador, quebre-os na ponta da pia ou da mesa mesmo, deixando um pouco de gema amarela sujando o local. jogue tudo dentro do liquidificador: as cenouras, os ovos, duas xícaras de açúcar, uma xícara de óleo. fazer um bolo é uma magia. duas xícaras de farinha, faça com calma e se divirta. puxe uma cadeira para perto da mesa, suba e observe a massa laranja se remexendo toda. uma colher de sopa de fermento, muito importante. unte a forma, com carinho, acariciando nela a manteiga e depois jogando grosseiramente a farinha em cima, batendo de um lado e do outro. cuide para que tudo esteja esfarinhado. despeje a massa na forma untada e faça questão de limpar ao máximo o liquidificador com uma colher, e depois um garfo, e os dedos, porque não se pode perder bolo: temos de ter muito bolo para comer. muitas vezes o bolo de cenoura era o nosso jantar. deixe a massa descansando um pouco e observe as bolhas de ar estourando na superfície. a ansiedade está cada vez maior, mas seu pai disse que é importante a massa descansar assim. o forno ligado e lá vai a forma. agora, a dor. esperar a massa ficar pronta é o cúmulo da ansiedade que um pequeno ser humano pode conhecer. o tempo todo, imagine e lembre-se do gosto do bolo de cenoura e se postre em frente ao forno acendendo a luz dele o tempo todo, vendo a massa crescer. vá ver tv e se distrair, para o tempo passar mais rápido. sem conseguir se distrair, pergunte quando vai ficar pronto. e de novo. e a cobertura! é preciso fazê-la. leite, nescau e açúcar. muito leite, muito nescau, muito açúcar. mexa devagarinho o leite quente em fogo baixo vendo ele se colorir de negro. continue mexendo e mexendo. até quando tem que mexer? eu perguntei, cansada, os braços já doendo. ele respondeu: já tá bom, ué, pensei que você gostasse de mexer. o que ele não entendia é que aquela cobertura nunca ficava igual ao da padaria. aquela casquinha crocante. vou contar o segredo, mas depois esqueçam que eu falei isso: pouco leite, chocolate e muito açúcar. você pode fazer um brigadeiro também. mas aqui eis o verdadeiro tesouro do bolo de cenoura perfeito: quando você jogá-lo sobre a massa, ele entrará dentro formando fios deliciosos de chocolate e deixando-o macio. vamos ver se a massa está pronta. primeiro, feche todas as portas e as janelas. nenhuma corrente de ar pro bolo não murchar. um bolo bom tem de ser grande, fofo. ih, não cresceu dos lados. nunca cresce dos lados nessa forma retangular. as janelas estão fechadas, a cozinha é quente, calorosa, confortável. tudo aspira afeto: a proximidade do bolo, a ansiedade para ver se deu certo e o calor do forno esquentando a pequena cozinha. enfie o palitinho para ver se ele sai limpo. se tem coisinha ainda, espere mais. mas agora, ele está perfeito, porque não quero falar da agonia de ter de botar de novo ele no forno e esperar mais, a ansiedade em seu pico mais agudo. e, depois, grandes chances dele murchar tristemente. um pouco, é verdade, ele murcha. você prende a sua respiração e sempre espera que um dia conseguirá tirá-lo perfeitamente, como ele estava na estufa. faça furinhos com o palito de dente por todo o bolo. aí sim, derrube lentamente o leite com chocolate e veja ela sumir se embrenhando dentro. peça seu pedaço. agora você irá comer a melhor coisa do mundo. as mãos e os pés são pequenos, os olhos redondos, de jabuticaba, o sofá puído, ele é vermelho, e vocês comem muito bolo de cenoura, metade da forma, até não conseguir mais. ele colocará ainda o bolo entre dois guardanapos e você levará um último pedaço para a casa de sua mãe. sua mãe também faz bolos de cenoura, mas não deixa você cortá-las nem mexer muito o leite quente. mas ela também faz aquela cobertura bem líquida, só que coloca menos açúcar, menos chocolate. a casquinha crocante do bolo de padaria continua um mistério. o bolo é bom gelado também, mas não há como ser melhor do que quente, recém-saído do forno. as horas de espera e ansiedade valerão a pena, você vai guardá-las com tanto afinco na sua memória que para sempre as sentirá quando fizer o bolo de cenoura, sozinha, na sua casa, com suas mãos crescidas, mas não menos desastradas.
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