julho 17, 2011

heartbroken

hei de expulsar, daqui
o meu medo de amar.

por isso te busco: te busco em cada olhar.

hey, i'm ready to be heartbroken.


julho 11, 2011

seis gatos e três cachoros

tinha seis gatos e três cachoros. cachoros assim com um r só, porque ela falava assim "meus cachorinhos", fazendo o r vibrar na língua. gostava de números exatos, como três e seis. por isso, quando a cachora ficou prenha, deu todos os filhotes. se ficasse com um, por mais chucochuco que eram os cachorinhos - rosinha, de olhinho fechado, se contorcendo igual uma minhoquinha - teria que adotar outro gato. e era bem certo que os gatos já reinavam ali. se a visitasse sem avisar, ia encontrar a velha mascando a própria língua, sentada no sofá carcomido, e em volta dela, os seis gatos - um em cima do encosto, outro no pé dela, outro na barriga, outro no braço, outro em cima da tevê, e outro no buraco do velho sofá - era tanto gato que mal se discernia a velha. quando chegasse, todos eles que fingem que dormem e ronronam só para não deixar a tv fazer ruído sozinha, iam abrir os olhos brilhantes, estáticos, viscosos. olhariam desconfiados, atinados, arrepiados. o preto logo ia mostrando os dentes, arranhando um r horrrível, mostrando as unhas afiadas. e ela batia três palmas, gritava em alemão e os gatos fugiam que nem mosca. num instante, e só havia a velha com aquele sorriso amarelo. até o preto fugia. e os cachoros, coitados, eram escárnio. tinha vez que eu achava que estavam ali para que os gatos pudessem maltrata-los. eles eram todos arranhados, meio sem pêlo. é que a velha deixava crescer as unhas dos gatos. e as pulgas comendo o couro dos cachoros. eles vinham andando, os três com aquele olhar de cachorro, que já é meio triste, vinham andando obedientes, como quem tem medo de pisar muito forte no chão. a velha chamava o cocker para subir no sofá e ficava fuxicando o pêlo do cachorro. dizia "são meus companheiros, todos eles." sorria. o cocker ronronava, assim como os gatos, de gratidão. fechava as pálpebras. "os cachoros gostam de mim, ah sim! gostam mesmo." e depois disso, ela o espantava e limpava, sem jeito, os pelos do sofá, que já era imundo. tinha um monte de bichos porque só assim podia-se viver. se tivesse paciência teria mais aquários, mais gaiolas, mais viveiros. a parede era entupida de um monte de coisa inútil, tapeçaria carcomida, quadro de uma árvore com flores roxas. "de quem é esse quadro?" ela balançava os beiços, ignorante. parecia que não gostava de memórias. era velha, mas sua casa tinha uma porção de coisas - como são as casas das velhas - mas umas coisas que pareciam simbolizar nada. tinha a foto de uns netos, da família, em porta-retratos empoeirados. mesmo as fotos pareciam não simbolizar nada. mesmo as violetas, quase sempre verdes, quase sempre floridas, não traziam qualquer sentimento. ela olhava, cansada, ao longe. a casa era pequena, mas ela sempre olhava longe. deve ter sido uma alemã loira, branca, mas os olhos não eram claros. eram qualquer coisa, qualquer cor, mas não eram claros, traziam dentro de si um escuro, um indefinido. eram pequenos. grandes eram as olheiras, marcadas, em volto do olho. quando se olhava para seus olhos, era mais para olhar aquelas olheiras, aquelas marcas profundas, os rasgos da velhice. os olhos se tornavam também um rasgo a mais, um rasgo de velhice. porque, de uma maneira ou outra, eles só podiam ser rachaduras, nostalgias, poços de memória. ela falava nada, deixava que as marcas falassem por si. tinha traços fortes, de alemã, uma boca grande e marcada. abria a boca para dar risada. sua risada era alta, esgarçada, cheia de rrrs estridentes; era latida, uivada. ela vinha, ás vezes, sem motivo, não porque era louca, mas porque não havia mais motivo para rir daquela maneira. porquê ria, eu não sei. talvez para espantar. espantar os outros, as moscas, o pó. o bolor que tomava conta de tudo. tudo era verde, cheirava à naftalina. e reclamava. reclamava tudo que não podia - era o que sabia, reclamava. ansiava, reclamava e dava ordens. mesmo sem ter para quem dar ordens, dava. comandava o pelotão deserdado dos seus filhos e dos seus netos. todos assentiam, cansados. alguns ainda se revoltavam. e ela gritava. gritava tanto que todos os objetos vibravam, objetos sem valor algum, quase explodiam. e por isso, tinha seis gatos e três cachoros, falava. o grito que desse, a risada que fosse, a louca que se tornasse o cocker ainda a olharia com olhos de piedade. e o gato preto ainda a vigiaria de noite, com os olhos brancos. e o siamês ainda passaria sua orelha na orelha dela. e à menor ordem que desse, eles obedeciam, sobressaltados. e somente à ela, obedeciam. aos outros, era o inferno. os netos pequenos sofreram mordidas, arranhadas, sustos. um filho que a importunava fora expulso quando ela mandou seu pelotão de animais dar um jeito dele. mandou assim, em alemão. e todos foram, treinados, cães e gatos contra o inimigo comum. o filho nunca mais voltara e ela e os bichos achavam isso bom. os outros filhos, agora, tinham medo dos bichos. e ela sorria, feliz. sorria porque os tinha, e porque eles a entendiam. ela falava em sua língua natal e eles ouviam, resignados, porque só isso podiam. e isso era amor, porque só isso podiam.

junho 28, 2011

redondos

você tem uns olhos fundos, pretos, redondos. tão perfeitamente redondos.
uns olhos que tem um não sei o quê que chamam para dentro, cada vez para mais fundo
fundo, fundo, fundo e infinito: anda-se por todo lado e só se vê esse seu escuro lacrimoso
fundo, fundo, fundo, não acaba mais, arredonda-se, acircula-se, e de baixo, também estou em cima
assim arredondado sem hierarquia: cava-se, cava-se, cava-se e não se chega; não há fim
espaço-tempo arredondado, quieto, me chama, me crava, e daqui mal posso sair
se me achego aos seus olhos pretos, confortáveis, serenos, não há como escapar
ali queria permanecer, eterno como por dentro ele é, arredondado em posição fetal
e meu círculo corporal então, se fecha com o círculo vicioso do seu olho letal
e assim, de tanto e pouco, que o tempo passa sem importar, que eterno seja seu arredondar

junho 10, 2011

subjuntivo

quisera que só de me olhar você me quisesse. que fixasse seus olhos ágeis em mim, que se demorasse em minha imagem, que escolhesse em mim o que mais te provoca. que me disesse, entre um riso entrecortado. e que tampouco eu precisasse responder, nem mesmo reagir, que fosse possível só te olhar, e desse olhar você pudesse extrair meu desejo. meu desejo interno é convulso e hiperbólico. fica aqui, reprimido no meu próprio corpo. quisera que só de me olhar você puxasse de mim essa vontade. te juro que é insaciável, uma sede imensa - uma sede de anos. e que no meu corpo você ficasse, o quanto quisesse, perdurasse, e que tudo o mais seria o seu: sem mais mistério então. e que mesmo assim você encontrasse mistério no abismal dos meus olhos. e que neles demorasse a se adentrar, um pouco receado. receio também me afeta, me alimenta. e nesse intervalo, então, eu já me contorceria toda: seria só sua sem mais. e que desse nosso olhar o mundo se extinguisse, nada mais existe, então. exitngue de mim esse desejo e junto do desejo, o mundo. se não desejo, não há porque haver resto de mundo, meu bem. e não é que chegamos ao fim: seria só o início.
mas que mais não posso te falar, não assim. queria mesmo é que você me olhasse, e só assim, eu já me sentiria um pouco mais aquecida. e só assim, eu poderia te olhar de volta, aceitando sem pestanejar o abismo do seu ser. em mim há espaço para tudo: espaço para seu choro escondido, sua solidão, espaço para seu amor piegas, espaço para seu tesão afoito. te dou todo o espaço que em mim habita para que você possa me preencher. me preencher sem escolher, de todas as maneiras, de todo o seu ser. e tendo todo o seu ser em mim, agora preenchida, quase sufocada, eu arderia. arderia para você, a qualquer momento do dia. e enfim, sorriria.
bastava mesmo que você me olhasse - com toda a vontade - e se achegasse, sem me deixar aflita de alguma desistência. queria mesmo que você fechasse os olhos e desse penhasco se jogasse - lá no fundo a água é gélida mas te espera. e a correnteza te levaria, leve, por onde você quisesse. prometo todo o meu amor, por fim, se é capaz de me olhar. e tão narcisa sou eu, a querer que você se aproxime primeiro, a querer que você se apaixone pela minha imagem (e tão só minha imagem, nada mais) que depois viraria pó: me humilharia, pequena, te daria mundos e fundos.
por isso perdoe minha vontade enorme que você se cole em mim. perdoe minha resistência se você não vem, com toda a certeza. perdoe minha tristeza se você não fixa seus olhos - de uma vez por todas - em mim. se você não quer, tudo bem. tenho vivido razoavelmente bem, sem grandes entregas. mas se você me olha assim - meio de lado, meio querendo - minha alma ambiciosa sacoleja desesperada, então perdoe se eu te escolho sem saber - juro, sem saber - e se dessa escolha eu espero, e enquanto espero só sei começar minha escrita no subjuntivo. subjunto o seu desejo, petrifico em mim o seu começo, me delicio se te imagino, triste fico porque não é isso. por isso, quisera. quisera que só de olhar você me quisesse - no meu desejo, mal vejo solução: veio junto dele o pessimismo gasto, a possibilidade inerte do não. sempre, do não. e fico aqui a contar, para me dispersar, porque assim, não sei me expressar. e as palavras já vão se acabando (elas já estavam se acabando no segundo parágrafo), já vão se rareando, se encolhendo e a vontade de dizer fica mínima, a inventar firulas, palavrear apenas para embelezar. embelezar o terrível de estar sozinha e fingir, assim, que meia dúzia de palavras decorativas serviriam para enobrecer a dor já velha. a dor inata. já vai se acabando, e eu sinto mais vontade de contar. contar não sei o quê, mas ao terminar resta-me eu mesma e minha mesquinharia, meu egoísmo, meu narciso, espelho, resta meu desespero calmo, minha falta. resta eu mesma que pouco me aguento - e se você me quisesse, talvez pudesse comigo dividir o fardo de tudo isso sentir. mas e se você me quisesse...
não mais agora.